‘Fui vítima de trabalho escravo aos 8 anos, estuprada pelo meu empregador e hoje luto pelos direitos das domésticas’
A baiana Valdirene Boaventura, 43, começou a trabalhar em casa de família ainda criança até conseguir fugir aos 15 anos. Desde 2016, é secretaria de assuntos jurídicos do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos da Bahia e orienta outras profissionais sobre questões trabalhistas
“Sou de Mascote, cidade no extremo sul da Bahia. Minha mãe sempre trabalhou na lavoura. Com a questão da vassoura de bruxa [doença que atinge a árvore de cacau], a gente saiu da zona rural e foi para a zona urbana. Nem televisão a gente tinha, víamos pela janela dos vizinhos.
Meu pai então viajou, disse que voltaria em 15 dias. Para você ter uma ideia, só fui conhecer meu pai em 2022. Minha mãe ficou sozinha com cinco filhos e meu avô. Às vezes a gente não tinha o que comer. Comíamos farofa de farinha com óleo e pimenta, hoje tenho horror a pimenta por isso.
Existia aquela história da pessoa te levar para casa dela, dizendo que ia te botar na escola, dar alimentação. Fui levada para uma dessas casas, tomava conta de duas crianças. Não sabia nem o que era brincar de boneca, mas tinha que fazer os afazeres da casa, levar e buscar criança da escola, fazer a faxina pesada. Não tinha nem 8 anos de idade.
A minha irmã Sandra, três anos mais velha, estava na mesma casa que eu. Fui estuprada por esse empregador. E quando fui visitar Sandra em 2023, ela me contou que também foi.
Esse meu patrão sempre abusava de mim. Quando ele chegava de viagem, ficava horas vendo revista da Playboy e depois ia para o quarto onde eu dormia para me tocar. Me ameaçava para que eu não contasse a ninguém.
Quando minha patroa viajava, às vezes me levava. Quando não dava, ela me mandava para casa da minha mãe. Minha mãe estava se relacionando com um cara e eu via ele abusando da minha irmã, Vanuza, um ano mais velha do que eu. Quando contava para minha mãe, ela dizia que eu não queria vê-la com ninguém.
Nessa época, ganhava 15 cruzeiros e esse valor nem ia para mim, ia para minha mãe conseguir pagar o aluguel. Eu ganhava sobras de comida dos adultos e crianças. A roupa também sempre era usada. Fiquei nessa casa até os 12.
Um dia, fomos para uma fazenda, o empregador entrou no quarto e me estuprou. Comecei a chorar. Minha patroa veio correndo e me perguntou o que tinha acontecido, e ele disse que tinha entrado para tanger uma galinha. No dia seguinte, estava lavando a louça e minha patroa perguntou de novo. Quando contei, ela me deu uma surra e me levou pra casa da minha mãe, como se tivesse sido culpada pelo que tinha acontecido.
Nessa época minha mãe já tinha abandonado todos os filhos e ido morar com outro homem. Deixou minhas irmãs com o meu avô. Vi minhas irmãs se prostituindo por um prato de comida.
Fui chamada para trabalhar na casa de uma mulher em Salvador, disseram que me pagariam um salário mínimo e que me colocariam na escola. Precisava da autorização da minha mãe para viajar, mas ela não deu. Com a ajuda da minha patroa, fui até Salvador escondida no maleiro de um ônibus.
Ela me orientou a procurar um homem na rodoviária, que me colocou escondida debaixo de um plástico preto. Viajei nove horas e meia assim.
Não tinha noção de que aquilo ali era errado. Só queria mudar de vida. Trabalhei por um mês e ela me pagou 70 reais, falou que esse era meu salário. Foi o único valor que ela me deu, dizia que ia guardar meu pagamento para me dar tudo depois.
Passou um ano e ela não me colocou na escola. Eu ia completar 13 anos. Não sabia ler nem escrever direito, mas escrevia algumas cartas e dava pra essa minha patroa botar no correio pra minha mãe. Minha mãe nunca recebeu nada.
Comecei a cobrar que me colocasse na escola. Ela dizia que não tinha a documentação necessária. Só tinha minha certidão de nascimento, nem RG eu tinha. Fiquei nessa casa por quase dois anos nessa situação. Quando pedi pra ir embora, ela começou a me trancar dentro de casa.
Era ela, duas filhas e um neto. Depois uma outra filha começou a trazer o filho para eu cuidar também. Fazia todo o serviço da casa com o menino nas costas. Comecei a fazer as coisas com má vontade para ela me mandar de volta pro interior, mas aí começaram as agressões físicas, ela me trancava, não me dava a refeição. Eu ficava num quarto dos fundos, onde eles guardavam coisa velha e produtos de limpeza.
Em junho, ela falou que ia viajar e eu ficaria com minha mãe. Fiquei com sorriso de orelha a orelha, achando que ia embora. Fui arrumar minhas coisas, não tinha roupa, sapato, nada. Só tinha uma saída de praia, que minha patroa vendia e eu ajudava a confeccionar. Ela me deu uma, que customizei para mim. Quando chegou a hora de irmos, me falou para ir pegar minha mochila. Nesse momento, ela saiu e me deixou trancada em casa.
Ficou oito dias fora e pediu pra uma vizinha dela, a Beth, ficar de olho em mim. A Beth quis me ajudar, então fingiu que esqueceu de bater o cadeado um dia, e me orientou a fugir e ir para a delegacia. O policial disse que não poderia fazer nada por mim, mas passou o endereço do sindicato. Não fazia ideia de como chegar, não conhecia a cidade, mas consegui.
