Viagem
Por
Daniela Tófoli
, colaboração para Marie Claire — Peru


Vale do Colca é uma experiência que deveria estar nos planos de qualquer turista que gosta de paisagens deslumbrantes — Foto: Divulgação
Vale do Colca é uma experiência que deveria estar nos planos de qualquer turista que gosta de paisagens deslumbrantes — Foto: Divulgação

Machu Picchu, Cusco e Vale Sagrado, certamente, são os primeiros destinos quando se pensa em viajar ao Peru, incluindo uma parada em Lima para apreciar sua gastronomia inesquecível, claro. Mas conhecer o Vale do Colca é uma experiência que deveria estar nos planos de qualquer turista que gosta de paisagens deslumbrantes, contato com culturas ancestrais ainda preservadas e conexão profunda com a terra e seus mistérios.

O vale, localizado no sul do Peru, a 160 quilômetros da cidade de Arequipa, é na verdade um cânion formado pelo Rio Colca com profundidade de até 4.100 metros (mais profundo que o Grand Canyon, nos EUA) e com picos de altitude que chegam até a 4.910 metros acima do nível do mar, no Mirante de Patapampa. De lá, além da vegetação característica da região – formada essencialmente por quinoa, capim andino e 30 espécies de cactos –, é possível observar alguns dos 43 vulcões do local, vários deles em atividade. O mirante fica no caminho sinuoso entre Arequipa e Yanque e, durante o trajeto, é comum ver grupos de lhamas, alpacas, vicunhas e guanacos. A grande atração da região, no entanto, é o condor, a maior ave voadora do mundo, que pode ter 1,3 metro de altura e asas abertas que chegam a 3 metros. É possível admirar as aves voando durante a manhã, quando elas usam as correntes de ar quente para se manterem no ar.

Cabine do Andean Explorer, que cruza o Vale do Colca de Arequipa até Cusco e vice-versa — Foto: Divulgação
Cabine do Andean Explorer, que cruza o Vale do Colca de Arequipa até Cusco e vice-versa — Foto: Divulgação

Além da observação dos condores em mirantes específicos, o vale oferece estações de águas termais, como as de La Calera e Chacapi, onde é possível nadar nas piscinas naturais. Há também dezenas de pequenos povoados simpáticos pela região que vendem o colorido artesanato local e oferecem lhamas e alpacas com enfeites de gosto duvidoso para fotos com os turistas.

O mirante para a observação dos condores — Foto: Divulgação
O mirante para a observação dos condores — Foto: Divulgação

O Vale do Colca foi povoado por civilizações pré-incas e teve cidades fundadas na época colonial espanhola. A população local, apesar de muito católica, mantém seus rituais em reverência a Pachamama (a Mãe Terra), como oferendas de alimentos e bebidas, e segue com tradições ancestrais, como o cultivo em terrações agrícolas nas encostas dos morros. É também lá que fica a nascente do Rio Amazonas.

Na região, há várias pousadas e alguns hotéis de luxo, como o Las Casitas, situado na cidade de Yanque. Com 20 casinhas individuais espalhadas em mais de 80 mil metros quadrados, que oferecem piscina privativa climatizada, lareira, banheira e piso aquecido, o hotel conta com uma vista única para o desfiladeiro, lago, capela, spa completo e um restaurante cheio de iguarias locais. O Las Casitas também organiza passeios pela região, como cavalgadas, e oferece experiências exclusivas, como um almoço “verde” no jardim, preparado com alimentos cultivados na propriedade em forno típico, e aulas de preparo de pisco, a bebida típica dos Andes.

Os chalés do Las Casitas — Foto: Divulgação
Os chalés do Las Casitas — Foto: Divulgação

Outro segredo do Vale do Colca está no quilômetro 93 da estrada principal. É lá que fica a estação onde parte o Andean Explorer, primeiro trem com cabines para dormir da América do Sul, que liga Arequipa a Cusco (e vice-versa), passando pelo Lago Titicaca e sítios arqueológicos. Com 34 cabines divididas em três categorias (todas com banheiro privativo), o trem de luxo é all-inclusive e oferece vagões-restaurante, um vagão piano-bar, um vagão spa e um vagão observatório – todos lindamente decorados para os hóspedes se sentirem mesmo dentro de um filme.

A área externa do Las Casitas — Foto: Divulgação
A área externa do Las Casitas — Foto: Divulgação

Operado pela rede Belmond, as refeições do trem não deixam nada a desejar em relação aos restaurantes estrelados de Lima e a carta de vinhos e drinques oferece excelentes opções, além de Veuve Clicquot a qualquer momento.

O trem não tem Wi-Fi a bordo, mas você não sentirá falta nenhuma! Em compensação, possui enfermeiro e oxigênio a bordo 24 horas, sem custo adicional, para os que estiverem sentindo os efeitos da altitude.

