Mães e Filhos

Por Juliana Picanço, Redação Marie Claire — São Paulo


Mães de UTI relatam rotinas marcadas por dor e esperança — Foto: Foto de Aditya Romansa na Unsplash
Mães de UTI relatam rotinas marcadas por dor e esperança — Foto: Foto de Aditya Romansa na Unsplash

A chegada de um bebê prematuro ou com complicações de saúde é um momento de grande preocupação e ansiedade para qualquer mãe. Muito mais do que lidar com os desafios e a complexidade do puerpério, essas mulheres ainda se veem diante de um turbilhão de emoções e incertezas, sem conseguirem sair da maternidade com seus bebês no colo e passando dias, semanas ou meses na UTI neonatal.

Com histórias marcadas por coragem, resiliência e uma força interior que se manifesta mesmo nos momentos mais sombrios, estas mulheres mostram que é possível encontrar força nas pequenas conquistas e amparo na rede formada pelos profissionais da saúde.

"O importante não é que 'venha com saúde', mas sim, que viva"

“Preciso confessar que ainda não me sinto pronta para falar muito sobre a experiência como mãe de UTI. Talvez porque ainda seja tudo recente demais, talvez porque ainda estejamos no meio — ou seria no início? — de um longo processo de recuperação", começa Leticia Cazarré. A bióloga e editora é mãe de cinco filhos, sendo um deles Maria Guilhermina, que nasceu com uma cardiopatia congênita rara chamada Anomalia de Ebstein. A doença causa aumento do átrio, levando a insuficiência cardíaca congestiva e fluxo insuficiente de sangue vermelho para o corpo.

"Assim que deixou a barriga da mãe, a pequena guerreira passou pela primeira das três cirurgias feitas em seu coração. Apesar da nossa bebezinha de um ano de idade, Maria Guilhermina, ter superado muitas coisas graves (foram quatro cirurgias cardíacas, uma traqueostomia, uma gastrostomia, duas máquinas de circulação extra-corpórea, inúmeros AVCs e lesões cerebrais), o estado de saúde dela hoje ainda inspira tantos cuidados que não sabemos quanto tempo ela vai demorar e o quanto vai, de fato, recuperar.

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Tudo começou com um ecocardiograma fetal de rotina, por volta de 24 semanas de gestação. Um exame que, nos primeiros quatro filhos, eu tinha preferido não fazer, por preguiça e por ignorância. Lembro de sempre perguntar ao obstetra 'Dr, se tiver algum problema, vamos poder operar o bebê na barriga?' Ele respondia que 'não', sorrindo, e eu dizia: então vamos deixar nascer para descobrir! Na quinta gestação, talvez pela minha idade maior, ou por uma intuição, resolvi fazer o bendito exame. A médica que me atendeu começou a demorar mais do que o normal olhando as imagens, ficou desconfortável e me pediu para sair e andar um pouco, porque a bebê não estava numa boa posição. Subi e desci as escadas durante 10 minutos e voltei. Novamente, aquele olhar demorado e tenso para o monitor, e um silêncio mortal.

Comecei a rezar e senti as lágrimas escorrendo dos meus olhos. Eu sabia que havia algo errado, mas não imaginava que seria tão grave. ‘Estou vendo uma má-formação cardíaca na válvula tricúspide, compatível com Anomalia de Ebstein. Pode voltar em duas semanas para confirmar.’ E assim, a médica me dispensou da sala de ecocardiograma. Nenhuma frase a mais, nenhum consolo, nenhuma tentativa de explicar melhor o que minha bebê tinha e como isso poderia afetar a vida dela.

