#ExploraçãoSexualZero
Por
Fernanda Cury
, Em Colaboração para Marie Claire — São Paulo

A violência sexual cometida contra crianças e adolescentes no país é um crime perverso, que precisa ser enfrentado por todos nós. O primeiro passo, no entanto, é entender que essa agressão pode se manifestar de diversas formas.

Uma das formas é o abuso sexual, que consiste na relação sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente, com a intenção de satisfazer esse adulto. O crime pode acontecer através de ameaça física ou verbal ou, até mesmo, por sedução.

Segundo o Fórum de Segurança Pública 2023, 72% dos casos de abuso sexual acontecem na casa da vítima e, em mais de 71% das vezes, são cometidos por uma pessoa próxima, como pai, padrasto, avô ou amigo da família.

Já a exploração sexual acontece quando as crianças e os adolescentes são tratados como objetos sexuais ou mercadorias. A relação sexual entre um adulto e um menino ou menina pressupõe um pagamento em dinheiro ou outro benefício, como presentes, comida, drogas ou, até mesmo, abrigo.

Notificar é preciso

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, a cada hora, 6 crianças e adolescentes são vítimas de violência sexual no Brasil. Porém, apenas 8,5% são denunciados.

Para Silvia Chakian, promotora de Justiça do Ministério Público de SP e colunista de Marie Claire, por trás desse baixíssimo índice estão o medo, a vergonha, o sentimento de culpa e o receio de ser desacreditada, por parte da vítima, bem como o poder e controle que o abusador ou explorador exerce sobre ela.

“A falta de amparo e de compreensão dos adultos ou instituições que deveriam apoiá-la, o tabu e a desinformação, além de mitos e crenças equivocadas sobre a violência sexual, também são fatores que complicam esse quadro de subnotificação”, ela acrescenta.

Um ser em formação

Seja qual for a forma de violência sexual sofrida, a criança ou adolescente sempre será uma vítima, mesmo que tenha aceitado participar da relação. Afinal, ela não tem maturidade, autonomia ou capacidade para entender o que se passa e, muito menos, para dar um consentimento.

“Tanto a infância quanto a adolescência são etapas de desenvolvimento, fases em que ainda há um despreparo físico, emocional e psicossocial para a prática sexual”, alerta a psicóloga Daniela Pedroso, que há mais de 27 anos atende mulheres, meninas e meninos que sofreram esse tipo de violência.

E essa agressão pode trazer graves consequências, com impactos no desenvolvimento de uma sexualidade saudável e nos aspectos psicossociais. Os danos, se não tratados, muitas vezes são irreversíveis.

Os sinais da violência sexual

Estar atento ao que se passa ao nosso redor é essencial para identificar e proteger possíveis vítimas. Mas, como identificar se um menino ou menina está sofrendo uma violência sexual? Realmente não é simples. “O mais importante é observar mudanças bruscas de comportamento”, diz Pedroso.

A psicóloga indica, abaixo, uma série de sinais que merecem cuidado. “Mas atenção, se a criança ou adolescente apresentar algum desses sintomas, isso não significa, necessariamente, que ela tenha sofrido violência sexual. Esses sinais devem servir como um alerta para que pais e educadores fiquem atentos e busquem ajuda profissional”, destaca a psicóloga.

Mudanças de comportamento

“Uma das primeiras manifestações da vítima é uma mudança brusca nas atitudes, que pode se manifestar como alterações de humor, hiperatividade, queda no rendimento escolar, dificuldade de socialização, comportamentos regressivos — voltar a fazer xixi na cama, querer a chupeta ou mamadeira, por exemplo", explica Pedroso.

A criança ou adolescente pode, ainda, se tornar agressivo — alguns chegam a maltratar animais — ou se colocar em situação de risco. Outro sinal importante é o medo, muitas vezes relacionado a um adulto, especificamente. "Por exemplo, a criança pode passar a não cumprimentar nem querer ficar sozinha com o avô ou um tio. Nesse caso é importante que os pais respeitem essa reação e busquem entender o que se passa", diz a psicóloga.

As crianças e adolescentes vítimas de violência sexual podem manifestar, ainda, um interesse por questões sexuais ou por brincadeiras de cunho sexual e usar palavras ou fazer desenhos associados à experiência vivida.

Traumatismos físicos

Para Chakian, quando se trata de violência sexual contra crianças e adolescentes, é importante lembrar que nem sempre a comprovação da agressão contará com elementos de provas como em outros delitos: “Não há, por exemplo, a contribuição de testemunhas, porque são crimes que acontecem às escondidas, tampouco de exames periciais, positivos apenas numa parcela pequena de casos”.

A contribuição em termos probatórios geralmente vem de outros indicadores, que podem ser comportamentais, emocionais e físicos. A promotora elenca alguns exemplos do que pode se manifestar na vítima: dificuldade para caminhar, infecção urinária, secreção vaginal ou peniana, baixo controle dos esfíncteres, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), enfermidades psicossomáticas, dor ou coceira na área genital ou na garganta (amidalite gonocócia), dificuldades para urinar ou deglutir.

Acolhimento é essencial

Segundo Pedroso, assim como acontece com as mulheres, infelizmente as meninas e os meninos que sofrem violência sexual costumam ser desacreditados. Ela destaca ser importante entender que geralmente as vítimas não mentem nem fantasiam a respeito das agressões sofridas e trazem um nível de detalhamento possível, apenas, se tiverem realmente vivenciado aquela experiência. “Até porque o assunto nem deveria fazer parte do repertório de crianças e adolescentes”.

Então, se ela disser o que aconteceu, acredite. “Procure manter a calma e converse sobre o assunto, respeitando o nível de profundidade estabelecido por esse menino ou menina. E busque ajuda profissional”.

E lembre-se: geralmente a vítima tenta se expressar da sua própria maneira. Procure ouvir e amparar, sem julgar nem questionar. Qualquer pessoa que suspeitar de algo pode denunciar pelo Disque 100.

Esse conteúdo foi oferecido em parceria com Vibra, em prol da campanha contra a exploração sexual de crianças e adolescentes.

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