Eu, Leitora
Por
Ana Serra
, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)

"Eu sou a Francilia, tenho 29 anos e nasci na cidade de Brejo do Piauí, no Piauí. Cresci com meus avós maternos, e isso fez com que eu aprendesse a ser adulta antes mesmo de entender o que significa ser adulta. Minha avó era religiosa e sempre trazia para dentro de casa a vivência da fé. Meu avô, por outro lado, era mais do mundo.

Com 15 anos, já namorava e comecei a viver uma espiritualidade mais intensa. Foi nessa fase que me perguntei: ‘É só isso que quero para a minha vida?’ Eu vinha de uma cidade minúscula e, ao me deparar com a realidade de meninas que cresciam, namoravam, casavam, tinham dez filhos e morriam ali, comecei a me questionar. Naquele momento, diante daquela realidade que parecia ser meu único destino, tive a oportunidade de sair de casa e conhecer novas culturas. Foi quando entrei em contato com a vida missionária dentro da Igreja Católica.

Aos 16, comecei um acompanhamento com as irmãs e conheci a vida religiosa. No início, achei que não era para mim. Pensava: ‘Que vida mais sem graça! Deve ser horrível ficar parada o dia inteiro, sem fazer nada’. Na época, eu ainda namorava, e a pessoa da igreja que me acompanhava dizia: ‘É importante saber discernir. Não tem como decidir algo para você sem conhecer aquela realidade’."

"Terminei o namoro e me dediquei a conhecer a vida religiosa. Saí do Piauí e fui para o Paraná, onde fiz a experiência do aspirantado, que é a fase inicial para quem entra no convento. A seguir, fui morar em Minas, porque cada etapa da formação acontecia em um lugar diferente. Passei por cidades no interior de alguns estados, já na etapa do noviciado, quando conheci a Luiza.

Sempre me considerei uma pessoa que sentia atração tanto por meninos quanto por meninas, mas foquei tanto na fé que deixei isso de lado. Achava que, se fosse da vontade de Deus, um dia viveria outras experiências. Quando decidi meu caminho sagrado, voltei para Minas e fiz os votos, que é um compromisso mais sério, embora ainda não definitivo. Ao morar lá, enfrentei uma crise psicológica e as irmãs me transferiram para a casa onde Luiza morava, no interior de São Paulo, onde eu já tinha vivido.

Aqui é a Luiza, tenho 23 anos. Sou natural de Pouso Alegre, Minas Gerais, onde atualmente moro. Diferente de Francilia, eu não tinha uma vivência religiosa. Meus pais são divorciados, se separaram quando eu tinha 8 anos. Morei a vida inteira com minha mãe, que sempre trabalhou bastante, então eu passava a maior parte do tempo na roça com meus avós. Minha avó, inclusive, já não está entre nós, mas ela fez toda a diferença na minha vida. Conforme fui crescendo, a questão da fé começou a ser introduzida na minha rotina, quando minha avó passou a insistir que eu fizesse catequese e frequentasse missas. Comecei a querer participar por influência dos meus primos, que já faziam parte de grupos de jovens. Foi aí que me envolvi mais com a igreja.

Como toda adolescente, também havia o interesse nos meninos, mas a sexualidade sempre foi algo difícil para mim. Eu não sentia atração por ninguém com facilidade. No meio disso, comecei a namorar um menino quando eu tinha 15 anos. Esse relacionamento me colocou em um conflito interno: quem eu era, o que gostava, o que queria para a vida. Havia um grande tabu na igreja sobre a questão psicológica, então acabei me sentindo perdida. Queria fugir, descobrir um mundo novo. Acabei terminando esse namoro e pensei: ‘Quero me dedicar à religião’."

Francilia e Luiza ficaram noivas em 2024 — Foto: Acervo pessoal
Francilia e Luiza ficaram noivas em 2024 — Foto: Acervo pessoal

"Comecei a pesquisar mais sobre a vida consagrada. Até então, participava de um grupo de jovens da Renovação Carismática, mas fui percebendo que a Igreja Católica era muito maior do que aquilo. Decidi que queria fazer missões. Meu maior prazer era trabalhar com crianças, brincar, ensinar. Foi quando conheci as irmãs em uma cidade próxima a Pouso Alegre que percebi que queria seguir esse caminho e iniciei um acompanhamento vocacional. Na minha cabeça, não queria estar com meninos nem com meninas, queria apenas cuidar das pessoas. Escolhi entrar de vez para a vida religiosa e fui para o Paraná, onde iniciei o aspirantado, a primeira etapa da formação. Nessa fase, conhecemos as irmãs, o cotidiano da congregação e o trabalho que realizam. Estudamos sobre espiritualidade, a Igreja, sexualidade, formação humana, entre outros temas. A intenção era nos preparar para entender se realmente queríamos aquela vida.