Ao sair de Arequipa em direção a Cusco, trajeto que leva três dias, o Andean segue oferecendo experiências dignas de cinema, todas também já incluídas no pacote. A primeira parada é na Caverna Sumbay, uma das 50 existentes na região, que guarda pinturas rupestres de mais de 6 mil anos. Em suas paredes, é possível ver o registro dos animais do vale, como vicunhas e guanacos, feito com uma mistura de argila e gordura pela civilização pré-inca. O local, tomado por formações rochosas variadas, parece um santuário mágico e seu silêncio só é quebrado pelas explicações (breves) do guia que acompanha os hóspedes.

Na primeira noite, uma parada em Saracocha, que fica a mais de 4 mil metros de altitude, para contemplar a Via Láctea. O céu fica tão próximo que a sensação é de que se pode tocar as estrelas. Um guia com conhecimentos de astronomia identifica as constelações e conta a história delas e, mesmo com a baixa temperatura noturna, ninguém quer voltar para o trem.

Nenhuma foto, ainda que feita com máquinas profissionais, faz jus à beleza do céu peruano. Mas o amanhecer também reserva surpresas e 5 horas da madrugada já estão todos prontos no vagão piano-bar para sair e contemplar o nascer do sol no Lago Titicaca, na cidade de Puno.

Ao deixar o trem, basta caminhar três minutos até o deque e aguardar o espetáculo da natureza. Fogueira, chás e chocolate quente aquecem os hóspedes no início do dia ao ar livre. Em seguida, o café da manhã é servido nos vagões-restaurante e todos partem para um passeio de barco. O Titicaca, considerado um dos mais poderosos centros de energia do globo, é o lago navegável mais alto já registrado, a 3.800 metros acima do nível do mar, e fica entre o Peru e a Bolívia. Em suas águas, 32 ilhas flutuantes abrigam diversos povos e a primeira visita acontece em Quille, uma das ilhas dos Uros. Com língua própria e características físicas diferentes, os Uros se consideram homens da água, se organizam em uma sociedade matriarcal e vivem da pesca e do artesanato. Hoje, há 500 deles morando no lago, em ilhas temporárias que duram entre 25 e 30 anos.

A segunda visita é na terceira maior ilha do lago, chamada Taquile, onde vivem 2.500 habitantes, especializados no tear. A arte têxtil taquile é tão refinada e única que foi reconhecida como obra-prima do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade pela Unesco.

Na ilha, é possível almoçar pratos locais e até tomar um banho nas águas geladas do Titicaca porque há áreas de praia. Os moradores também apresentam danças típicas e convidam os turistas a participar de jogos tradicionais incas. De volta ao Andean, a viagem segue em direção a Cusco e, no início da noite, o trem passa no meio do mercado de Juliaca, onde se vê de tudo um pouco: de tênis e bonés contrabandeados até fetos de lhamas e poções feitas com rãs secas para a cura de doenças.

Após o jantar, uma festa de despedida no piano-bar anima a última noite a bordo. A manhã do terceiro dia, porém, reserva mais um agradável passeio: o sítio arqueológico de Raqch’i, já em Cusco. Antigo assentamento do Império Inca, o local foi construído no século 15 com pedras vulcânicas e ainda guarda 154 depósitos circulares que estocavam grãos e alimentos, algumas residências e espaços para cultos. Em um deles, o templo dedicado a Wiracocha (deus criador supremo, na mitologia inca), resquícios bem conservados de 11 colunas gigantes dão ideia da importância do povoado.

De volta ao trem, um brunch é servido antes do desembarque final. Boa parte dos turistas aproveita para passar dois ou três dias em Cusco e conhecer seus pontos turísticos, como o Templo de Coricancha, a Plaza de Armas, a Catedral e o Mercado de San Pedro. Por lá, o Palacio Nazarenas, antigo convento clariano do século 17 recebe os hóspedes com afrescos da era colonial, arquitetura preservada e sabonetes artesanais feitos com as receitas originais das freiras em cada uma das 55 suítes.

O spa do hotel Nazarenas — Foto: Divulgação
O spa do hotel Nazarenas — Foto: Divulgação

O hotel fica bem no centro da cidade e é possível fazer todos os passeios a pé. Com spa, piscina e jardins internos, além de ar enriquecido com oxigênio direto nos quartos, o desta - que fica para experiências como oficinas de pintura em cerâmica e o restaurante Mauka, que celebra a biodiversidade local, resgatando pratos que combinam grãos e sementes com histórias centenárias e o respeito pela herança cultural regional – característica que faz uma viagem ao Peru ser única e inesquecível.

A piscina do Nazarenas, em Cusco — Foto: Divulgação
A piscina do Nazarenas, em Cusco — Foto: Divulgação

Para aproveitar com tranquilidade


A altitude das cidades do Vale do Colca podem causar mal-estar, tontura e enjoos para quem não está acostumado. A dica é tentar se aclimatar aos poucos, beber muita água e evitar alimentos gordurosos, esforço físico e álcool nos primeiros dois dias. Tomar chá de munha ou de coca também pode ajudar. E não esqueça de levar protetor solar, soro para o nariz (o local é muito seco), remédio para enjoo (as curvas das estradas de Arequipa são bem desafiadoras) e checar se o hotel onde focará tem oxigênio disponível para uma situação de emergência.

Marie Claire viajou a convite do Belmond Peru

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