Fui embora confusa, com raiva e pedi um novo exame ao meu obstetra. Ele me agendou com um dos melhores médicos do Rio de Janeiro. No dia seguinte, confirmamos o diagnóstico. Voltei para casa sem saber o que pensar e passei os próximos dois dias em um estado de letargia mental, fazendo as tarefas diárias no automático. Internamente, era como se um abismo tivesse se aberto sob mim. Lembro de deitar no tapete do quarto dos meus filhos pequenos por um tempo e chorar de tristeza e de medo. Como poderíamos enfrentar aquilo, tendo já quatro filhos para cuidar? Será que ela iria sobreviver? Como eu teria forças para enterrar uma filhinha? O que eu podia fazer para ajudá-la? Todas essas dúvidas se enroscavam na minha mente como um fio trançado infinitamente, repetindo-se sem parar.

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Eu me sentia fraca, impotente e assustada. Mas nunca tive vocação para a tristeza. Já tendo vivido tragédias e dificuldades sérias na vida, eu sabia que aquilo não iria me destruir. Eu apenas precisava me dar um tempo de luto, para enterrar os sonhos que havia construído em relação àquela gravidez e àquela pequena bebê, e abrir espaço para a nova realidade que se impunha em nossas vidas. E assim eu fiz. No terceiro dia, sacudi a poeira e parti para a frente de batalha. Passei a pesquisar seriamente o assunto, usando minha experiência dos anos em que trabalhei como bióloga. Baixei todos os artigos científicos que encontrei sobre Anomalia de Ebstein e cheguei no nome de José Pedro da Silva, cirurgião que inventara uma técnica inovadora de plastia da válvula tricúspide para curar essa doença: a cirurgia do Cone. Descobri que ele atuava num renomado hospital americano e escrevi um email em inglês explicando brevemente o nosso caso e pedindo ajuda. Horas depois, recebi uma resposta em português. E este foi o início de uma relação que, tenho certeza, salvou a vida da Maria Guilhermina inúmeras vezes. Com a ajuda do José Pedro e de sua esposa, a também cirurgiã Luciana Fonseca, nós conseguimos acompanhar o desenvolvimento gestacional com muita precisão e perceber quando a gravidade aumentou, o que nos fez optar por tê-la em São Paulo, ao invés do Rio. Sabíamos que, com o coração que ela tinha, nascer em São Paulo com a equipe do José seria sua única chance.

Partimos então, com 36 semanas, sem saber quanto tempo levaríamos para voltar para casa. Principalmente, não sabíamos se voltaríamos com ela nos braços ou não. Tudo aconteceu muito rápido: logo depois de pousar, fizemos um exame que mostrou um coração tão grande que ela precisaria nascer o quanto antes. Para surpresa de todos, Maria Guilhermina nasceu muito bem e os médicos pensaram em levá-la para a UTI, mas o ecocardiograma do nascimento mostrava que ela tinha o pior dos casos: o shunt circular. Essa é uma situação em que o sangue circula quase totalmente apenas dentro do próprio coração e, em poucas horas, ela morreria. Tivemos, então, que nos despedir da nossa pequena para que ela pudesse ser operada. Isso significava que uma bebezinha de 37 semanas, pesando 2,5 kg, seria colocada numa mesa de cirurgia imediatamente após o parto, teria seu peito, externo e coração abertos e reparados, numa tentativa de fazer com que esse pequeno e frágil coração aguentasse até as próximas cirurgias.

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Foram 10 horas de operação até que ela finalmente fosse levada à UTI. Meu parto foi às 8h da manhã, mas eu só pude vê-la às 23h. Eu não fazia ideia do que iria encontrar. Chegar de cadeira de rodas naquele leito, ficar em pé e olhar para a nossa pequena foi uma das coisas mais difíceis que já tive que fazer na vida. Ela estava totalmente diferente de quando a segurei no colo de manhã. Antes, era uma bebezinha rosada, linda e muito calminha. Agora, arroxeada, muito inchada, cheia de tubos e drenos perfurando seu corpinho, ligada ao respirador, a uma máquina de circulação extra-corpórea onde podíamos ver seu sangue vermelho-vivo circulando, e a uma hemodiálise. Foi uma cena de horror, mas que eu decidi enfrentar com a maior serenidade possível. Eu só pensava: quem ficou com a pior parte não fui eu, foi ela! Preciso ser forte. Ela merece! E assim foram se passando os dias, com esse lema na minha cabeça e muito apoio do meu marido, das minhas amigas, que rezavam intensamente por nós e de todo o Brasil, que torcia e se manifestava nas redes sociais desejando o melhor para a nossa Maria Guilhermina.

