Eu, Leitora

Por Em Depoimento A Kizzy Bortolo, colaboração para Marie Claire — Rio de Janeiro

“Eu sou a Maria! Para quem não me conhece sempre fui Maria! Antigamente, meu nome era João, mas te pergunto: ‘Se João fosse Maria que diferença faz?’ Para mim faz muita diferença, pois essa é a forma que eu me vejo, porém, para sociedade, mesmo eu sendo Maria, muitos ainda insistem em não me enxergar, me tratando (ainda!) com os pronomes errados e não me deixando frequentar determinados lugares.

Mas antes vou contar um pouquinho da minha história. Nasci em Curitiba e até os meus seis anos de idade morei com a minha mãe biológica e os meus dois irmãos mais novos, Talhia e Carlos. Era uma vida bem difícil, não tínhamos comida em casa, nem higiene, tudo bem precário e complicado. Me lembro de dormir no chão e via ratos passando entre nós. Era assustador!

Eu e meus irmãos também não íamos à escola, nem estudávamos em casa. Nossa mãe biológica não se preocupava com isso. Lembro dos meus pais e eles brigavam bastante. Cada um de nós era filho de um pai diferente. E era muito estranho ver todo mundo brigar em casa.

Muitas coisas terríveis aconteciam onde vivíamos, até que, um dia, lembro de uma kombi branca chegar até à nossa casa. Na hora, me recordo que meus dois irmãos mais novos e eu estávamos assistindo o desenho da Galinha Pitadinha. Da kombi desceram alguns adultos e nos levaram embora. Essa cena ficou marcada na minha cabeça! Logo, constatei que eu e meus dois irmãos fomos levados para um abrigo da nossa cidade.

Nessa época, eu tinha seis anos e, embora meu nome fosse João (era assim que todos me chamavam em casa), eu já me via como uma menina. Só queria usar roupas de menina e já tinha o cabelo grande. Porém, ao chegar no abrigo, tive meu cabelo raspado e virei o ‘reizinho’, palavra que lá sempre usavam para se referir a mim. Não entendia bem o porque daquele apelido. Hoje entendo que tentavam reforçar o masculino em mim, já que eu havia chegado no abrigo, segundo as próprias palavras do coordenador de lá, como uma menina e eles não aceitavam isso.

Por dois anos vivi nesse abrigo e não foi nada bom. Eu era uma criança triste, tímida, não brincava, nem interagia com as outras crianças no recreio e, mesmo estando na escola, não participávamos de nenhuma atividade extra (festas, confraternizações, nem passeios).

No abrigo também sofri abusos. Mas não me sinto confortável para falar sobre isso, pois ainda dói muito! Quem sabe, futuramente, eu esteja mais preparada para explorar este assunto que ainda é muito difícil para mim.

Dois anos se passaram e mais de oito mães sociais entraram naquele abrigo. Muitas crianças foram adotadas, mas eu e meus dois irmãos continuávamos lá. Até que num dia, dois rapazes muito simpáticos e amáveis, Cléber e Gustavo, foram ao abrigo nos visitar e se afeiçoaram a mim. Eles eram um casal. Eu ainda era muito tímida, sempre andava triste e cabisbaixa, não entendia bem toda aquela situação de adoção. E, por mais que o abrigo não fosse bom, eu já o via como lar, pois era ali que eu vivia há dois anos. Mas a possibilidade de ter meu próprio lar me deixou feliz e animada! Só que tinha um ‘segredo’ em questão e muito medo da adoção não acontecer por conta disso, já que eu era um menino que não me via como menino. Será que eles iriam me aceitar?

Lembro que quando fui visitar a casa dos meus futuros pais, pedi para eles rasparem o meu cabelo. Prontamente, eles rasparam e chorei muito na hora. Eu queria agradar a eles, mostrar que eu era um menino, mas só eu sei como aquilo me doeu. Eles também não entenderam nada! Aos poucos, já morando com meus novos pais na nossa casa, fui mostrando que João era, na verdade, Maria. E percebi que seria ali sim, eu seria aceita e respeitada nesta condição pela primeira vez na minha vida! Lembro que também não foi fácil para eles, a família toda foi fazer terapia e, desde então, todos fazemos.

