‘Adotada aos 6, sofri maus-tratos, fui devolvida e trabalhei em troca de moradia. Agora, conto minha história para proteger quem sofreu como eu'
A Marie Claire, Jaqueline Viturino conta sua história de abusos e abandonos que duraram toda a infância e parte da adolescência. Hoje, aos 51 anos, ela conta o que viveu para lutar contra a ‘devolução’ de crianças órfãs após a adoção, história que ela relata no livro ‘Adotei, Posso Devolver?’
“Fui adotada à ‘moda brasileira’. Não conhecia o meu pai e minha mãe era alcoolista. Eu ficava com a minha avó materna, ela cuidava de todos os netos, mas principalmente de mim, já que eu sempre estava com ela. Quando eu tinha seis anos, meu tio sofreu um acidente e ela disse que não poderia mais ficar comigo.
Não fui para um abrigo ou para um lar temporário. Minha avó foi para a igreja e ela perguntou se alguém queria uma criança. Foi então que apareceu um casal, meus ‘pais adotivos’. Eles precisavam de alguém para fazer companhia, porque um filho iria morar fora, em outro estado, e a outra filha se casaria em breve. Imediatamente eu fui para a casa deles e depois, eles oficializaram a adoção de ‘papel passado’.
Desde o momento em que cheguei na casa, eu me senti um peixe fora d’água. Afinal, eles eram pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Mas, eles disseram que eu teria uma casa, que poderia chamá-los de ‘pai e mãe’, e que eu tinha dois irmãos mais velhos. Apesar disso, eu não lembro de nenhuma demonstração de carinho para que eu me sentisse bem lá.
Quando eles me colocaram na escola, eu comecei a ficar levada e a mentir. Eu passava o dia todo fora de casa. Quando eles descobriram que eu estava na rua brincando, eu tomei uma surra. Depois disso, eu passei a apanhar quase todo dia e não queria mais voltar para casa. Chegou um momento que eu apanhava e nem ligava mais. Aos 10 anos, a filha mais velha se casou e todas as vezes que eu estava ‘malcriada', minha mãe me mandava para a casa dela.
Ela dizia que era porque minha irmã sabia como me educar, mas era porque alguém tinha que cuidar do bebê dela e eu fiquei nesse ‘vai e vem’ até os 13 anos, quando decidiram me devolver. Foi quando eu contei tudo o que passei com o marido da filha deles, um sofrimento que não gosto de detalhar. Criei coragem e relatei tudo o que ele fazia comigo contra a minha vontade. Eles não me quiseram mais.
Meu pai adotivo nunca teve empatia por mim e acho que ele nunca foi a favor da minha adoção. A verdade é que minha mãe queria alguém para fazer companhia para eles até o fim da vida, para deixarem os outros filhos livres, e ele só consentiu. Os argumentos que eles usam para justificar o abandono foram que eu era muito teimosa e levada, além do que aconteceu na casa da minha irmã.
Eles voltaram para a minha cidade natal e removeram o sobrenome deles da minha certidão de nascimento. Depois disso, me levaram para a casa do meu tio, aquele que havia se acidentado na época em que minha avó me deu. Ele já estava casado e tinha filhos, por isso não poderia ficar comigo. Sem ter onde ficar, minha mãe me levou para a casa de uma parente dela. Fiquei lá por oito meses e comecei a mudar de casa há cada três ou quatro meses. Para ficar nessas casas, eu trabalhava e nunca recebi nenhuma ajuda de instituições que protegem menores, porque às vezes, minha mãe se sentia culpada, ia me ver e achava outra casa para eu ficar.
No fim da adolescência, ela me mandou morar com o meu irmão mais velho. Ele vivia em Fortaleza, no Ceará, era concursado e precisava de alguém para cuidar da casa. Ele era o único que me defendia na família, e quando eu cheguei lá, ele me incentivou a estudar e fazer um concurso público. Eu me preparei muito, mas perto de fazer a prova, minha mãe apareceu e disse que havia uma casa para eu ficar no Rio de Janeiro. Ela fez de tudo para que eu fosse.
A casa que ela encontrou para mim era de uma senhora que precisava de alguém para fazer companhia e faxina, a troco de moradia. Eu passei só dois dias nesse lugar, porque ela era racista e queria uma mulher negra naquela posição. Ela dizia: ‘não vai dar para você ficar aqui’. Nesse ponto, eu já não tinha mais minha mãe adotiva me procurando e eu fui morar na casa de outra pessoa, tomando conta de crianças.
Com essa última família, eu passei por muitos abusos e não aguentava ver o que a mãe fazia com os próprios filhos. Diante de tudo o que eu já havia vivido, eu decidi: é melhor morar na rua, porque lá é cada um por si e Deus por todos. Na época, eu frequentava uma igreja e tinha uma colega que sabia da minha história e sugeriu que eu conversasse com a conselheira da juventude.
Essa conselheira, quem eu chamo de Jô, foi uma verdadeira mãe para mim. Quando eu falei tudo o que tinha passado, ela só chorava e não quis de maneira alguma que eu morasse na rua. Ela disse que eu podia morar na casa dela a troco de nada, o que desconfiei, porque já tinha sofrido muito. Mas, com ela foi diferente. Ela me incentivou a trabalhar e acho que só consegui um emprego com carteira assinada graças às orações dela.
Enquanto eu morava com a Jô, eu escrevia muito e comecei a pensar na ideia de contar minha história para outras pessoas. Durante as minhas férias, eu passei 20 dias seguidos escrevendo tudo o que havia me acontecido. O que as pessoas me diziam, era verdade: a minha história poderia virar um livro. Assim, eu lancei Adotei, Posso Devolver?. Não é o livro com a melhor diagramação, com a melhor capa ou com o melhor material, pois eu não tinha dinheiro para pagar, mas eu disse tudo o que eu gostaria de dizer para pais que desejam adotar crianças. Contei o que deixei deixei guardado por anos.
A leitura do meu livro começou por pessoas que eu conhecia, mas foi ficando conhecido por outras pessoas e, principalmente por pais de crianças adotadas. Sinto que atingi o meu propósito. Escrever é a minha forma de fazer com que as pessoas saibam como uma criança se sente ao ser devolvida.
Hoje, pelo meu Instagram, eu recebo muitos relatos de pais que adotaram, inclusive de pais que devolveram seus filhos. Mesmo com toda a burocracia que existe hoje para se adotar uma criança, ainda existem pessoas que fazem isso e me buscam, muitas vezes culpadas após lerem meu livro. Também converso muito com pessoas que foram devolvidas e tenho todo o carinho do mundo para falar com cada uma.
O que eu quero que as pessoas entendam é que elas devem adotar um filho só com a certeza de que querem isso, e que todos na família também querem. Espero que as famílias busquem ajuda psicológica antes da adoção, porque lidar com uma criança, especialmente as que carregam traumas, é muito difícil. Eu não sinto dor ao falar do meu passado, ainda que tenha vivido tudo o que vivi. Hoje, sigo forte nessa missão.”