Pela primeira vez, não tive puerpério. Simplesmente não senti (ou ignorei) a dor da cesárea, e passava dias inteiros sentada na poltrona ao lado dela, além de subir uma ladeira enorme do hotel até o hospital diariamente. Uns dois pontos da cicatriz se soltaram, mas nada disso me preocupava ou fazia sofrer. Eu simplesmente estava focada em ser o mais forte que eu pudesse para a minha filha, que precisava de mim. As primeiras semanas foram de muita instabilidade e muito aprendizado. Tudo era novidade, um mundo desconhecido para nós. Todos os termos médicos, os medicamentos, os procedimentos, cuidados, intercorrências. Que palavra, essa! Intercorrência. Hoje eu sei o quanto cabe nessa palavra, mas não conseguiria explicar. Só quem viveu ao lado de um filho numa UTI sabe.

Aliás, a partir daqui, sinto que não há muito o que eu possa dizer, porque os dias, semanas e meses se passaram na UTI com uma tal intensidade, com tantos altos e baixos, tantas cenas de sofrimento, de dor, de angústias, que me faltam as palavras. Ao longo de mais de 8 meses, não só acompanhei de perto o sofrimento e as batalhas da minha própria filha, como fui testemunha das lutas e perdas de inúmeras outras famílias. Eu vi muitos bebês perderem a vida. E vi outros piorarem bastante, antes de finalmente melhorarem e terem alta para casa. A tão esperada alta, que depois nós aprendemos que, dificilmente, é definitiva. O mais comum na vidinha desses bebês tão frágeis e graves é que voltem a precisar de internação muitas vezes. E cada uma delas é um novo ciclo de incertezas, angústias, sofrimentos, mas também, de muita fé e de vitórias. Cada remédio de que diminuímos a dose, cada gesto do rosto, dos pés e das mãos, cada pontinho da pressão que reduzimos no respirador, é uma grande vitória. Para esses bebês e para suas famílias, para os médicos que se dedicam dia e noite, apaixonadamente, para salvar a vida deles, cada pequeno avanço — ou mesmo cada período sem piora — é algo a ser comemorado.

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Hoje a minha filha está em casa, mas vive como se estivesse numa UTI. Precisa de monitoramento dos sinais vitais durante 24 horas, respira com ajuda do ventilador mecânico, alimenta-se pela sondinha na barriga e começa a ter os primeiros avanços motores com ajuda de muitas terapias. Meu papel é estar sempre alerta a tudo, organizando o home care, treinando e supervisionando as cuidadoras, discutindo cada passo com os médicos e pensando no que é melhor para ela. Preciso saber socorrê-la nas intercorrências, entender os sinais clínicos melhor do que ninguém e ser os olhos dos médicos para que eles saibam o que fazer a cada novo dia, dependendo do estado de saúde dela.

Leticia Cazarré junto com o marido, Juliano Cazarré, e a filha caçula, Maria Guilhermina — Foto: Reprodução/Instagram
Leticia Cazarré junto com o marido, Juliano Cazarré, e a filha caçula, Maria Guilhermina — Foto: Reprodução/Instagram

Depois de dar plantão ao lado dela por mais de 3.000 horas, em 5 internações e em 2 UTIs diferentes (no Rio e em São Paulo), além do tempo em que ela já está em casa sob minha vigilância total, hoje eu sei que não existe outra pessoa no mundo que conheça minha Maria Guilhermina tão bem quanto eu. Nós duas desenvolvemos uma ligação tão forte que me emociona diariamente pensar nisso. Sonho com o dia em que ela vai poder brincar com os irmãos, livre de todos os suportes médicos, e nós poderemos contar pra ela o quanto aprendemos com a sua força, sua entrega e sua vontade insuperável de viver. Graças à Guilhermina, hoje somos mais gratos por tudo o que a vida nos deu — nossa saúde, nossa família, nosso progresso espiritual e material — e, acima de tudo, somos mais unidos e nos amamos muito, muito mais.