Naquela época, Creuza Oliveira era a presidenta do sindicato e contei a ela o que tinha acontecido. Eu já ia completar 15 anos. Ela me falou que meu caso se caracterizava como trabalho escravo, e denunciou ao Ministério Público e ao Conselho Tutelar. Me perguntou se eu poderia voltar ao local de trabalho e esperar que fossem lá. Minha patroa chegou da viagem e fiquei aguardando por 45 dias, sem que nada acontecesse.
Fugi de novo e voltei ao sindicato. Creuza então me levou para o Conselho Tutelar e disseram que eu teria que ir para uma casa abrigo para menores. Ela ficou responsável por mim, me levava e buscava do abrigo todos os dias por um ano e eu dormia na casa dela.
Creuza foi minha verdadeira mãe, a única que sempre acreditou em mim. Quando falei da violência sexual que sofri, ela me levou na ginecolgoista. Também me colocou na escola. Aos 16 anos estava trabalhando em carteira assinada, como doméstica.
O meu processo foi arquivado, não deu em nada. Saí da casa só com a roupa do meu corpo. Minhas coisas, o pouco que eu tinha, a patroa disse que mandou para minha mãe, mas ela nunca recebeu nada.
Com o sindicato, fui aprendendo a negociar salário, carga horária, folga.
Depois conheci o pai do meu filho, aos 22. Com 24, fui mãe. Hoje meu filho tem 19 anos. Me casei, fui morar de aluguel. Aí começou a violência psicológica. Ele me dizia que eu era gorda, feia, que ninguém ia me querer. Me chamava de graxeira.
Meu filho não tinha nem um ano e descobri que ele tinha um relacionamento com outra pessoa, então decidi me separar. Ele me fazia sentir incapaz de dar um passo, criei uma dependência emocional. Depois de todas as violências que passei na casa do empregador, foi o único homem que me tocou. Estudávamos à noite, e eu fazia as tarefas dele da escola. Mesmo com barrigão, fazia as coisas para ajudá-lo. No meu sexto mês, desisti de estudar porque não aguentava mais conciliar escola e trabalho.
Dei uma segunda chance e voltei com o pai do meu filho. Fizemos uma espécie de terapia de casal na igreja e foi aí que entendi: tudo o que eu tinha era fruto do meu suor, do trabalho doméstico. Não dependia dele para nada. Nos separamos definitivamente.
Quando meu filho tinha 1 ano e pouco, me mudei para a região metropolitana de Salvador. Levei meu filho para ficar com o pai durante um final de semana e por 10 meses ele não quis mais me devolvê-lo. Me proibiu de ver meu filho a menos que voltasse com ele. Ia escondida dar de mamar ao meu filho na creche, com a ajuda de uma professora. Depois ele decidiu se casar, foi para São Paulo e resolveu entregar meu filho.
Então avisei minha patroa, para quem eu trabalhava há oito anos, que ia alugar uma casa para morar com meu filho. Estava morando na casa dela durante esses 10 meses sem meu filho. No dia seguinte, ela me demitiu. Disse que queria alguém que pudesse dormir na casa dela. Depois de oito anos, me pagou 850 reais. Ela bateu no meu ombro e falou que era para guardar aquele dinheiro, que não era pra gastar. Não era nem o valor de uma bolsa que ela comprava no shopping.
Comecei então a ser cuidadora de idoso e atualmente faço diárias de faxina. Tive mais dois filhos com outro companheiro, um deles está no espectro TEA.
Entre para o sindicato em 1998, mas não era atuante. Até que fui convidada para compor a chapa. Entrei no primeiro mandato como secretária-geral do sindicato, cargo que exerci por quatro anos. Vi a dificuldade das trabalhadoras, semelhantes às minhas, e a necessidade de fazer algo a mais por elas. As histórias sempre se repetem, são idênticas.
Comecei a acompanhar as trabalhadoras, encaminhar para a assistência social. O sindicato então me propôs ser secretária de assuntos jurídicos, cargo que ocupo desde 2016. Oriento as trabalhadoras sobre as questões da justiça do trabalho, identifico traços de trabalho escravo e aciono o Ministério Público.
Na pandemia, criamos um canal de Whatsapp para que as trabalhadoras nos acessem. Começou a chover denúncia sobre situação de trabalho escravo, trabalhadoras obrigadas a permanecer no local de trabalho.
Com a PEC da Domésticas, aprovada em 2013, houve avanços, mas nossa categoria ainda enfrenta os retrocessos, principalmente com a reforma trabalhista. Não houve realmente equiparação de direitos. Temos direito a três parcelas do seguro desemprego, por exemplo, enquanto outras categorias têm quatro, cinco parcelas.
Todas as trabalhadoras domésticas têm questões de saúde psíquica.
Outra questão é o descaso quando a gente vai na delegacia registrar uma queixa. Somos coagidas, nos dizem que não temos provas para fazer denúncia. Na justiça do trabalho, o juiz que está lá também é empregador e nos desfavorece. Muitas dessas trabalhadoras domésticas que são resgatadas, por exemplo, recebem uma indenização que não é suficiente nem para comprar uma moradia.
Não consegui continuar meus estudos porque meus filhos eram pequenos. Agora quero completar o ensino médio e cursar Direito para lutar pelos direitos das domésticas.”









