Eu, Leitora

Por Carol Sganzerla, em Colaboração Para Marie Claire

“Lembro daquele dia como se fosse ontem. Estava no final da gestação e fazia dois dias que andava agitada. Como já tinha dois meninos, o Arthur, de 8 anos, e o Thalles, de 10 meses, sabia que era um sinal de que podia estar chegando a hora. Eu estava separada do pai dos meus filhos, mas estava dormindo na casa dele porque tinha mais espaço, no Morro da Oficina, no bairro Alto da Serra. Chovia muito e comecei a ouvir uns barulhos. À medida que a chuva aumentava, a dor também crescia. Falei: ‘É hoje’. Fui ao banheiro, senti um estalo e quando abri a porta, vi que a ribanceira tinha desabado e o telhado da vizinha, caído. Me assustei e gritei, e no meio dessa gritaria a dor voltou a aumentar. Os vizinhos queriam me tirar dali, mas não tinha como eu passar, estava tudo cercado pelas barreiras de terra e lama.

Quando a chuva parou, umas sete e meia da noite, falei para minha mãe que não estava mais aguentando. Chamei o pai dos meus filhos, que estava na rua debaixo ajudando um rapaz machucado. Ele já sabia que a mãe dele tinha morrido, mas não me disse nada. Foi quando conseguiram me colocar dentro de um carro, mas estava quebrado. Fui pulando de carro em carro e cheguei no pronto-socorro com 7 centímetros de dilatação. Estava totalmente perdida, nervosa, meu marido queria ver o nascimento dela, porque sempre quis ter uma menina, só que ele não podia ficar, o PS estava muito cheio. As dores cresciam. A médica fez o exame de toque, rasgou a roupa e disse: ‘Tá na hora’.

Não me deram remédio, anestesia, soro, nada, porque toso material estava sendo usado para socorrer as vítimas da tragédia. Ali, eu não tinha noção de tudo que estava acontecendo, não sabia o tamanho da tragédia, só tinha visto cair a barreira perto de casa. Vi algumas crianças chegando cheias de lama, mas me levaram para um canto e fecharam a cortina em volta de mim. A Ágatha Vitória nasceu em 40 minutos, comigo deitada de lado, eu não tinha forças para me virar e a maca. Eu estava sangrando muito e a colocaram direto no meu peito para tentar estancar a hemorragia. Sentia muita dor e cada vez mais frio.

Os dois primeiros dias foram horríveis. Me botaram uma camisola, uma fralda, não tinha chinelo porque dei o meu no pronto-socorro para uma mãe que estava com lama nos pés. Não tinha sabonete, pasta de dente, não tinha toalha para me secar nem para secar a neném, eu ficava com muita fome, só conseguiam me dar mingau com bolacha. Como estava sem meu celular, não tinha falado com o pai dela, eu estava muito brava que ele não tinha ido ver o parto.

Nessa, minha mãe conseguiu que uma pessoa de moto fosse buscar meu celular. Quando liguei e ele atendeu, pediu que uma enfermeira ficasse ao meu lado. No viva voz, ele disse que a mãe, os irmãos e o sobrinho dele de 10 meses tinham morrido. Entrei em desespero, comecei a chorar, fiquei em pânico. O dia em que a filha que ele tanto queria nasceu, a mãe dele morreu. Nesse dia, eu estava quase de alta e me internaram de novo porque tive uma pré-eclâmpsia. Eu não parava de chorar.

Muita gente do hospital tinha se sensibilizado com tudo o que tinha acontecido com a gente, recebemos doações, roupas para a neném. Além de tudo, meu filho do meio, de 10 meses, estava tendo febre emocional e eu não podia estar com ele. Só pensava nele, no meu mais velho, em tanta gente que estava morrendo. Descobri que perdi amigos, clientes, vizinhos.

Uns 15 dias depois que a Ágatha nasceu, ela começou a ficar muito enjoada e a gente não sabia o porquê. Ela teve que passar por um monte de exames, descobrimos que ela tinha pegado uma bactéria por minha causa, por causa do contato com a lama, com a água. Com um mês, soubemos que ela tinha pegado sarna, mas pensava que fosse outra coisa, como uma alergia por causa da injeção que tomou ao nascer. Levei no pronto-socorro e a doutora queria internar ela com 15 dias, imagina. Mas o Thalles estava com crise de febre, não tinha como deixá-lo sozinho e ficar no hospital.