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Hoje eu sei que, ao contrário do que diz o dito popular, o importante não é que “venha com saúde”, mas sim, que viva! E isso não significa viver apenas neste mundo material, mas sim que a nossa vida continua para sempre na eternidade. Graças a todos os pequenos bebês que conheci na UTI e que se foram desta vida depois de muito lutar, graças ao amor sem tamanho das famílias que os receberam e que se doaram completamente a eles, graças à magnanimidade dessas histórias de pequenos grandes seres humanos que nascem e dão tudo de si diante dos nossos olhos, é que podemos dizer com uma certeza que vem do coração: “Nós nascemos, e jamais morreremos".

"O mundo continuava acontecendo, mas, para nós, era aquele som infinito da UTI"

Fabia Dias viu a vida virar de ponta cabeça ao receber o diagnóstico de coqueluche da filha, Bianca. Com 29 dias de vida, a pequena, terceira filha da jornalista, foi internada na UTI com um diagnóstico que quase sempre é recebido como uma sentença de morte para os recém-nascidos. A produtora de eventos artísticos conta as angústias que viveu ao lado da família, o marido Ricardo Sant’anna e os filhos Raul e Miguel, durante quase um mês do dia a dia nos hospitais, os receios durante a espera pela alta e a culpa por não poder mudar a situação enfrentada pela caçula.

“Eu engravidei da Bianca depois de 12 anos. Eu já tinha dois filhos e engravidei do terceiro, uma menina. Foi um sonho realizado, a família toda ficou muito feliz. Mas, justamente por ser a minha terceira gestação, eu estava muito tranquila. Eu passei na médica e ela me sugeriu um reforço da vacina contra a coqueluche, mas infelizmente, pela correria da minha rotina do dia a dia, eu acabei não tomando. Eu já era vacinada, mas não tomei o reforço grávida.

Quando minha filha nasceu, nós passeamos com ela, deixamos todo mundo visitar, pegar… eu achava frescura as mães que não queriam visita na maternidade, que passeasse com o bebê, então fiz tudo. Hoje, vejo que fui um pouco inconsequente, mas era o meu terceiro filho e nunca tinha acontecido nada. A gente nunca acha que vai acontecer com a gente.

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Quando a Bianca tinha 26 dias de nascida, eu ia viajar para um sítio, em Jundiaí, no feriado. Nós vimos que ela estava um pouco gripada, mas passamos no hospital e nos disseram que era gripe. Fomos viajar e três dias depois, quando ela tinha 29 dias de vida, percebi que ela começou a piorar. A febre não baixava, ela não conseguia mamar, ficou mais quieta. Eu liguei para o médico e ele me falou para ficar calma, porque era gripe. Mas a minha intuição me disse para irmos ao hospital.

Saímos do sítio e fomos direto para o hospital, em São Paulo. Quando chegamos, nós passamos pela triagem e a enfermeira foi muito delicada. Ela nos disse que o oxímetro usado para medir a saturação da Bianca estava quebrado e nos dirigiu para uma salinha. Na verdade, mais tarde, nós descobrimos que era uma sala de pânico – vários médicos entraram, fizeram manobras de respiração nela, que estava com uma saturação muito baixa. No mesmo momento, já colocaram a minha filha na incubadora e subiram ela para UTI.