Fui transferida para outro convento. Nesse momento, o comprometimento com a vida religiosa se intensificou. Contudo, minha avó faleceu, e isso mexeu comigo, pensei em desistir de tudo. Mas minha irmã, que sempre foi meu porto seguro, me aconselhou a tomar essa decisão em outro momento, sem me deixar levar pela perda. Decidi continuar, mas comecei a perceber que talvez a minha missão era aqui fora e não dentro do convento. Por isso, minhas crises de ansiedade pioraram. Passei a tomar medicamentos, e minha saúde mental se deteriorou. Não saí do convento por me apaixonar por outra menina, como alguns pensam. Saí porque percebi que não estava bem. No último momento, ainda queria ser religiosa, vestir o hábito, fazer missão na África, mas minha saúde gritava que eu precisava mudar de rumo. Conversei com a irmã que me acompanhava e escolhi sair. Percebi que não precisava estar em grandes lugares para ajudar as pessoas.

Eu, Francilia, peguei birra da Luiza ao vê-la pela primeira vez, porque tive aquela sensação de opostos. Pensei: ‘Nossa, a menina é linda, mas é insuportável’. Ela chegou e nem cumprimentou ninguém.

A gente se conheceu em um encontro vocacional. Nessa interação inicial, Luiza ficou completamente travada quando nos falamos. Pensei: ‘Se virar freira, já vou deixar marcado: não quero morar com essa pessoa’. Eu estava convencida de que não gostava dela. Mas, ao longo do encontro, comecei a observar e a me perguntar por que ela me irritava tanto.

Eu tinha uma visão errada dela, achava que era uma menininha fresca da cidade grande. No final desse período, todo mundo voltou para os seus locais de origem e, um tempo depois, ela voltou ao convento onde eu estava.

Depois desse primeiro momento, passamos a conviver de forma mais frequente. Eu estava no noviciado, que é um período mais restrito na vida religiosa, e, como eu era a única noviça no Brasil naquela época, tive algumas regalias, como poder sair em missão durante o ano canônico. Foi aí que conheci a verdadeira Luiza.

Quando as irmãs falaram que uma vocacionada de Pouso Alegre viria para a casa e que eu, por ser a irmã mais nova, deveria dar atenção para ela, minha primeira reação foi rejeitar, porque não estava nada animada para recebê-la. Quando ela chegou, teve que arrumar o próprio quarto de visitas, porque eu não fiz questão nenhuma de ser uma boa anfitriã. No entanto, com o tempo, fui me sentindo culpada por tratá-la mal e decidi dar uma chance para entendê-la.

“Quando nos assumimos como um casal, enfrentamos a luta de como manter nossa fé”

Comecei a tentar deixá-la mais confortável e, aos poucos, fomos criando um vínculo de amizade que se fortaleceu ao longo dos meses."

Francilia e Luiza se pediram em casamento de surpresa — Foto: Acervo pessoal
Francilia e Luiza se pediram em casamento de surpresa — Foto: Acervo pessoal

"Após estreitarmos esse laço e por vivermos na mesma casa, achamos que teríamos tempo para nos ver e conversar mais, porque uma ajudava a outra nas nossas questões. Mas a realidade foi diferente. Nossos compromissos religiosos eram tantos que mal nos víamos. Quando optamos por sair da vida sagrada, em momentos diferentes, a transição foi difícil para ambas. Eu já havia manifestado o desejo antes de Luiza, mas, por já ter votos, o processo demorou mais.

Decidimos dividir um apartamento em 2022. Foi nessa convivência que veio a certeza de que nossos sentimentos eram diferentes do que pensávamos. Em um jantar, a Luiza não aguentou mais segurar o que sentia e se declarou para mim.

No início, eu, Luiza, fiquei com medo de como seria a reação, mas, para a minha surpresa, ela estava sentindo o mesmo. Foi um momento libertador para nós duas.

Depois que eu, Francilia, me assumi, passei a buscar acolhimento da igreja, assim como muitos outros jovens. E, quando Luiza e eu nos assumimos como um casal, enfrentamos a luta de como manter nossa fé. Como viver nossa religião dessa forma? Ficamos meses sem ir à missa, sem frequentar a igreja. Tudo mudou quando um amigo nosso, que nos acompanhava no Instagram, nos perguntou se conhecíamos o Grupo Católico da Diversidade, que existe há anos no Brasil e é inserido na Igreja, tem o apoio do papa e diretrizes específicas. Ele é formado por pessoas do público LGBT, tanto casais como jovens. E, para nós, foi um alívio, porque nos sentimos normais dentro da Igreja, pertencentes à ela, sem abrir mão da nossa identidade e da construção da nossa família.

Em abril de 2024, ficamos noivas. Aproveitamos uma viagem que queríamos muito fazer e cada uma planejou uma surpresa para pedir a outra em casamento. O mais engraçado foi que nenhuma das duas sabia que a outra também faria o pedido!

Atualmente, estamos mais estabilizadas profissionalmente, tivemos que nos adaptar a uma vida normal, fora da vida sagrada. Eu trabalho com marketing, contratada de uma rede de cinemas, e Luiza em uma imobiliária, na administração. Conseguimos sair do aluguel e conquistamos nosso apartamento próprio, um dos nossos maiores sonhos. Queremos ter filhos, mas ainda estamos avaliando como. A adoção sempre foi um tema forte para nós e pode ser uma possibilidade para o futuro. Nossa história foi cheia de contratempos, mas aprendemos a nos apoiar e crescer juntas. O mais importante é que decidimos ser felizes, independentemente do que os outros pensem. Acreditamos que Deus sempre estará conosco, pois seguimos nossa caminhada com amor e verdade.”

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