'Salvei minha vizinha do marido abusivo e hoje vivemos um amor lésbico'
Regilene Costa Almeida, 45 anos, vive em Macapá, no Amapá, e era vizinha da professora Irislandia Socorro, 51 anos. Ela não imaginava que Iris seria o amor de sua vida. Após ajudá-la sair de um relacionamento abusivo com o então marido, as duas redescobriram o amor, começaram a namorar e estão juntas há 11 anos
Por Raphaela Cunha, redação Marie Claire — São Paulo
"Eu e a Iris éramos vizinhas, mas não tínhamos tanta intimidade. Ela era muito na dela, e eu também não parava em casa, porque vendia roupas e joias. Mas meu pai faleceu, e eu entrei em depressão, adoeci e passei a ficar mais tempo em casa. A gente tinha uma vizinha que morava do outro lado da rua, a Daiane. Ela conversava muito comigo e com a Iris também. Naquela época, a Daiane ia muito à minha casa e começou a me convidar para a casa da Iris.
A gente começou a ir para lá e tomar uns frozens. Todo final de semana a gente se reunia. A Daiane também vivia em um relacionamento abusivo, então, ela ficava bastante com a gente, porque o marido dela ia para a farra. E o da Iris a mesma coisa. O dela, às vezes saía numa quarta e voltava só no domingo. Ele era uma pessoa muito ignorante, agressiva e batia nela. As pessoas sabiam como ele era.
Por causa disso, a gente começou a ficar muito juntas. Ele era muito mulherengo, e todo mundo sabia, porque não fazia questão de esconder.
Eu tive um relacionamento hétero. Vivia com o pai do meu filho e me separei dele quando o menino tinha dois anos. Ele não era agressivo, era uma boa pessoa, mas mulherengo. Eu terminei por causa disso.
Até então, eu nunca tinha me envolvido com mulheres nem a Iris. Quando eu entendi o que estava sentindo por ela, eu não queria acreditar. Para mim, era estranho. Não conseguia mais dormir, eu só pensava nela, mas também tinha medo de falar, porque não sabia qual seria a reação dela, e eu tinha medo de perder a amizade que tínhamos.
Eu chamei a Daiane e contei o que estava sentindo. Ela me falou: 'Se eu fosse você, eu falaria, porque também acho que ela gosta de ti'. Fiquei uns dois dias criando coragem. Quando foi um domingo, estávamos nós três aqui em casa e começamos a tomar um frozen. Eu pensei: 'Vou tomar mais um para conseguir falar'.
Mas eu não tinha coragem. Quando deu quase umas seis horas da tarde, finalmente disse que gostava dela. Ela ficou assustada, mas me fiz de doida e continuei. Quando foi umas sete horas da noite, só estávamos nós duas na casa e perguntei se eu poderia beijá-la. Ela disse que não. Eu fiquei surpresa e pensei: ‘Meu Deus! Será que não é assim que começa?’.
No dia seguinte, a gente se reuniu para fazer unha. Todo domingo a gente tinha esse ritual, e eu fui para lá. E em um momento, ficamos só nós duas, e ela me perguntou se eu lembrava do que eu tinha dito. A gente tinha tomado muita caipirinha e frozen, mas eu disse que sim, que eu lembrava.
A partir daquele momento, a gente começou a sair. A gente ía e levava nossos filhos junto --na época, os mais novos tinham 10 e 11 anos. Um dia, falei: ‘Vamos deixar as crianças com a minha mãe para dar uma volta’. E assim a gente fez. Em determinado momento, eu parei perto de uma loja e falei: ‘Agora a gente vai ter que se beijar’. Ela respondeu: ‘Eu não tenho coragem’. Então, eu falei: 'Vamos para a praça tomar mais caipirinha para a gente ter coragem'. E assim a gente fez.