Nos disseram que a Bianca estava com bronquiolite, uma doença comum no outono e que, em recém-nascidos, chega em um estágio ruim, mas que a chance de morte é quase nula. Ela foi para a UTI neonatal, o que foi bom porque podíamos ficar com ela o tempo todo. Mas foi muito difícil. Nós ficávamos 24 horas por dia com ela. Eu tinha que tirar leite e era uma coisa horrível para uma mãe que tinha acabado de ter um bebê, passando pelo puerpério. Era mastite, o peito inchado, ter que ordenhar na sala de duas em duas horas, passar por um processo de esterilização do corpo todo. Era muito desgastante.

Nos primeiros dias, a capacidade pulmonar da Bianca foi piorando muito. Ela chegou a usar uma máquina respiratória externa, o Cpap, mas logo veio a notícia de que ela teria que ser entubada. Foi muito ruim. Ela era aspirada o tempo todo porque ela não conseguia expelir a secreção. Nós fomos seguindo na UTI, mas baseando-se no ciclo do vírus da bronquiolite, ela já teria que ter melhorado e só estava piorando. Foi preciso fazer transfusão de sangue, gasometrias, alguns exames horrorosos e ela mesmo assim não melhorou. Foi nesse momento que os médicos começaram a achar muito estranho e perceberam que tinha alguma coisa além do primeiro diagnóstico.

Uma médica, que olhou o raio-X do pulmão da Bianca, teve a suspeita de ser coqueluche e pediu para fazermos um exame. Vinte e quatro horas depois, veio a confirmação do diagnóstico da doença, que pra quem é vacinado tem como sintoma a tosse, um pouco de falta de ar, mas segue a vida. Porém, para um bebê, a mortalidade é mais de 90%. A vacina só é dada no bebê aos 60 dias de vida.

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Por isso, com o diagnóstico da doença, veio também o diagnóstico de óbito. Foi muito difícil. Ficamos 21 dias com ela no hospital. Era uma sensação de culpa por não ter tomado o reforço da vacina, de fé, de falta de fé. As pessoas iam até lá, a família, os amigos, e eu não lembro de nada. A minha mãe me levava roupa para tomar banho dentro do hospital e muitas vezes, eu entrava no banheiro, sentava na privada com a roupa, ligava o chuveiro, desligava e saía com a mesma roupa, não conseguia tomar banho. Não comia, não dormia. O meu peito secou, entrei com a medicação para voltar. Então, vazava o leite. Foi deprimente.

Nós tínhamos uma fé muito grande, mas todo dia tinha a informação de alguma piora. Chegou no ponto da psicóloga do hospital, perto das mães, me perguntar se eu não queria chamar os meus filhos mais velhos para se despedir da irmã. A diretora do hospital, que estava afastada durante o tratamento contra um câncer, foi até lá um dia e marcou uma reunião conosco e nos disse que fazia muito anos que eles não perdiam um bebê, mas que o caso da Bianca era muito grave. Nós perdemos as esperanças várias vezes. O meu marido ainda segurava um pouco, mas eu estava detonada. A gente ficava ali o dia todo, vendo ela sem respirar. Era cruel. A gente se hospedou em um hotel perto do hospital e dormíamos da meia-noite às 3h da manhã.

Fabia Dias e a filha caçula, Bianca — Foto: Acervo pessoal
Fabia Dias e a filha caçula, Bianca — Foto: Acervo pessoal

Eu lembro que eu olhava na janela do hospital e o mundo acontecia lá embaixo. Os carros iam passando, as pessoas entravam na padaria. Mas, para nós, era aquele som infinito da UTI. O tempo não passava.

Enquanto isso, nós recebemos terços, cartas, alguém chegou a benzer a Bianca da África. O meu marido fez promessa, batizou ela no hospital porque um amigo o ensinou como fazia. Nós fizemos de tudo. Enquanto isso, um grupo de amigos e familiares decidiu fazer 1.000 tsurus de origami – a lenda diz que se a pessoa fizer mil tsurus, usando a técnica do origami, com o pensamento voltado para um desejo, ele se realiza. E foi assim: um belo dia, nós fomos para o hospital e a médica nos falou: ‘Olha a gente vai extubar, parece que o pulmão de está melhorando e se ela ficar estável, em 24 horas vocês vão embora’.

