Noiva escarlate e jeans: alta-costura prova que luxo pode e deve ser versátil
As semanas de alta-costura reúnem os maiores nomes da moda em Paris duas vezes por ano para apresentar os designs mais cobiçados (e caros) da indústria; nesta temporada, vimos um movimento criativo no qual os estilistas mostram que tudo vale: do jeans (sim!) até uma noiva vestida de vermelho ou coberta por armaduras
Por Laura Reif
Mais uma Semana de Moda de Alta-Costura se encerrou em Paris. Abrindo a temporada (que aconteceu de 3 a 6 de julho), Schiaparelli e Dior apresentaram suas coleções outono/inverno com peças que veremos em breve nos próximos tapetes vermelhos vestidas pelas mais famosas das artistas, assim como a Chanel, Valentino e muito, muito, mais.
Durante quatro dias, a capital francesa foi tomada por grandes nomes da arte e do entretenimento para ver de perto os designs mais complexos -- e caros -- da indústria, apresentados em cenários dramáticos, bem como as previsões de tendências para as próximas temporadas.
As coleções de alta-costura são o resultado do trabalho mais perfeccionista e intenso dos ateliês de luxo, que contam com clientes exclusivos que buscam por peças únicas e designs customizados -- estas que serão usadas poucas vezes em público, como em eventos de gala e tapetes vermelhos. Não, elas não são as roupas comuns do dia a dia.
Porém, mais do que ostentar as criações mais cobiçadas do mundo, a alta-costura serve como inspiração para designers de todos os lugares, assim como para o público que acompanha de longe as lives das grifes com suas novidades mais exclusivas. O que virá por aí? Minimalismo, maximalismo? O luxo discreto do Quiet Luxury, tão falado nos últimos meses, ou uma guinada dramática em outra direção?
Vimos um retorno às raízes da moda em apresentações como Valentino e Balenciaga, que propuseram versões complexas de básicos como o look total denim e do jeans com camisa branca. Também vale o destaque dos florais nada discretos para o outono, da natureza morta da Chanel ao vermelho escandaloso de Giorgio Armani Privé.
As tendências, muito diferentes à primeira vista, conversam entre si em um movimento criativo no qual os estilistas mostram que tudo vale: o jeans pode ser alta-costura. A noiva pode vestir o que quiser, até armaduras. O luxo pode ser contido ou extravagante, sem se prender a uma tendência dos últimos tempos.
Veja, abaixo, os destaques das apresentações:
Flores para o outono?
Se Miranda Pristley não aprova flores para a primavera, que tal para o outono? Em um desfile repleto de leveza, a diretora criativa da Chanel, Virginie Viard, apresentou a coleção da maison às margens do rio Sena como um retrato sensível da mulher parisiense idealizado pela marca.
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Motivos bordados de flores e frutas surgiram nas silhuetas que misturavam códigos masculinos e femininos em ternos de tweed enfeitados com tules. A natureza morta e tons outonais foram o o fio-condutor da apresentação que contou com modelos levando cestas de flores típicas dos anos 1970 ao invés de bolsas como acessórios.
Já o desfile da Giorgio Armani Privé, fez um convite para uma temporada escarlate, "carnal e sedutora em uma coleção que reinterpreta a mais icônica das flores sem recorrer ao romantismo. A rosa, intimamente ligada à imaginação feminina e ao mundo da couture, aqui é visto pelas lentes da sensibilidade e sensação de precisão", descreve a marca em nota.
Azul é a cor mais quente
Para o outono/inverno 2023/2024, o diretor criativo da Schiaparelli, Daniel Rosenberg, deu uma aula de alta-costura nos 30 looks apresentados em Paris ao abrir a temporada.
O sofisticado tom azul "Yves Klein Blue" -- nome dado em homenagem ao artista francês Yves Klein, que descobriu a cor em 1958 -- surgiu na coleção em peças e pinturas corporais nos modelos.
E, se fosse combinado, não seria tão bom: o tom também pincelou as coleções da Valentino, com propostas diferentes.
