Natal das Pretas: Rob Freitas cria espaço de celebração e pertencimento para mulheres negras
Idealizado pela comunicadora de beleza, o encontro chega à terceira edição exaltando autoestima, luxo, ancestralidade e impacto social
Comunicadora de beleza e referência em temas como autoestima, pertencimento e representação, Rob Freitas transcendeu seu trabalho nas redes sociais e construiu um espaço simbólico onde mulheres pretas podem se reconhecer, se cuidar e estabelecer trocas com conforto e respeito. Seu trabalho, que transita entre beleza, autocuidado, identidade e consciência, foi sempre guiado pela ideia de que o luxo, para mulheres negras, não se resume ao consumo, mas à experiência de estar em ambientes onde sua presença é respeitada, celebrada e compreendida.
Foi dessa escuta atenta às ausências, e também das violências sutis naturalizadas em espaços sociais e festivos, que nasceu o Natal das Pretas, que acontece nesta segunda-feira (15), na Casa Joá, em São Paulo. Idealizado por Rob em 2023, o encontro surgiu como um gesto íntimo e político: criar um Natal onde mulheres pretas pudessem celebrar o fim do ano com beleza, fartura, afeto e segurança, sem a necessidade de justificar sua alegria ou diminuir sua potência. O que começou na sala de sua casa, com um pequeno grupo de convidadas, hoje se consolida como um dos eventos mais simbólicos de celebração da existência negra feminina no Brasil.
Em sua terceira edição, o Natal das Pretas amplia não apenas o número de participantes, mas também seu impacto social, reafirmando o compromisso da influenciadora com uma beleza que é prática de cuidado, ferramenta de autoestima e ação coletiva. Nesta entrevista, ela fala sobre os desejos que deram origem ao projeto, o significado de criar espaços de luxo pensados a partir de vivências negras e a responsabilidade social que atravessa sua trajetória dentro e fora da internet. Uma conversa sobre sonho, pertencimento e o direito de viver a leveza como ato de afirmação.
MARIE CLAIRE Qual foi seu primeiro insight, a primeira vontade de fazer o Natal das Pretas? Qual era o teu desejo inicial?
ROB FREITAS Eu sempre amei as festas de fim de ano, sempre amei muito o Natal. Não era nem pelo simbolismo religioso, era mais pela magia da festa mesmo. E o Natal das Pretas nasceu porque eu comecei a perceber várias comemorações de fim de ano lindíssimas, convidados com looks icônicos, com mesas muito fartas, bem postas. E nessas comemorações eu só via mulheres brancas. Quando tinham mulheres pretas era sempre uma quantidade muito pequena. Eu mesma sou convidada para várias dessas comemorações, mas muitas vezes solitária ou com poucos pares. De alguma maneira isso já estava na minha cabeça, essa percepção desses lugares que as mulheres pretas não tinham acesso. Mas teve um dia específico que eu vi uma foto de uma festa muito linda, mas com nenhuma pessoa preta. Chegou a me dar uma aflição. E imediatamente eu pensei: Como a gente não está fazendo um ambiente assim para a gente? Vou criar o Natal das Pretas. Sempre quis que fosse algo muito bonito, sofisticado, mas que fosse um abiente seguro. Algo pensado para nós. E aí vem uma coisa que eu aprendi ao longo desses anos de internet, é que o luxo para mulher preta é diferente. Não é necessariamente você estar com uma bolsa caríssima, também pode ser. Mas o maior luxo para a gente é estar em um ambiente onde sua beleza, sua identidade, vai ser respeitada, sem parecer curioso, pitoresco. Que você possa usar a sua lace, mudar o seu cabelo totalmente sem que fiquem perguntando como o seu cabelo cresceu tanto de repente, sabe? De não precisar criar personagens para estar naquele espaço.
MC E como você pensou a primeira lista de convidadas, da primeira edição em 2023?
