Mães e Filhos

Por Isadora Pacello


Eunice Baía — Foto: Mariana Marão
Eunice Baía — Foto: Mariana Marão

Para Eunice Baía, 32, o momento atual é promissor para os indígenas. Da etnia Baré, Eunice se mudou para São Paulo na infância, quando interpretou Thainá no filme de mesmo nome. Hoje, ela trabalha com produção de figurinos e é mãe de Antônio, 11, e Aruã, 1. Em depoimento à série "Mátria Brasil" de Marie Claire, ela revela as maiores dificuldades de sua experiência como mãe indígena, e se emociona ao reconhecer a força que recebe de seus filhos.

“Fico feliz que meus filhos vão poder escolher o que querem fazer. Estamos vivendo um momento de mais visibilidade para os povos originários. Quando que a gente ia imaginar ter uma ministra indígena?

Mas claro que ainda tem muitos estereótipos sobre como uma mãe indígena deve ser, como uma pessoa indígena deve ser. Vim para São Paulo há 20 anos, e um dos maiores obstáculos da maternidade é criar meus filhos aqui.

O Antônio puxou o pai, que é aqui de São Paulo, então tem cabelos claros. O que ele mais puxou de mim foram os olhos. Mas ele já sente na pele a dificuldade. As pessoas questionam a origem dele, falam que não parece indígena. Eu digo para ele que não tem isso, não tem mais essa história de que indígena tem que ter cabelinho escorrido. Indígena pode ser de qualquer forma, cabelos e cores. Mas é complicado para uma criança.

Sei muito bem disso porque lembro quando vim para São Paulo e comecei a estudar. Foi muito difícil para mim isso de me afirmar, ser indígena numa escola. Lutei muito para não ser quem eu era, não me ver como essa menina. Enfrentei muito preconceito no meu primeiro ano aqui.

Eunice Baía — Foto: Mariana Marão
Eunice Baía — Foto: Mariana Marão

Me tornei mãe aos 22. Nem achava tão cedo, porque minhas irmãs foram mães aos 15, 16 anos. As pessoas falavam: ‘ah, indígena tem filho cedo’. Mas não é isso.

O Aruã veio dez anos depois do Antônio, e foi uma surpresa. Não achei que fosse ser tão diferente do Antônio como está sendo. O Aruã é uma pipoca, não para quieto. É incrível ver que são dois indivíduos completamente diferentes.

E aí tem a questão cultural. Entre os indígenas, quem cuida dos filhos é a mulher. E nem sempre eu posso estar presente, trabalho fora, meus filhos vão à escola. Bate muita culpa quando o Aruã fica doentinho, ou quando fica o dia todo na creche.

Hoje sou mãe solo de dois. É uma barra, ainda mais sendo indígena. Ao mesmo tempo, depois que me tornei mãe, descobri uma força em mim que não sei de onde vem. Acho que vem deles.

Os meus sonhos, as coisas que eu queria — nada mudou. Lá atrás, sonhava trabalhar no Teatro Municipal, com figurino, e hoje estou vivendo isso. A maternidade não me atrapalhou. Às vezes, no primeiro filho, achei que atrapalharia — a gente pensa nisso querendo ou não.”

Mátria Brasil — Foto: Mariana Marão
Mátria Brasil — Foto: Mariana Marão

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