Eu, Leitora

Por Ed Rodrigues, Colaboração para Maria Claire

"Comecei no teatro e fiz muitos trabalhos ainda criança. Desde muito cedo, gostava de imitar personagens de TV. Fazia cenário dentro do quarto, reproduzia as cenas, pegava meus bonequinhos, brinquedos, bichinhos de pelúcia, posicionava como na sequência do programa ou clipe de música a que eu estava assistindo. E eles contracenavam comigo.

A partir dos 11 anos, comecei a manifestar esse interesse de ir para a música. Minha mãe contratou um professor para me ensinar o básico de teoria musical e para eu poder fazer a prova do Curso Básico da Escola de Música da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Mas não foi suficiente.

Tive apenas três meses de aula e não sabia nada. Aos 13 anos, finalmente decidi trocar o teatro pela música e pedi para a minha mãe me inscrever na Escola de Música Villa Lobos, no Centro do Rio de Janeiro. Lá, tive aulas de canto e de piano.

Não é à toa que digo que a voz me moldou. Desde pequena, talvez numa tentativa de me entender, eu busquei compreender o mundo não de maneira racional exclusivamente, mas emocionalmente também. Vivenciava intensamente as pequenas coisas do dia, como uma forma de tentar buscar algum sentido em mim.

Finalmente me entendi enquanto mulher no fim da adolescência. Junto da identidade de autoafirmação, veio a busca cada vez maior de externar quem eu realmente era e como eu sentia, sem ceder ao que me impunham, ou ao que a sociedade esperava que eu fosse. Foi quando comecei a ter mais liberdade para fazer coisas diferentes das que eu vinha fazendo.

Situações de preconceito

Execução da peça 'Natureza de Deus', com o compositor Leandro Moraes ao piano — Foto: Arquivo pessoal
Execução da peça 'Natureza de Deus', com o compositor Leandro Moraes ao piano — Foto: Arquivo pessoal

Nunca tirei da minha vida nenhum professor preconceituoso. Eles me acompanham até hoje. Em uma época, havia um pianista que insistia propositalmente em sempre se referir a mim no masculino e usando meu nome de registro. Eu sempre o corrigia, mas não adiantava.

Aquilo me afetava profundamente, me deixava muito mal. Até que um dia, eu chorei diante da professora de regência coral e falei que não aguentava mais aquilo. Ela, que sempre me apoiou, disse: 'Vivian, seja forte. Não se deixe abalar. Sei que é difícil, mas infelizmente você tem que estar pronta para esses desafios.'

Numa outra situação, um dos colegas me relatou que, uma vez, esse mesmo pianista chegou diante de toda a turma, antes do começo da aula, e falou para o professor: 'Esse cara não vai ser nada, nunca será um bom regente.' Aí o professor questionou: 'Por quê?'. E ele falou: 'Por ser o que é'. O professor prontamente me defendeu, dizendo que não tinha nada a ver uma coisa com a outra.

Fiquei muito feliz na época, mas triste ao mesmo tempo.

Formação

A minha classificação vocal é de mezzo-soprano, que é, se a gente traduzisse para o português, uma 'meio-soprano'. Mas eu canto também muitas músicas que são para soprano. Hoje em dia eu sou um pouco de tudo. Sou cantora, pianista acompanhadora, regente, preparadora vocal, coralista profissional, organista, vocal coach, professora, atriz e defensora de direitos humanos.

No meio do meu bacharelado em regência coral, criei coragem e finalmente decidi mudar de curso para bacharelado em canto.

Eu tenho imensa admiração por muitas pessoas e colegas músicos, mas ainda enfrento muito preconceito e uma espécie de distância de algumas pessoas, como se tivesse alguma doença contagiosa.

A mensagem que eu mandaria às meninas e mulheres trans, mas também para os homens trans e às pessoes trans não-bináries que estão querendo cantar é um conselho que eu sempre ouvi dos meus professores de canto: técnica é uma coisa. A sua voz é outra. Nossa voz é orgânica.

Aceite a sua voz trans do jeito que ela é e se permita ter um timbre diferente. O timbre trans é lindo, aceite ele do jeitinho que ele é, e veja a beleza da representatividade que ele carrega. Se você deseja modificar algum aspecto vocal, sua técnica, ou seu timbre: vai lá, se joga! Não se limite a nada."

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