Documentário 'O Retorno de Simone Biles' detalha cura mental com terapia, treinos básicos e tempo para si mesma
Produção que estreia nesta quarta-feira (17) com os dois primeiros de quatro episódios mostra não só os bastidores da volta da atleta à ginástica, mas a rotina da norte-americana desde as Olimpíadas de Tóquio, quando deixou a competição por questões de saúde mental e por não conseguir fazer movimentos no ar da mesma forma que antes
“Sinto-me muito grata por poder escrever meu próprio final”. A frase é dita por Simone Biles, a maior ginasta de todos os tempos, logo no trailer do documentário O Retorno de Simone Biles, que estreia dois dos quatro epsódios nesta quarta-feira (17), na Netflix. A produção mostra os bastidores da volta da dona de quatro ouros olímpicos aos jogos em Paris.
Simone Biles tem cinco acrobacias com seu nome. "Toda vez que eu apareço a expectativa é que eu ganhe", lembra ela no filme que tem coprodução do Olympic Channel, do COI, e traz entrevistas com pessoas próximas a atleta, como seus pais, o marido, Jonathan Owens, jogador da NFL, treinadores, colegas de treino e ex-ginastas da seleção.
A ginasta abre o jogo e o coração sobre como se sentiu em diversos momentos de sua carreira, dos twisties, como é chamado a desconexão entre o corpo e a mente durante a prática esportiva, que a tiraram das Olimpíadas de Tóquio, em 2021, sobre como ela ficou depressiva depois desse momento e das idas esparsas ao ginásio em que treinava no início da carreira, para retornar com o básico e aos poucos com sua atividade. O que durou até o início de 2023. Ela ainda lembra de quando foi abusada sexualmente por Larry Nassar, ex-médico da equipe de ginástica dos Estados Unidos.
Em uma das cenas que ela enfrenta a Tóquio-2020 é quando mexe em um guarda-roupa onde estão guardados as recordações desses Jogos Olímpicos. Ao segurar o collant da final de equipes, que ela usava quando desistiu da competição, desabafa: "Este é um bom lugar para ele por enquanto, porque até tocar nele é tipo...".
A produção também mostra a preparação de Biles para as Olimpíadas de Paris - as competições na ginástica começam dia 28 de julho. "Estava na cama e comecei a pensar nas Olimpíadas, meu coração acelerou. Tive que me acalmar e dizer para mim mesma 'ainda é janeiro, temos meses de preparação'", conta.
Mas a ginasta tem equilibrado a vida. Aproveita o tempo com sua família, base fundamental para sua saúde mental, faz visitas à casa que ela e o marido estavam construindo, e mostra as idas semanais a Green Bay, para ver Owens jogar e se reune com mulheres de outros atletas. "É bom vir aos jogos, conversar com outras garotas, não só sobre ginástica ou sobre mim. Antes eu pensava que era tudo ou nada, que eu precisava estar no ginásio, mas agora estou tirando mais tempo para mim, garantindo que, estando no ginásio, estarei focada", diz Biles.
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Voz ativa e representatividade negra
"Não importa quem você seja ou qual esporte pratica, todo mundo vai te colocar num pedestal e cabe você corresponder a essa expectativa", diz Biles na abertura do segundo episódio. Nele, ela aborda como construiu sua autoconfiança dentro e fora da ginástica.
"Não quero que me coloquem no centro das atenções, não tenho tudo sob controle, me colocam num pedestal, mas estou implorando para ser só humana", reflete. Biles divide o quanto ter equilíbrio entre a vida esportiva e pessoal fez bem pra ela.
E ainda o quanto sua imagem é alvo de críticas. "Os comentários sobre meu cabelo, em 2016, me incomodaram", lembra. "Bagunçado, duro, fora do lugar... as pessoas ficam confortáveis comentando coisas e por isso eu silencio. O padrão de beleza... é demais", diz ela.
O documentário aborda que ter uma aparência específica já foi muito importante neste esporte. E que o cabelo era o grande fator da ginástica. Além do padrão de beleza ser muito claro - literalmente. Cabelo loiro e liso. As meninas negras, com seus fios crespos e cacheados, eram automaticamente excluídas da possibilidade de serem belas.
"Sei como é ser a única mulher negra na equipe e não ter nenhuma referência para seguir. Felizmente, tivemos Betty Okino, Dominique Dawes, Gabby Douglas e muitas outras, mas foi um pouco tarde", diz Biles.
A ginasta lembrou um momento recente de grande representatividade negra: o pódio do Mundial da Antuérpia, na Bélgica, em outubro de 2023. "Naquele dia o pódio estava inundado de negritude, isso nunca tinha acontecido antes em um campeonato mundial", lembra ela, que dividia o momento ao lado da nossa brasileira Rebeca Andrade e com a norte-americana Shilese Jones.
"Desde sempre, isso é algo que você só sonharia em ver ou testemunhar, e muitas meninas precisam ver. As três juntas no pódio, sendo as melhores do mundo. Espero que isto inspire outras meninas", diz Biles.