Agora sim, eu tinha dois pais: Cléber e Gustavo! Eles são muito amorosos! Enfim, tinha um lar! E eles também adotaram meus dois irmãos, Carlos e Talhia, para não ter que deixá-los no abrigo e não separar os irmãos.

Cléber e Gustavo adotaram Maria Joaquina e seus irmãos Carlos e Talhia — Foto: Acervo pessoal
Cléber e Gustavo adotaram Maria Joaquina e seus irmãos Carlos e Talhia — Foto: Acervo pessoal

Me lembro que, desde sempre, pude ser quem sou e, no começo, tínhamos alguns combinados na nossa casa. Por exemplo, de eu só me mostrar como ‘Maria’ para alguém de muita confiança, já que eles tinham medo do julgamento dos outros. Tinham medo também de como eu poderia ser tratada ou julgada pelas pessoas. Mas aquilo para mim não estava bom, queria mudanças. E, cada vez mais, a Maria ia surgindo e me deixando mais realizada.

O que não sai da minha memória é o dia que fomos para uma festa de aniversário da minha prima e lá peguei um maiô para ir à piscina com meus irmãos. Só que ao chegar no banheiro e vestir o maiô, meu pai Gustavo pediu para eu tirar e vestir um calção de banho. Fiz o que ele pediu, vesti e fui para a piscina. Naquele momento percebi que não dava mais para esconder quem, de fato, eu era, e falei para meus pais que queria fazer uma festa de aniversário e nela queria usar um vestido. Eles toparam! E, a partir daquele dia, sou Maria para todos! Ali, naquela festa de aniversário, renasci! Só não imaginava que a minha transição teria tantas consequências… Ôh, e como teve! Mas eu estava disposta a encarar tudo que fosse preciso para ser eu mesma! E foi o que fiz.

Aos oito anos, após a minha adoção, comecei a patinar. Meus pais já tinham uma escola de patinação em Curitiba e logo me apaixonei pelo esporte! E já como Maria, decidi competir, com o total incentivo e apoio dos meus pais, que também são os meus treinadores. Lembro que, desde então, nada foi fácil. Em 2017, passei a competir no meu estado, onde já tive o início dos incidentes e do preconceito da não aceitação por parte das organizações da patinação de rodas criando dificuldades e obstáculos quanto à minha participação. Ali tive zero inclusão.

Maria Joaquina patina desde bem jovem e seus pais são os treinadores — Foto: Acervo pessoal
Maria Joaquina patina desde bem jovem e seus pais são os treinadores — Foto: Acervo pessoal

Já no meu primeiro campeonato de patinação no gelo, por exemplo, não respeitaram meu nome social e me chamaram, na frente de todos, por João, me constrangendo na frente do todo o campeonato. Oras, por mais que hoje eu não tenha tantos problemas em falar esse nome (João), na época ainda era muito difícil para mim escutá-lo. E ouvir o locutor do campeonato me chamar na frente de todos por ‘aquele nome’ confesso que me doeu bastante! Fiquei triste, arrasada, mas segui em frente e competi! Fiz a minha apresentação.

Muitas coisas meus pais não me falavam, para não atrapalhar a minha concentração como atleta pois, além de responsáveis, eles também eram os meus treinadores. Só depois fui saber que fui impedida de usar o banheiro feminino porque não me viam como uma menina. Os pais das outras crianças que competiam começaram a reclamar junto à coordenação do evento. Eu só podia ir ao banheiro acompanhada por um adulto do sexo feminino. Mas eu tenho dois pais! Ou seja, tentaram, mais uma vez, nos constranger e nos diminuir de todas as formas. Mais uma vez, levantei minha cabeça e segui em frente. Fiz uma bela apresentação com meus patins sob o gelo. Nessa época, já estava com 11 anos e fui evoluindo muito bem na patinação.

Com muitos treinos e dedicação, logo cheguei ao Campeonato Brasileiro e tive a chance de pegar um pódio e a convocação para o campeonato Sulamericano era real! Fui, participei e fiquei em segundo lugar. Estava feliz demais pela convocação, que já era certa. Mas, para minha surpresa, não havia sido convocada por ser uma menina trans. Meus pais brigaram bastante com a confederação. Eles decidiram que o melhor seria expor toda situação e preconceito a todos. E, mesmo com a ajuda de muita gente, que deram visibilidade ao meu caso e à minha história, a autorização para eu conseguir competir saiu apenas na véspera do campeonato. Ou seja, estávamos muito apreensivos com este resultado. Meu caso tomou uma proporção enorme em todo país e teve um apelo nacional.