RF A primeira lista foi muito intimista, porque foi na sala da minha casa. Foram 11 convidadas, 12 mulheres contando comigo. Então eu chamei mulheres da internet que eu já admirava, mas com as quais eu já tinha alguma relação. E que tivesse uma diversidade de áreas, de tipo de conteúdo, de posicionamento. São pessoas, são mulheres que vão ao evento até hoje, que eu sabia que acreditariam no projeto. Pensei em mulheres com as quais eu não precisaria me preocupar tanto em explicar a potência do Natal das Pretas. Elas tinham a sensibilidade de entender desde o primeiro momento. E assim foi feito, Tanto que a lista só aumenta, mas nenhuma é substituída. No ano foram 25 convidadas. Esse ano são 40. E ano que vem, assim, a minha ideia é lotar o Allianz Park! (risos) Amor, eu sonho muito. Eu sonho alto. Quero abrir o Natal das Pretas para o público, dividir em diferentes momentos, aumentar o alcance e também tornar mais potente o fator social do projeto. Mas eu preciso ficar me lembrando que ele é ainda muito recente, que só tem três anos. Preciso fazer esse exercício. Porque a minha mente começa a voar, quero coisas gigantescas, mas estou nesse processo de entender que tudo tem um tempo para acontecer. Esse ano, por exemplo, eu tive mais desafios do que no ano passado na busca por patrocinadores. Foi um ano com o mercado mais retraído e precisei fazer investimentos pessoais para que ficasse como eu planejei. Mas o que me deixa muito feliz é que os patrocinadores anteriores seguiram com a gente. Acreditam também no projeto. O mais satisfatório para mim é consolidar as relações com as marcas e o quanto essas marcas também acreditam no meu trabalho e nesse projeto, que é um projeto tão especial. E, claro, ver quantas mulheres têm o desejo de participar. E a satisfação das que participam. Lembro que, no ano passado, quando acabou a festa, entrei na #NataldasPretas e a quantidade de posts era surreal, com legendas surreais. Elas falam o quanto o evento é renovador, quanto realmente é um momento de celebração, o quanto aquela noite deu um fôlego, um gás para começar o ano. Esse é o meu objetivo: criar um ambiente que renove as energias. Nesta edição, com a lista maior, comecei a convidar e elas me disseram o quanto admiram o evento, a vontade que tinham de estar ali presentes, da honra em serem convidadas. São mulheres essas que eu admiro muito. Estou muito emocionada mesmo.
MC A edição de 2025 tem uma grande novidade: o envolvimento efetivo com uma ação social. Como vai ser?
RF Desde o início do projeto eu já tinha a ideia de que eu precisava trazer uma ação social para dentro do Natal das Pretas. Mas durante muito tempo, falar sobre beleza, autocuidado, autoestima, que é a base do meu trabalho, isso era colocado numa posição rasa demais. Eu queria uma maneira de traduzir a profundidade das coisas nas quais eu acredito. E então pensei em uma ação social que seja dentro da área em que eu atuo. Então, nessa edição o Natal das Pretas vai aportar R$ 10 mil para uma instituição chamada Bibli-ASPA, que cuida de mulheres refugiadas, de diferentes origens, de povos árabes, africanos e sul-americanos. Esse valor vai ser usado para desenvolver cursos educativos sobre beleza, autocuidado, para trazer para essas mulheres a questão do olhar para si, que é um direito de todas, de se priorizar, de não se deixar em segunda opção, como acontece com quase todas as mulheres. Fomentar a autoestima e o autocuidado para essas mulheres. E eu demorei muito tempo para entender que o meu trabalho, fazer o que eu faço, estar num ambiente que eu estou estou e a responsabilidade que eu tenho com a minha vida e principalmente com a vida de quem me acompanha é um ato político e social também. Durante muito tempo isso nos foi negado no sentido máximo da palavra. Isso sem falar na delicadeza dessa questão da mulher refugiada, tentando se adequar em uma nova realidade. Por isso a ideia é criar esse momento de celebração com elas também. Mulheres que trabalham muito, são responsáveis por suas famílias. Além do incentivo financeiro, também quero envolver a minha rede, os profissionais que estão próximos a mim e que podem contribuir muito nessa parceria. Vai ser incrível. Eu sinto que assim o projeto que eu tenho tanto carinho fica completo.









