'Por ser lésbica e umbandista, me expulsaram de casa e só fui acolhida de volta após a morte da minha irmã'
Na adolescência, a influenciadora Izabela Severo entendeu que era diferente de seus pais: um pastor e uma evangélica convicta. Ao se assumir lésbica, não foi aceita, e acabou sendo expulsa de casa ao seguir a religião umbandista, subjugada pela comunidade em que cresceu. A família só voltou a se falar após a perda de Mariana, a única irmã da jovem
“Acredito que para todo mundo que conviveu em um lar cristão há um padrão: tudo é pautado no pecado, no erro, nas coisas que podem ser feitas e naquilo que não pode. Não acho ruim existir limites até certo ponto, o problema vem quando eles nos atravessam."
"Quando eu era criança, meus pais conseguiam me limitar muito. Se eu quisesse um sapato da Sandy e Júnior, que era uma febre na época, não podia. Se quisesse algo da Xuxa, nem pensar! E não tinha um motivo, não podia porque não. Isso já me causava, de certa forma, algum incômodo. Eles não me viam como uma pessoa que tinha um pensamento crítico e tudo o que eu falasse, meu pai pegava a Bíblia para rebater.
Sabia que precisava respeitar porque eles tinham aquele pensamento de todos os pais: ‘Enquanto você morar embaixo do meu teto, faz o que eu quero’. Por isso, cresci pensando em arrumar um emprego e guardar dinheiro. Sabia que chegaria o momento em que não aguentaria mais. Ao longo da vida, em várias ocasiões, recebi provas de que aqueles dogmas não faziam sentido para a minha cabeça.
Na adolescência, foi o momento em que passei a me descobrir. Parece louco pensar nisso, mas quando você está em um grupo tão fechado, não existe conhecimento sobre assuntos como os da comunidade LGBTQIAPN+. É uma criação muito limitante."
"Com 15 anos, assistindo Xena: A Princesa Guerreira, ouvi pela primeira vez o termo ‘sapatão’, porque meu tio me disse que a Xena era namorada da Gabrielle e era ‘sapatão’. Nesse momento, já sabia que era um pouco diferente, mas nunca investiguei a fundo.
Foi somente quando me encantei por uma menina pela primeira vez que entendi qual era a diferença. Lembro que um dia, entrei no meu quarto, me olhei no espelho e pensei: ‘Meu Deus, eu sou ‘sapatão’. Como vai ser isso? Não pode ser! Eu devo gostar de menino também’. E comecei a tentar impor essa ideia na cabeça.
Foi um processo de muita negação, porque as únicas vezes em que meus pais falavam do assunto era no lugar do preconceito, dizendo que o mundo estava perdido. Tive minha primeira namoradinha com 16 anos e não deixava nenhum rastro para que eles não descobrissem.
Porém, com 18 ou 19, eu não aguentava mais e decidi contar. Por incrível que pareça, meu pai foi mais ‘de boa’ do que minha mãe. Mas ele ainda pensava daquele jeito cristão: ‘Para toda escolha existe uma renúncia. Não existe cura pra isso, mas você pode renunciar’, ele dizia. "Com a minha mãe foi mais difícil, ela me disse: ‘Preferia uma filha morta do que uma filha lésbica. Preferia que você morresse, que eu te perdesse para Jesus’.
Depois disso eu saí de casa pela primeira vez e fui acolhida por uma amiga, a Gabi, que hoje é minha madrinha. Durante a nossa convivência, ela compartilhou comigo algumas coisas sobre a Umbanda e me enxerguei muito ali naquela religião, a sensação era de que aquilo era muito familiar.
Quando eu ainda estava receosa em contar para a comunidade que era lésbica, Gabi me disse que aquelas coisas [preconceito] não existiam ali dentro. Eu poderia ser quem era, podia levar minha namorada, sair da gira e ir ao pagode, inclusive, às vezes, o pagode acontecia lá. Naquele momento e até hoje, a espiritualidade foi muito generosa comigo."
"Nesse meio tempo, voltei a conviver com os meus pais, mas as coisas ficaram extremamente complicadas. Quando meu pai descobriu minha nova religião foi demais para ele. Foi então que veio o ‘convite’: ‘Macumbeira’ e ‘sapatão’, não dá! Deixa a chave e sai de casa’.
Na questão religiosa, acho que foi muito mais difícil para eles, porque é algo que tentavam me moldar. Mas nunca quis que eles engolissem a minha crença, por isso, já me preparava para essa discordância, mas não para ser expulsa. Ao mesmo tempo, em relação à minha orientação sexual, estava lúcida de que não haveria aceitação, então não foi um choque. Se você falar com dez pessoas que são LGBTQIAPN+, pelo menos nove vão falar que passaram por isso.
Passei muito tempo sem ver meus pais. Foi na época em que comecei a namorar a Maria, que hoje é minha mulher. E a comunidade religiosa em que cresci esqueceu até mesmo que eu existo. Foi como se nunca tivesse passado por lá. Algumas pessoas da família, minhas tias e até minha avó, tentaram entender o motivo da minha distância. Quando contei, a reação foi muito diferente dos meus pais, porque elas me convidavam para os almoços e chamavam minha namorada também."
"Levei minha vida assim até o dia em que minha irmã, que tinha questões cardíacas, ficou muito doente e, absolutamente do nada, morreu aos 25 anos de idade em abril de 2020. A partida dela abriu um buraco absoluto na minha família, minha irmã sempre foi a pessoa que esteve com eles e era dela que minha mãe queria de fato ser mãe.
Foi então que decidi parar a minha vida e passar alguns meses com eles, principalmente com a minha mãe. Mesmo naquele cenário, com aquela dor que minha mãe estava sentindo de perder uma filha, a situação entre nós era muito ruim. Onde eu tentava construir uma ponte, minha mãe levantava um muro. Com esse pensamento, tive minha última conversa com ela sobre aceitação e falei: ‘Vejo claramente que você não quer ser minha mãe. Você pode me amar, mas não gosta de mim, de quem sou’. Depois dessa conversa, eu fui embora.
Levou seis meses para a gente voltar a se falar em condições tensas, assim como na morte da minha irmã. Minha mãe disse que meu pai tinha sofrido um AVC, do qual ele se recupera até hoje. Nesse cenário de dor, ela me pediu perdão, falando: 'Eu não sabia a dor de ter um filho morto e agora sei. Em hipótese alguma quero sentir essa perda novamente. Te prefiro do jeito que você é'.
A gente voltou a conversar, mas nunca forcei eles a conhecerem a Maria, entenderem minha religião ou a comunidade LGBTQIAPN+. Porém, um tempo depois de recuperarmos o contato, em um dia que a minha mulher foi me buscar na casa deles, minha mãe entrou no carro e se apresentou para ela.
Após esse episódio aconteceram muitas mudanças: eles passaram a convidar a Maria para tudo, minha mãe conversa com ela pelas redes sociais e meu pai passou a chamá-la de filha. Acho que essa aceitação dos meus pais, essa ruptura com preconceitos tão internalizados, foi a maior prova de amor deles por mim. Hoje, os dois têm a religião deles, o próprio estilo de vida e eu tenho o meu. Ninguém mais tenta fazer o outro engolir o que acredita. Depois de anos, nossa relação é de muito respeito. Sinto que hoje, sim, somos uma família."