Chegando lá, a gente tomou umas e começou a namorar, se beijar. No início foi bem complicado. Ficamos alguns dias pensando no que faríamos a partir dali. Ninguém fica só nos beijos, né? Então, pensei: 'Vamos viver normalmente'. O que a gente gosta que façam com a gente? Abraços, beijo e tal? Então a gente vai fazer o mesmo. E assim foi.
Só que a Iris ainda morava com o marido, embora em quartos separados. Quando ela disse que queria se separar, ele não saiu de casa. Com medo, ela dormia no chão do quarto das crianças. Colocava um travesseiro e dormia no chão. A situação era ruim. E ele a ameaçava, dizendo que se fosse embora iria persegui-la e matá-la.
Estava muito difícil. Quando ele chegava em casa, exigia comida pronta. Nessa época, ela trabalhava em dois turnos e estudava à noite. Em um determinado momento, ela não aguentou as agressões verbais e físicas e registrou um boletim de ocorrência.
Uma vez, ele invadiu a casa da mãe dela e bateu nela com o capacete. Foi então que a Iris pediu uma medida protetiva. A polícia chegou na casa para tirá-lo de lá, e ele levou quase tudo. A Iris também não se importou, porque queria viver em paz.
Quando ele saiu de casa, eu falei que não conseguia mais viver escondida. E quando você tem filhos, não tem condição de viver na mentira. Então, eu chamei a minha mãe e contei que estava gostando da Iris. Ela me colocou para fora de casa. Ela não gostou e não deixou eu levar o meu filho comigo. Liguei para o pai dele, não contei o que tinha acontecido, mas pedi para que ele viesse, pegasse o nosso filho e que, assim que eu pudesse, eu o pegaria de volta.
Teve um período aqui no Amapá em que houve uma greve muito grande nas escolas, e nossos filhos ficaram sem estudar. Aí a gente aproveitou. Viajamos por cidades próximas, nos divertimos, nos conhecemos melhor para ver se era aquilo que a gente queria mesmo.
Esse período foi muito conturbado. A mãe dela parou de falar com ela e me esculhambou. A irmã dela também. O ex-marido invadiu a casa da mãe dela e aqui onde eu moro. A gente sofreu demais no início. Eu andava apavorada. Foram uns dois anos assim. Quando escutava o barulho da moto dele, a gente se escondia. Passava até mal. Uma das filhas dela chegou a desenvolver um problema psicológico por causa dele.
A gente sofreu muito nessa época. Uma semana depois, minha mãe me ligou e pediu para eu voltar para a casa. Ela tinha se arrependido do que tinha feito. Na hora é difícil, eu entendo. Já a mãe da Iris, foi mais difícil. Ela passou um ano sem falar com ela.
Não foi fácil. Eles nos apelidaram de umas coisas horríveis. Alguns ficaram com raiva. Mas eles não imaginam o quanto nos feriram com essas coisas. A gente viu colegas de trabalho rindo. Mas não nos abalamos. Com o passar do tempo e nosso amadurecimento, deixamos para lá.
Quando decidimos morar juntas com nossos filhos, a gente conversou com eles. No começo rolou muito ciúme, foi uma confusão. Mas depois acalmou. Teve um dia em que os nossos filhos estavam brincando na rua, e outras crianças falaram para eles: 'Vocês são filhos das sapatonas'. Isso os feriu, mas a gente teve uma conversa e explicou sobre amor, carinho, respeito, sobre o que realmente é família e que não é só pai e mãe, mas onde existe amor e união. Eles choraram muito, e essa conversa os acalmou. Depois, eles foram os primeiros a bater no peito e dizer: ‘Não fale assim da minha mãe’.
Hoje os nossos filhos trabalham e estudam. São pessoas do bem e de grande coração. A nossa vida foi bem complicada, passamos por vários perrengues, por preconceito. Mas hoje a gente vive como qualquer pessoa. Somos um casal de muito respeito. Nunca tínhamos vivido com pessoas do mesmo sexo e construímos devagar o nosso amor. A gente nunca brigou, sentimos falta uma da outra. Estamos juntas há 11 anos."









