Do mar à mesa
No Arento, restaurante do Fera Palace Hotel, em Salvador, o chef Peu Mesquita conduz uma cozinha ancorada na pesca fresca e em uma leitura contemporânea do litoral baiano
Às segundas-feiras, quando Salvador desacelera depois do domingo intenso, o mar continua trabalhando. No bairro do Rio Vermelho, pescadores se reúnem em volta de uma fogueira improvisada, onde lulas, peixes e camarões recém-retirados da água encontram o fogo direto. É esse tempo do litoral, guiado pela pesca e pela sazonalidade, que estrutura a cozinha de Peu Mesquita à frente do Arento, restaurante do Fera Palace Hotel. “A Bahia tem um dos maiores litorais do Brasil, e a gente trabalha sempre priorizando produtos frescos, de boa procedência, do nosso mar”, afirma o chef soteropolitano , ao explicar a base do cardápio.
Localizado no Centro Histórico de Salvador, o Fera Palace Hotel é um dos marcos culturais mais simbólicos da capital. O empreendimento teve seu prédio construído em 1934, há exatos 92 anos, e é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Recém-inaugurado, o Arento ocupa o térreo e carrega uma responsabilidade simbólica que Peu reconhece desde o início. “Foi um convite muito especial, que me deixou muito honrado. O restaurante já nasce de uma conexão muito forte com o entorno, com a história de Salvador. Existe uma região antes e depois do hotel”, comenta.
O próprio nome do restaurante carrega uma dimensão afetiva e nasce de uma lembrança pessoal de Antonio Mazzafera, fundador do grupo Fera, em homenagem às memórias de infância vividas à mesa com sua avó, natural da Calábria, no sul da Itália. “O Arento é uma celebração da herança emocional que moldou o meu olhar sobre gastronomia. Queríamos um nome que traduzisse a força da tradição e, ao mesmo tempo, a leveza do contemporâneo”, pontua Antonio. Essa ponte entre Itália e Bahia também atravessa a trajetória de Peu Mesquita.
Diplomado pelo Instituto Italiano de Culinária, o chef passou um período no país aprofundando sua formação técnica e criativa. Ainda na Itália, trabalhou no Piazza Duomo, restaurante três estrelas Michelin, onde teve contato direto com uma cozinha de precisão, disciplina e respeito absoluto ao ingrediente. Ao retornar para Salvador, onde nasceu e se criou, passou a aplicar esse repertório internacional aos ingredientes locais, construindo uma linguagem própria. Atualmente, é um dos chefs mais queridos e celebrados da cidade.
No Arento, a cozinha se organiza a partir da leitura contemporânea do litoral baiano, guiada por escolhas precisas de produto e pela sazonalidade. Nem sempre todos os ingredientes estão disponíveis, e essa instabilidade faz parte do negócio. Trabalhar com frutos do mar e mariscos exige adaptação constante e diálogo direto com fornecedores e pescadores, além de certa colaboração climática. As etapas são muitas, assim como os elogios que chegam a cada prato servido. Quem prova, não esquece.
Entre as entradas, o crudo de peixe branco (R$ 78) se destaca. Servido em carpaccio, o peixe vem acompanhado de leite de tigre, pimenta sriracha, limão-siciliano e uvas verdes frescas, criando um equilíbrio entre acidez, frescor e textura. A lula mediterrânea (R$ 66), grelhada e servida com pomodoro caseiro e manjericão fresco, reforça a influência italiana da cozinha, assim como a salada de Parma (R$ 72), com presunto, ricota de búfala e tomates-cereja. O croquete de cupim (R$ 52), envolto em massa cremosa de aipim, costuma cativar os visitantes.
Nos pratos principais, o peixe do dia (R$ 118) ocupa posição central no cardápio. Grelhado e servido com mini arroz do mar, aioli cítrico e crocante de mandioquinha, o preparo muda conforme a pesca diária e se mantém como um dos carros-chefe da casa. O arroz do mar (R$ 136) aprofunda a relação com o litoral, reunindo camarões, lulas e polvo em um arroz cremoso, finalizado com bisque de crustáceos, aioli de páprica e toque de limão-siciliano.
Ao lado dos frutos do mar, há espaço para carnes bem executadas, como o cupim braseado (R$ 112), cozido lentamente ao demi-glace, e o tortellini recheado com costela (R$ 112), servido com fonduta de queijo e o próprio molho da carne.
A moqueca baiana aparece em duas versões para compartilhar: com peixe e camarões (R$ 295) ou apenas de camarões (R$ 265). O preparo respeita a importância simbólica do prato sem recorrer a excessos.
“A gente tenta trabalhar elementos baianos sem cair no folclore, usando técnicas e referências internacionais. Queremos que os hóspedes sintam uma conexão real com a cidade e sua força cultural através da comida”, explica Peu. Nesse encontro entre técnica e afeto, Salvador se revela em camadas, com suas cores e sabores. E fica.