Foi uma coisa de repente, mágica, absurda. Todo mundo rezou aquela noite no hospital, ela ficou mais 24 horas estável e finalmente tivemos alta. Nós tínhamos medo das sequelas que poderiam vir. A Bianca teve várias paradas cardíacas, foi reanimada várias vezes. Mas por um milagre, ela não tem nada. Ficou doente pouquíssimas vezes ao longo desses 5 anos, é super forte.

Esses mil tsusrus depois viraram um espetáculo. Nós escrevemos uma peça sobre as lutas e a nossa busca pelo milagre. Sobre a nossa força interior para lutar com os nossos problemas, sejam quais forem. Foi um divisor de água para a nossa família".

"A solidão no hospital é grande e o medo de perder também"

Nátia Muniz perdeu duas filhas antes do nascimento de Fernanda, hoje com 32 anos. Mãe solo, a especialista em expansão de marca no Brasil relata os desafios de conciliar o trabalho e os cuidados da filha, que nasceu após seis meses de gestação. As incertezas, medos e angústias em relação ao que poderia acontecer foram superadas aos poucos, com a ajuda dos profissionais de saúde que a ajudarem durante todo o processo.

"Quando eu entrei no quinto mês de gravidez, eu comecei a ter contrações e fui internada para tentar contê-las. Mesmo com as medicações, elas continuavam. Fiquei um mês no hospital. Lembro que a médica me disse que não daria mais para esperar e que o parto seria no dia seguinte. Eu dizia: ‘Não, não quero, eu vou esperar’. Mas a minha filha não estava mais se alimentando e ia começar a emagrecer. Assim, a Fernanda nasceu, após seis meses de gestação.

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Ela tinha um quilo e meio. Era muito pequena, não tinha a pele totalmente formada, não tinha cartilagem na orelha, nada. Só cabelo. Ela teve icterícia, então teve que receber medicação na veia e tiveram que pegar uma da cabeça. Na minha época, toda criança que nascia prematura, ia para uma UTI. Nós contratamos um médico especialista em neonatal para cuidar dela.

Era desesperador. Tinha horário de visitas no hospital e, nesses casos, você nunca sabe como ela vai estar. Eles diziam: ‘Olha, hoje ela está muito mal’. Aí eu não dormia e chorava a noite inteira. No dia seguinte: ‘Ela passou bem essa noite’. Era muito complicado. Teve um dia que eu cheguei no hospital às 7 horas da manhã e chorei o dia inteiro, de desespero mesmo. Porque nós nunca sabemos o que esperar, quando ela está ou não está bem, se vai sobreviver. Eu também não tinha leite, de jeito nenhum. Eu tentava tirar o leite e não conseguia.

É muito sofrida a rotina de hospital. Eu trabalhava e voltava para lá. Nunca me importei muito com que as pessoas estavam pensando, se elas achavam ruim ou não eu continuar trabalhando com a minha filha internada. Eu pensava que eu tinha que trabalhar, sustentar minha filha, pagar enfermeiras. É óbvio que criticam, mas cada um sabe da sua realidade. Pior era minha filha ficar no hospital e eu não ter condições de pagar as coisas para ela.

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Antes da Fernanda, eu perdi dois filhos. Foi uma dor horrorosa. É uma dor do cão, ter um filho, ele morrer e você vê-lo sendo enterrado. Você dormir grávida e acordar sem filho, com todas as roupinhas compradas. Com uma criança prematura, o medo de vê-la indo embora é muito grande. Mas eu estava lá e batalhava todos os dias. Tirei forças de onde não tinha. Eu sempre conversava com ela. Entrava na UTI e pensava só em coisas alegres e felizes por ela estar lá.

