Órbita do azul: como é se hospedar em hotel nas Bahamas que já foi cenário de dois longas da saga 007
Com uma história digna de cinema, hospitalidade de precisão e o mar quase irreal das Bahamas, o Ocean Club, a Four Seasons Resort é um dos hotéis mais emblemáticos do Caribe
Imagine caminhar pela mesma faixa de areia por onde andaram os Beatles. Dormir na mesma cama sobre a qual sonhou Beyoncé. Passear pelos jardins em que Cindy Crawford se casou e jogar golfe onde Whitney Houston cantou. Festejar onde brindaram Elvis, Frank Sinatra e Zsa Zsa Gabor... Ao adentrar este hotel nas Bahamas, tudo isso é possível. Enquanto alguns outros destinos de luxo ao redor do mundo também podem se gabar da proximidade com águas de um azul elétrico e areia branca e macia, poucos carregam a densidade histórica e o serviço incomparável do The Ocean Club, a Four Seasons Resort.
Chamado de “o homem mais fantástico do mundo” por Andy Warhol, o empresário e herdeiro norte-americano Huntington Hartford comprou a ilha em que o hotel se encontra, que batizou de Paradise Island, na virada da década de 1960, quando o local seduzia milionários norte-americanos como os banqueiros J.P. Morgan e Edmund Lynch. A inauguração aconteceu em 1962 com um baile de gala memorável, prestigiado por 2 mil convidados, incluindo celebridades, duques e condes, e com fogos de artifício trazidos da França. A intenção era criar um destino ainda mais exclusivo (e mais perto dos Estados Unidos) do que a Riviera Francesa que atraía a elite da época – e deu certo.
Absolute cinema
Se o Ocean Club parece cenário de filme, é porque, de fato, é. Foram rodadas ali cenas de O Lobo de Wall Street (2013) e de dois longas da franquia James Bond – Thunderball (1965), com Sean Connery, e Casino Royale (2006), com Daniel Craig. Neste último é possível assistir à cena mais emblemática do currículo cinematográfico do hotel, quando o agente 007 pede seu clássico drinque, o Vesper Martini – assim batizado pelo barman Keith Cash, que está há mais de 30 anos servindo hóspedes no Martini Bar. É possível experimentar também suas criações de Martinis com maracujá, chocolate e espresso como protagonistas, além de clássicos bahamenses como o Sky Juice, que leva leite condensado, gin local e água de coco.
A gastronomia do hotel é igualmente estrelada, com o principal restaurante sendo comandado pelo francês Jean-Georges Vongerichten, que lidera um império de dezenas de empreendimentos com es - trelas Michelin pelo mundo – incluindo um em São Paulo, no Palácio Tangará. Misturando influências francesas e asiáticas ao frescor dos frutos do mar do Caribe há 25 anos, o restaurante Dune, situado em cima de uma falésia, serve pratos insulares descomplicados e saborosos. Entre eles estão a cauda de lagosta ao curry, o pargo com crosta de nozes e a clássica salada de conch, molusco típico das Bahamas. No menu de sobremesas, destacam-se o bolo de coco com sorbet de maracujá e o cheesecake acompanhado de yuzu e frutas tropicais.
Há ainda a Trattoria Versailles, que serve clássicos italianos à beira da piscina com vista para os jardins, e onde vale pedir o antipasto de polvo, que vem no ponto perfeito. Já o Ocean Blu oferece especialidades caribenhas grelhadas – não deixe de provar os tacos de garoupa, que vão muito bem com uma frozen piña colada – com vista para o mar, também à beira da piscina. São três, aliás: a Ocean Pool, com borda infinita e de frente para o oceano, a Lagoon Pool, com bordas inclinadas que simulam a praia, e a Versailles Pool, elegante e reservada para os adultos. O nome batiza também os jardins da propriedade, inspirados naqueles do homônimo palácio francês. Repletos de folhagens tropicais, fontes e estátuas de mármore importadas da Europa, abriga também as ruínas de um mosteiro agostiniano do século 12, desmontado e trazido da França.