Até hoje, um ano depois, não consegui ir na casa da minha sogra. É horrível lembrar de amigos, parentes. Morreu muita gente. Dói muito. Meu marido levou três dias para achar o corpo da mãe dele e uma semana para encontrar os irmãos.

Adriana da Silva Ferreira com seus três filhos: Ágatha Vitória, Thalles e Arthur — Foto: Arquivo Pessoal
Adriana da Silva Ferreira com seus três filhos: Ágatha Vitória, Thalles e Arthur — Foto: Arquivo Pessoal

Só consegui ver como minha casa tinha ficado um mês depois. O que sobrou dela teve que ser derrubado e, agora, querem pagar um valor baixo, que mal dá para comprar um barraco novo. Era só um barraco, mas era meu: tinha quarto, sala, cozinha, banheiro. A gente reformou, pintou, trocou telhado. E o prefeito [Rubens Bomtempo] poderia ter começado as obras de contenção, para tirar metade do morro, um ano atrás, não precisava ter passado tanto tempo. É muita demora, e o tempo não espera, não.

Quando começa a chover, eu logo coloco meus três filhos na minha cama, porque, se acontecer alguma coisa, quero que aconteça dormindo. Não tenho mais esse pensamento de sair correndo. Vou sair correndo pra onde?

A Ágatha acabou de fazer 1 ano, mas foi muito triste. É também o dia de lembrar um ano da morte da avó, dos tios e do priminho dela. Compramos um bolinho só para não deixar passar em branco. Mas o pai dela ficou aéreo, desligado, chateado. Muitas vezes, ela dá um sorriso muito parecido com essa avó.

Quando descobri a gestação dela, o meu segundo filho tinha pouco mais de um mês de vida. Uma médica disse para mim: ‘Como é que você conseguiu engravidar no resguardo, amamentando? Sua filha, se ela não for a próxima presidente do Brasil, ela vai vir contar uma história muito importante. E a médica estava certa.”

Mais recente Próxima 'Conheci meu marido no Carnaval e nos casamos em um bloco de rua'
Mais do Marie Claire

Ex-sister conversa com a Marie Claire sobre rotina intensa após o reality, as amizades que se mantiveram e e os desafios de se dividir entre compromissos profissionais e culturais no Amazonas

Como Marciele Albuquerque concilia pós-BBB com o festival de Parintins: 'Maior loucura'

Participante comentou desdobramentos de caso recente e falou sobre os rumos da relação entre as duas fora do reality. Em conversa com a Marie Claire, a ex-sister detalhou o vínculo com a campeã desta edição

Milena, do 'BBB 26', explica como está amizade com Ana Paula Renault após polêmica no Dia das Mães: 'Fiz o que bem entendi'

Em conversa exclusiva com a Marie Claire, a artista contou detalhes das mudanças físicas e do processo de construção do papel

Alice Carvalho revela mudanças no olho e cabelo para viver Marta em novo filme: 'Personagem desafiadora'

Artista falou sobre o desejo de aumentar a família e contou como imagina a futura maternidade

Giovanna Lancellotti revela planos para engravidar em 2027 e diz que pretende ter até três filhos: 'Muita vontade de ser mãe'

Com preços a partir de R$ 78,47, selecionamos modelos bivolt com tecnologia iônica e até 1300W de potência para garantir agilidade e efeito de salão sem pesar no bolso

Escova secadora com 60% off no Magalu; 4 opções para um cabelo de salão

Apresentadora visitou espaço dedicado à trajetória da comunicadora e relembrou momentos marcantes da televisão brasileira

Patrícia Poeta se emociona ao conhecer acervo de Hebe Camargo: 'Senti imediatamente a energia dessa pessoa'

Artista apostou em um look grifado para Prêmio Sim à Igualdade Racial, que acontece na noite desta quarta-feira (13) e tem duas categorias apresentadas por ela

Bella Campos reflete sobre ausência de referências na mídia: 'Sei o impacto disso para os nossos sonhos’

Artista compartilhou registros da viagem e recebeu uma enxurrada de comentários dos fãs; veja os cliques

Paolla Oliveira ganha elogios ao abrir álbum de fotos na Itália: 'Por aí'

A premiação acontece nesta quarta-feira (13), no Rio de Janeiro

'Estar no digital é também disputar narrativas', diz Preta Letrada, finalista do Prêmio Sim à Igualdade Racial