Capas
Na Dior, Maria Grazia Chiuri foi de encontro com a artista Marta Roberti, cujo trabalho transformou a passarela em Paris em uma galeria de arte. As pérolas, símbolos de pureza segundo a marca, aparecem em inúmeros bordados. As texturas cintilantes dos anos 60 revivem, embelezando saias longas e vestidos, enquanto a lã e a caxemira ocupam um lugar-chave na coleção. As capas evocam vestimentas sagradas e surgem ora bordadas.
Para sua mulher boêmia dos anos 1970, a Chanel apresentou a ativista indígena Quannah Chasinghorse com um vestido de noite com capa, em um dos looks mais fortes da coleção.
Jeans
Mas, e aí? Pode-se usar jeans em uma coleção de alta-costura? Pelo visto, sim. Mas, calma, vamos explicar.
Para uma marca ser considerada couture, entre uma longa lista de exigências, é preciso ter um ateliê em Paris, apresentar uma moda exclusiva, feita à mão e com materiais de altíssima qualidade. E foi o que a Valentino e a Balenciaga fizeram com suas interpretações de denim, que surpreenderam o público, e com razão.
A primeira apresentou uma construção complexa trazer o jeans às passarelas parisienses ao costurar miçangas trompe l'oeil que criaram o efeito de denim em uma calça combinada com uma camisa branca fluida. Mas Pierpaolo Piccioli foi além: para o "cotidiano pode se tornar excepcional, as t-shirts transformam-se em vestidos de baile, os jeans vintage Levi's® 501 XX Big E servem de tela para bordados dourados", diz a marca em nota.
A segunda, nas mãos do criativo Demna, apostou em tecidos inventivos, que criaram a ilusão de peças jeans brilhantes na passarela. Mas, na verdade, eram peças feitas de lona ou algodão e escovadas com tinta a óleo.
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Lá vem a noiva, toda de... Quê?
O look final de cada coleção de alta-costura é a noiva em sua versão mais complexa e opulenta. O clássico vestido branco é pensado e repensado a cada temporada e, por incrível que pareça, já ganhou formas que marcaram a cultura pop -- como Kate Moss para Versace em 1995.
Conforme os tempos mudam, a moda reflete as evoluções em seus cortes, cores e formas. E foi isso que vimos na moda noiva da alta-costura esta semana. Começando pela noiva cor de rosa de Elie Saab. Para o clássico vestido de casamento que fecha os desfiles da alta-costura, o estilista libanês explorou o tom, com bordados florais, cauda longa, ombreiras e véu.
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Giorgio Armani escandalizou, no bom sentido, ao dar vida a uma noiva toda de vermelho vibrante, dos pés ao véu. Com destaque para o corset com aplicação de rosas vermelhas.
O estreante Thom Browne, transportou sua alfaiataria, que começou lá em 2003 em uma loja no West Village em Nova York, às passarelas de alta-costura e sua noiva diz muito sobre a importância de sua presença ali.
Browne já é acostumado a fabricações altamente conceituais e seus desfiles prêt-à-porter são sempre muito esperados pelo público, especialmente pelas apresentações teatrais e virais.
Os shapes que já são marca registrada de Browne, como os blazers, bermudas e saias midi, entregaram uma coleção coesa com muitas surpresas ao decorrer da apresentação. Trench coats com ombros de casulo, estampas geométricas totalmente fora da caixa e a noiva de alfaiataria branca, véu e pernas à mostra foram alguns dos muitos pontos altos do momento.
A dupla Viktor & Rolf surpreendeu, como sempre, e, desta vez, apostou uma alta-costura toda trabalhada em trajes de banho, mas mantendo a assinatura da marca com laços por todos os lados e ombros esculturais, ideias já apresentadas em coleções anteriores. A noiva surgiu em maiô acetinado, com cauda e buquê de flores brancas.
E para finalizar: Balenciaga, senhoras e senhores. Demna apresentou uma noiva pronta para um campo de batalha. O look final feito de resina cromada impressa em 3D fez um aceno à coleção de 2021.