A solidão no hospital é grande e o medo de perder também. Algumas pessoas pensam em te culpar por isso. Eu cheguei a ouvir que minha filha nasceu prematura porque eu andei na praia, porque eu não tomei cuidado. Mas eu não me culpo, muito pelo contrário. Quando eu soube que a minha filha estava ruim, ainda grávida, eu saí do trabalho, peguei um táxi, voltei para São Paulo e fiquei deitada sem poder levantar nem para tomar banho até ela nascer. Eu fazia tudo da cama, não coloquei o pé no chão. Fiz de tudo para ela nascer o mais saudável possível. Não é justo eu me sentir culpada. Imagina ficar 40 dias na cama, sem poder colocar o pé no chão. E eu não reclamava. Contratei o melhor ele era uma fortuna Juliana, então assim o melhor especialista que tinha em São Paulo para cuidar dela. Se não fosse ele eu não sei se ela teria sobrevivido.

Depois de um mês no hospital, ela foi para casa. Não porque ela já estava bem, mas o médico achou melhor, para não pegar nenhuma infecção na UTI. Contratei uma enfermeira especializada em neonatal. Esse período foi ainda mais difícil, porque no hospital havia toda uma estrutura e eu sabia que ela estava protegida. Mas, em casa, eu me desestruturei muito mais. Eu tinha medo de dormir, de acontecer alguma coisa. Então, parei de trabalhar, porque exigia muito de mim. Eu tinha medo de deixá-la sozinha. Apesar de não estar mais no hospital, ela tinha que fazer exames toda semana.

Tenho muita gratidão pelas enfermeiras que cuidaram da Fernanda, que hoje é super saudável. O carinho e amor com que elas cuidavam das crianças prematuras fizeram toda a diferença".

O que diz a psicologia?

"O nascimento, por si só, já altera todo sistema de uma mãe, de uma família no todo. Há uma expectativa gigante para 'saber quem é aquele bebezinho' que chega para alterar pontos importantes da rotina. Com isso, já existe uma mudança no estado emocional da mãe e da família. E um desejo ardente de permanecer com a criança nos braços. Em casos especiais onde o bebê não vai para os braços da mãe e vai direto para a UTI neonatal, existe uma tensão por trás da emoção que a amar sente. Um medo e algumas dúvidas sobre o futuro. A incerteza traz sensação de angústia e muito sofrimento", explica a psicóloga especialista em emoções, Luana Ganzert, que reforça que a notícia de que o filho terá que ficar em um UTI, interrompe não só os planos em torno da maternidade, mas também parte da construção do vínculo materno construído na adaptação.

"As mães de UTI ficam mais ansiosas e se sentem muito mais inseguras. Algumas com medo o tempo todo. É muito importante que essas mães reconheçam seus limites e busquem os lugares de apoio emocional para enfrentar esse desafio. Muitas vezes a esse pós, inclui terapia", complementa.

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"Trazer a mãe a possibilidade de se auto conhecer para que ela compreenda seus limites e de atenção apenas ao amor que pode dar naquele momento, é fundamental. Às vezes, esquecemos que somos humanos e queremos salvar o mundo, e quando não conseguimos, nos sentimos culpados por isso. A culpa é um peso desnecessário quando de fato não é o que a minha competência alcança. Lidar com os sentimentos ruins que são inevitáveis, e buscar aconchego e acolhimento internamente. Isso tudo pode acontecer através do autocuidado e do autoconhecimento", Luana Ganzert.

A especialista ainda reforça que é preciso ter calma para se adaptar à nova adaptação depois que essas crianças deixam os hospitais e vão para casa.

"A adaptação assim que o bebê nasce, já é um cuidado necessário, mas a adaptar-se a rotina de um bebê que permaneceu na UTI, é ainda mais delicado. Além dos cuidados normais que uma criança precisa, ainda existe o cuidado extra pela dificuldade que o bebê enfrentou. As vezes medicações, rotinas mais assíduas aos médicos, e ainda, conviver com o cansaço e estresse gerados pelo tempo na UTI. Equilibrar a nova dinâmica requer calma, ajuda, e muita saúde mental", finaliza.

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