Dubai: o lugar das hipérboles ganha uma nova escala a partir de um olhar menos óbvio
O silêncio do deserto, o rigor do serviço, a gastronomia de alto nível e a miscelânea de sotaques ajudam a enxergar Dubai para além de seu imaginário monumental
Dubai costuma ser descrita a partir de suas hipérboles: o maior, o mais alto, o mais luxuoso. Eu também a imaginava envolta em códigos ditos masculinos, com seus arranha-céus espelhados, negócios bilionários e tecnologia de ambição futurista. Mas o contato direto logo desmontou esse imaginário para revelar uma Dubai menos óbvia, percebida no cotidiano, nas interações, em gestos como o incentivo ao autocuidado e a abertura a outras culturas. Além disso, Dubai figura entre os destinos mais seguros do mundo para turistas, segundo rankings internacionais, o que pude comprovar empiricamente, entrando e saindo de restaurantes, hotéis, mercados e atrações sozinha e em horários variados sem sentir medo ou desconforto.
Também usei roupas leves, shorts e blusas de alça – imprescindíveis no clima desértico – sem ser julgada ou hostilizada. O bom senso é necessário e o acordo social faz sentido dentro do contexto islâmico, principalmente em templos e locais religiosos, mas não implica nenhuma restrição à liberdade. Para uma mulher que viaja só, a diferença entre respeito cultural e restrição prática é decisiva. A chegada ao destino já oferece um primeiro alívio prático: ao desembarcar, recebe-se um chip de internet gratuito, com dados disponíveis por 24 horas. O acesso imediato a mapas, transporte e mensagens habilmente elimina a fase de desorientação comum ao início de uma viagem. Minha base na cidade foi o One&Only Za’abeel, hotel que traduz bem essa Dubai que alia inovação e sofisticação. A arquitetura impressiona, especialmente o The Link, estrutura suspensa que conecta duas torres a mais de 100 metros de altura. Mas o que mais marca é o serviço. Em poucos lugares do mundo me senti tão bem tratada sem falar a língua local.
Do hotel aos restaurantes, dos mercados aos motoristas, a gentileza era constante. Encontrei pessoas sempre educadas, solícitas e atentas. O primeiro dia começou com um café da manhã no Aelia, restaurante de inspiração mediterrânea no alto do hotel, com vista para o horizonte. Depois, mergulhei em uma atividade que ajudou a desconstruir outra ideia preconcebida de Dubai como cidade regida apenas por tecnologia e velocidade. No Longevity Hub by Clinique La Prairie, o foco é o oposto. Em um ambiente pensado para desacelerar, fiz uma massagem relaxante com óleos essenciais árabes e uma bioimpedância completa, que revelou percentuais de gordura e massa magra, além de indicar quais vitaminas estavam em falta no meu organismo.
O atendimento incluiu ainda uma avaliação detalhada da saúde da pele do rosto, com a indicação de tratamentos personalizados, grande parte disponível ali mesmo e com acompanhamento médico. O almoço no Culinara, um food hall sofisticado que reúne cozinhas de diferentes países, foi mais uma prova da diversidade cultural. Inserida em um país jovem – os Emirados Árabes Unidos foram fundados há 55 anos –, a cidade é uma das mais globalizadas do planeta, formada por pessoas de dezenas de nacionalidades que ajudaram a criar uma rotina plural, aberta e curiosa. Essa mistura aparece no prato, no sotaque, nos hábitos e nas ruas. À tarde, segui para o safári pelo deserto com a Platinum Heritage. Muito mais do que paisagens deslumbrantes, o passeio oferece uma rica aula de história. Entender como os beduínos sobreviveram naquele ambiente extremo te desloca do simples consumo da paisagem para a real leitura do território. O silêncio do deserto, o pôr do sol, o jantar sob as estrelas com pratos típicos e as apresentações culturais criam uma atmosfera quase meditativa. O momento mais marcante veio no alto de um camelo (criado a partir de padrões rigorosos de bem-estar). Estar ali, nas costas de um animal tão imponente, foi uma dessas raras experiências em que tudo parece ficar em câmera lenta. Na volta, o rapaz que me acompanha - va – afegão, de fala mansa – sugeriu que eu abraçasse o animal para uma foto. Hesitei. Tive medo. Ainda assim, aceitei. Mais do que produzir um registro, pude olhar em seus olhos, sentir sua presença tão viva e agradecer, em silêncio, por aquele encontro. Um gesto singelo, mas profundamente simbólico. Um daqueles instantes canônicos da vida, que permanecem na memória.
