Como um hotel brasileiro transformou área degradada em refúgio ecológico
Ecolodge no interior paulista se tornou referência em turismo regenerativo ao unir lazer e luxo a reflorestamento e impacto social
Nas encostas da Mata Atlântica paulista, um hotel que se ergueu em meio a 300 hectares de solo degradado hoje se integra a uma paisagem quase totalmente recuperada. O ecolodge Fazenda Morros Verdes, em Ibiúna, tem uma filosofia simples e transformadora: devolver mais do que retira.
À frente do projeto está Patrícia Haberkorn, ex-executiva de tecnologia e terapeuta ayurveda que trocou a rotina corporativa por uma vida dedicada ao turismo sustentável. Em práticas como manejo de resíduos, água tratada dentro da própria fazenda e uma equipe formada majoritariamente por moradores locais, ela mostra como a hospitalidade pode ser motor de transformação social e ambiental – sem por isso perder o caráter luxuoso.
À Marie Claire, ela fala sobre os desafios de manter a coerência em cada detalhe, o impacto do hotel na comunidade e o legado que deseja deixar para a região e para o turismo no Brasil. E revela, também, sua atividade preferida no hotel: “é uma vivência que desperta emoções intensas e inesquecíveis e mistura adrenalina, contemplação e conexão profunda com a floresta”.
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MARIE CLAIRE Muita gente fala em turismo sustentável, mas poucas operações têm um sistema tão integrado de gestão ambiental e social. Qual é a parte mais difícil de manter essa coerência no dia a dia?
PATRÍCIA HABERKORN É desafiador. Sustentabilidade não pode ser só um discurso, ela precisa estar presente desde o uniforme dos colaboradores até a forma como tratamos a água, gerimos resíduos e nos relacionamos com a comunidade local. Isso exige disciplina, investimento e, acima de tudo, engajamento humano. O mais difícil não é a tecnologia ou a estrutura, mas sim cultivar uma cultura viva, onde todos — equipe, hóspedes e parceiros — se reconheçam como parte de um mesmo propósito.
MC Na prática, como o hóspede percebe que está num espaço com compromisso social e ambiental?PH Nada ali é só discurso. O hóspede percebe porque aparece no social, quando vê uma equipe local, feliz, respeitada e envolvida com projetos na comunidade. Aparece no ambiental, nas escolhas conscientes, da água tratada dentro da fazenda à energia renovável e aos alimentos de produtores locais. E na governança, na forma transparente como conduzimos o negócio, com decisões participativas e responsabilidade em cada ação. O selo B não é só um certificado na parede: é algo que o hóspede sente na atmosfera do lugar, na experiência de estar em um espaço onde conforto e consciência caminham juntos.
MC Há alguma prática de sustentabilidade da Fazenda que você acredita que deveria ser replicada em larga escala no Brasil?
PH A geração de energia e o aquecimento da água com placas solares são exemplos simples e acessíveis, assim como a escolha de materiais de baixo impacto na construção, que hoje já estão disponíveis a custos viáveis. Outro ponto essencial é repensar o lixo: grande parte vem do excesso de plásticos em embalagens, e reduzir isso muda toda a cadeia. O mesmo vale para a captação da água, sempre possível para uso não potável. Valorizar produtores locais e orgânicos é uma forma de incentivar a agricultura familiar e manter vivos os bairros rurais ao redor das cidades. Nos transportes, priorizar bicicletas, carros elétricos e até o uso de aplicativos de zero emissão é cuidar não só da poluição do ar, mas também da poluição sonora. E, olhando para as cidades, sonhamos com mais ciclovias, mais árvores, mais beleza — e menos fios atravessando nosso horizonte. São escolhas que certamente melhorariam nossa qualidade de vida.
MC O trabalho com a comunidade local é um dos pilares do projeto. O que mudou para o bairro do Verava desde a chegada da Fazenda?
PH Desde o início entendemos que nosso sucesso estaria vinculado ao desenvolvimento do bairro do Verava. Não faria sentido estarmos inseridos em um lugar que não fosse rural, orgânico e de pessoas felizes. Queremos que os princípios que aplicamos na Fazenda Morros Verdes também sejam os do bairro. Por isso, quando chegamos, contratamos um estudo para levantar o perfil da comunidade e suas necessidades e, a partir daí, atuamos como facilitadores e apoiadores das iniciativas locais. Foi assim que nasceram conquistas importantes, como a criação da Associação Comunitária e a certificação de produtores orgânicos locais. Sempre estivemos ao lado da comunidade, seja como porta-voz junto à Prefeitura ou financiando melhorias coletivas. Na educação, já promovemos projetos de contraturno para crianças e, desde 2024, trouxemos a ONG Parceiros da Educação para a escola estadual, que hoje atende mais de 500 alunos. Também fortalecemos a economia local consumindo produções da região e formando uma equipe composta, em sua maioria, por moradores — o que gera impacto direto em suas famílias. E, numa troca que nos enriquece mutuamente, surgiram iniciativas como o coral de colaboradores, o empréstimo de livros da biblioteca e o projeto de reuso de uniformes, levantando uma bandeira importante sobre consumo consciente no setor de moda. Nosso próximo passo é a criação do Centro Profissionalizante do Verava, que já estamos articulando com parceiros para tornar realidade. Tudo isso mostra que a transformação é coletiva: nós apoiamos, mas quem dá vida a esse processo são os moradores do Verava — hoje mais fortes, conectados e orgulhosos de sua identidade.
MC Entre todas as experiências que a Fazenda oferece, qual é a sua favorita e por quê?
PH Essa é uma pergunta difícil, porque sou muito conectada a todas. Mas, se tiver que escolher uma, cito a tirolesa. É uma tirolesa de 580 metros de extensão que voa sobre a Mata Atlântica, proporcionando uma visão impressionante do maior cinturão de mata atlântica de São Paulo. É uma sensação de liberdade única, na qual literalmente sobrevoamos a copa das árvores. E a aventura não termina no ar: no final, fazemos uma trilha no meio da mata, acompanhando o curso de um rio com uma variedade incrível de espécies de plantas e animais — um mergulho na biodiversidade local. À noite, tem a tirolesa noturna, que é uma experiência completamente diferente. Voar no escuro, em silêncio, desperta emoções intensas e inesquecíveis. De dia ou à noite, é uma vivência que mistura adrenalina, contemplação e conexão profunda com a floresta.
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MC Que legado você gostaria que a Fazenda Morros Verdes deixasse para a região e para o turismo no Brasil?
PH Que é possível conciliar turismo, natureza e comunidade de forma integrada e sustentável. Quero que nossa experiência inspire outros empreendedores a entender que o verdadeiro sucesso não está apenas no resultado financeiro, mas na capacidade de gerar impacto positivo para o meio ambiente e para as pessoas. Para a região, desejo que fiquemos como um exemplo vivo de desenvolvimento com identidade: fortalecer o Verava como um bairro rural e orgânico. E, para o turismo no Brasil, que nosso projeto seja lembrado como um modelo pioneiro de turismo regenerativo, que valoriza a biodiversidade, promove cultura e bem-estar, e mostra ao viajante que cada escolha pode transformar o futuro.
MC Que aprendizado mais valioso a natureza te deu até hoje?
PH A natureza me ensinou que fazemos parte de uma grande rede e que nada acontece sozinho. Sinto a força dessa rede toda vez que estou na fazenda. É uma conexão que preenche minha alma e me abastece de equilíbrio para a vida em São Paulo.
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