No dia do campeonato, evidentemente, estava muito nervosa, pois não havia reconhecido a pista antes e, com isso, errei bastante, cai algumas vezes e terminei o campeonato Sul-Americano em 13° lugar, para minha total frustração. Estava decidida a treinar ainda mais e provar que eu era capaz! Retornei para casa, em Curitiba e treinei bastante na escola de patinação dos meus pais, evolui muito e, em 2021, me tornei vice campeã mundial da minha modalidade, campeã brasileira na categoria ‘Junior’ em 2022 e, no ano seguinte, fui campeã Sulamericana.

Maria Joaquina já venceu diversos campeonatos de patinação no gelo representando o Brasil — Foto: Acervo pessoal
Maria Joaquina já venceu diversos campeonatos de patinação no gelo representando o Brasil — Foto: Acervo pessoal

Evolui também na patinação no gelo e fui conquistando cada vez mais espaços nunca antes conquistados por uma atleta brasileira que não havia treinado fora, em ringues olímpicos, ainda. Sempre treinei em pista normal de shopping e não mais que dois meses de treinamento intensivos no ano. Sou a única patinadora solo a ser convocada a representar o Brasil no campeonato ‘Junior Grand Prix de gelo’. E isso para mim é um grande sonho! Nunca imaginei chegar tão longe!

Com a convocação, também fui convidada a treinar na Europa, na Itália, porém, não viajei acompanhada dos meus pais, eles não puderam ir. Fui com uma pessoa indicada pela própria Confederação. Havia muita diferenciação social em relação a mim e isso me deixava muito triste e mal, além de ficar sozinha por diversas vezes, enquanto a pessoa responsável por mim ia passear, ia às compras e se divertir. Fora as falas e atitudes bem abusivas que a tal pessoa tinha comigo. Nossa, voltei da Itália tão pra baixo, com muita disforia, ou seja, com vergonha do meu próprio corpo, pois até as roupas que eu vestia e o meu tipo físico (que ela julgava ser mais forte) eram motivos de comentários e julgamentos. A partir desse momento, me fechei completamente e senti medo. Aguentei o quanto deu, sem contar para os meus pais, com receio de ter que voltar ao Brasil e, assim, desistir do meu grande sonho: treinar e competir fora do país representando o meu país.

Quando retornei para casa, falei com meus pais que não queria mais patinar nunca mais na vida. Parecia que meu sonho tinha se tornado um grande pesadelo! E a minha carreira esportiva estava a beira de acabar. Depois de muita conversa e diálogo com eles, não aguentei, e lhes contei tudo que vivi na Itália.

No último dia para inscrição do ‘Campeonato Brasileiro de Rodas’ acabar, decidi que os outros não iriam conseguir estragar o meu sonho. Voltei com todo gás! Não foi fácil, competi já este ano, em 2023, e fiz a minha melhor apresentação até agora. O campeonato foi no Paraguai e, para minha alegria, mais uma vez fui selecionada para representar o Brasil no ‘Junior Grand Prix de Gelo’, em Linz, na Áustria e Osaka, no Japão. Me sinto feliz e super realizada que, mesmo com tudo que tenho passado, com todos os ‘nãos’ que ouvi, com todos os preconceitos, a falta de empatia e por quererem me inviabilizar, ainda assim, sigo na resiliência para continuar e mostrar o que sou capaz dentro do esporte que eu amo e escolhi para viver e competir.

Hoje, estou com 15 anos, meus irmãos Talhia e Carlos, 12 e 10 anos, respectivamente. Me sinto plena e realizada e, com a ajuda e o apoio dos meus dois pais, Cléber e Gustavo, cada vez mais sei que posso chegar onde desejo. Eles acreditam e sempre apostam nos nossos sonhos".

Maria Joaquina ainda sonha em ganhar mais campeonatos de patinação no gelo representando o Brasil — Foto: Acervo pessoal
Maria Joaquina ainda sonha em ganhar mais campeonatos de patinação no gelo representando o Brasil — Foto: Acervo pessoal
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