DESAFIANDO A GRAVIDADE
No segundo dia, Dubai voltou a se mostrar grandiosa, mas de um jeito mais lúdico. Comecei a manhã no Burj Khalifa, onde subir até o 124º andar em menos de um minuto é um acontecimento que mistura adrenalina e fascínio. Lá de cima, a cidade se revela em camadas: o deserto, o mar, os prédios, tudo coexistindo – e parecendo brinquedo de miniatura. Ao lado, o Dubai Mall confirma sua fama de maior shopping do mundo. Perder-se ali é quase inevitável e também parte da diversão.
Mais tarde, a experiência ganhou mais cor, som e textura no Souk Madinat Jumeirah, um mercado que integra o hotel Jumeirah Al Qasr e resgata o charme dos antigos souks árabes, com canais, lojas e vista para o impressionante Burj Al Arab, hotel da mesma rede conhecido por seu formato de veleiro. Foi ali que comprei um dos famosos perfumes árabes, acomodado em um frasco que mais parece uma pequena lâmpada de gênio. A compra veio acompanhada da tradicional pechincha com um vendedor simpático, ritual que faz parte da cultura local e que, longe de ser indelicado, é esperado. Negociar é parte do negócio. À noite, o jantar no La Dame de Pic – restaurante de Anne-Sophie Pic, a chef mulher com mais estrelas Michelin no mundo – foi mais uma confirmação de que a cidade é um grande destino gastronômico. O menu, uma degustação em sete etapas harmonizada com vinhos, foi conduzido com explicações que contextualizaram cada prato e cada taça com precisão e sensibilidade. Ali, comi o macarrão mais gostoso da minha vida: trouxinhas bicolores de massa recheadas com queijo Comté envelhecido por 20 meses, consommé de cogumelos e café. Finalizei a refeição com uma sobremesa de pera cozida lentamente em chá de rooibos que mais parecia obra de museu, apresentada pessoalmente pelo chef confeiteiro Maxime Toreau.
O terceiro dia começou com uma aula de water yoga na Aura Skypool, a piscina infinita 360º mais alta do mundo. Estar cercada pelo skyline, pelo mar e pela Palm Jumeirah é o tipo de experiência que só Dubai pode oferecer, com uma vista que parece até gerada por inteligência artificial. Depois, visitei o Jumeirah Marsa Al Arab, um resort inspirado em cruzeiros, onde o luxo ganha contornos náuticos, leves e elegantes. O almoço no italiano Rialto e a passagem pelo Talise Spa consolidaram o bem-estar como eixo decisivo da experiência. À tarde, segui para o Atlantis The Royal, um dos hotéis mais impressionantes que já vi. Dentro de seu complexo, o prestigiado Nobu by the Beach combina gastronomia, música e mar em um beach club elegante, com direito a mergulho em um mar azul cristalino e quentinho que me lembrou o Nordeste brasileiro. À noite, o jantar no La Mar, do chef Gastón Acurio, fechou a viagem com pratos peruanos tradicionais e cheios de personalidade, como o Chaufa Aeropuerto, feito com arroz frito, cogumelos, pimentões, cebolinha, tortilha de frutos do mar e molho char siu. Dubai é, sim, a cidade dos extremos. Mas é no intervalo entre eles – entre a tecnologia e o deserto, entre a escala monumental e o gesto cuidadoso – que a verdadeira experiência se revela. Para além de seu catálogo de hipérboles, a cidade se deixa compreender melhor pelo viajante disposto a perceber suas entrelinhas.