Mar aberto
Além de sessões de ioga e pilates, academia, seis quadras de tênis, campo de golfe de 18 buracos, kids club e uma miríade de esportes aquáticos, o Ocean Club oferece um spa com oito villas de tratamento privativas, inspiradas no estilo balinês. Entre os tratamentos, destaca-se a massagem com compressas de coco, rico em vitaminas E e K e com efeito calmante e hidratante, ideal após um dia de exposição ao sol. O concierge também pode organizar todo tipo de experiência fora do hotel, como um tour por uma destilaria de rum ou uma visita cortesia ao parque aquático Aquaventure, um dos maiores do mundo, conhecido pelo toboágua com queda livre de 60 metros que passa por um tanque de tubarões. O entorno reúne ainda um resort com cassino, lojas de grifes como Rolex e Cartier e restaurantes renomados como o Nobu.
Mas, com mais de 700 ilhas em seu território, apenas 30 delas habitadas, o melhor a se fazer nas Bahamas é se afastar da civilização e explorar suas belezas sem dono. Entre os passeios mais pitorescos está a visita a uma das praias povoadas apenas por porcos selvagens que nadam livremente pelas águas cristalinas. Os banhistas suínos não são exatamente fofos e há de se ter cuidado com esses comensais esperanço - sos por ganhar petiscos dos visitantes curiosos, mas a visita rende boas fotos – apenas lembre-se de agir com responsabilidade perante os animais, é claro. Há também roteiros que levam a experiências com tubarões, tartarugas, arraias, leões-marinhos e golfinhos, além de uma visita à Pink Sands Beach, que, como o nome sugere, tem areia cor-de-rosa.
Conforto a rigor
“São 35 hectares para 107 chaves de quartos. Isso nunca mais acontecerá, especialmente num local como este”, diz o gerente-geral John Conway no livro The Ocean Club, que a Assouline – editora francesa de livros de arte e lifestyle – dedicou ao sexagésimo aniversário do hotel, em 2022. Sob a bandeira do Four Seasons desde 2017, o Ocean Club não apenas preservou seu legado como passou por um refinamento significativo nos detalhes. Logo na chegada, um welcome drink com rum, laranja e cereja introduz o espírito da ilha. No serviço da praia que se estende por 8 quilômetros, a equipe se antecipa aos desejos dos hóspedes: espreguiçadeiras e guarda-sóis são posicionados meticulosamente na areia, uma pequena térmica com água gelada é prontamente disponibilizada e protetor solar e toalhas frescas estão sempre à disposição. Os tecidos do mobiliário de piscina levam a assinatura da grife francesa Jacquemus, com listras coloridas pintadas à mão.
Nas elegantes suítes – que conseguem a um só tempo ser modernas e manter a estética colonial –, você encontra mimos como um menu de travesseiros, flores frescas trocadas diariamente e bonés cortesia com o logo do hotel. Ao longo do dia, pequenos cuidados pontuam a experiência, como um carrinho de gelato que surge no fim da tarde, o happy hour ocasional oferecido pelo gerente, com drinques e aperitivos servidos à vontade, ou iPods carregados com playlists infantis para entreter os pequenos à beira da piscina. Nada é ostensivo e tudo é preciso. É o tipo de zelo silencioso que explica como um hotel já icônico consegue elevar o próprio padrão ao longo das décadas. Com vantagens fiscais, geográficas e simbólicas, as Bahamas são um dos hubs offshore mais antigos do mundo, sob um regime tributário atraente, a apenas uma hora de voo de Miami, e oferecendo um estilo de vida altamente exclusivo. Praticamente sem inverno graças às correntes quentes do Golfo, atravessado por ricas influências africanas, europeias e indígenas, o destino tem no turismo mais de 51% do PIB e metade da força de trabalho. Tidas pelos astronautas como uma das paisagens mais belas vistas do espaço, com seu azul elétrico, contrastante e quase irreal, as Bahamas confirmam, a nível do mar, aquilo que já se intui de longe: aqui, o extraordinário é regra.









