Moda

Por Nathália Geraldo, redação Marie Claire — São Paulo

Cartas, diários, desenhos, roupas. Tudo é memória na coleção Cartas para Ítaca, da Neriage, apresentada nesta terça-feira (29) em um desfile realizado no prédio da Pinacoteca de São Paulo para convidados e imprensa. Travando um diálogo com a passagem do tempo, vagaroso para que nenhuma lembrança fique para trás, o verão 2024 da marca slow fashion traz os plissados inerentes à grife, com espaço para jacquards, seda e, pela primeira vez na história da Neriage, até jeans (em uma versão upcycling com a Levi’s).

A diretora criativa Rafaella Caniello visitou um baú de inspirações inestimável para desenvolver a coleção: o legado de José Leonilson com mais de 3.500 obras catalogadas (entre bordados, diários, pinturas, cartas e desenhos), e devidamente licenciadas pela família do artista cearense, por meio do Projeto Leonilson.

Com o olhar atento principalmente às produções do multiartista entre os anos 1970 e 1990, Rafaella deu início a sua própria construção criativa. E nela, viajar, contemplar e torna-se diferente depois da imersão são movimentos que dão sentido ao que é vivido e, posteriormente, ao que fica de registro do que se viveu.

O desfile acontece após a expansão da marca com a inauguração recente de uma loja no shopping Cidade Jardim. Também há uma unidade no bairro de Pinheiros, as duas em São Paulo.

“Trabalhar com a obra de Leonilson foi como receber um presente de sua família. Já admirava muito a obra dele, e percebi o quanto a gente se encontra no trabalho com a nossa intimidade”, comenta a diretora criativa, que toca a marca ao lado da sócia Laura Cerqueira Leite, diretora de comunicação e concepção.

Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação
Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação

Não só a memória construída por Leonilson inspirou a diretora criativa. Uma obra póstuma do artista, com duas camisas masculinas invertidas e unidas uma à outra, para simbolizar a homossexualidade e quebrar os estigmas sociais sobre a orientação sexual [Leonilson era um homem gay], também esteve representada na passarela. “Fizemos essa homenagem com camisas unidas em uma só”, conta Rafaella.

No backstage antes de o desfile começar, ela disse a Marie Claire que tudo seria mais lento. Embarcando “Num trem para estrelas”, canção de Cazuza, de quem Leonilson era fã, que abriu o desfile, o público viu modelos caminhando mais devagar, acompanhadas de uma sequência de músicas suaves e que convidava à observação dos detalhes de cada roupa. Muitas referências se mostraram ali: bordados de pôsteres e desenhos de Leonilson, estampas maximizadas em panneaux de seda, peças bordadas com frases de Rafaella.

Para a estilista, o fato de ela estar em uma fase de mais abertura para a vida também se reflete em “Cartas para Ítaca”. Com a coleção, escreve mais uma página da Neriage no movimento de contar histórias, se possível, atemporais, por meio da moda.

Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação
Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação

“Com outras marcas, como Aluf, Misci, Isaac Silva, a Neriage tem uma vontade de colocar a identidade, a força cultural, acima de ser apenas um produto”, reflete Rafaella. “A roupa, a moda, cada desfile que a gente faz – e vai ser um por ano, porque a ideia é ser algo maior e mais lento – é uma memória. Tanto que batemos na tecla da durabilidade e das coisas ‘eternas’, porque roupa guarda memória. Não estou aqui para construir uma identidade fashion, estou para contar uma história. E fazer roupa é um tipo de diário.”

Pérolas, andarilhos e âncoras

Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação
Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação

O nome da coleção é uma referência a um dos poemas preferidos de Leonilson, chamado “Ítaca” [uma ilha grega], escrito pelo grego Konstantinos Kafávis (1863 - 1933). O texto, por sua vez, remete à passagem da mitologia sobre Ulisses, rei de Ítaca, que teria demorado dez anos para voltar para casa depois da Guerra de Troia. A partir daí, a Neriage desenvolveu peças que dialogam com o tempo, divididas em blocos temáticos: pérolas, andarilhos e âncoras.

“Ítaca é a volta para casa depois de uma experiência de vida. Em Pérolas, são os registros de quando você nasce para o mundo e está se descobrindo. Em Andarilhos, são roupas que têm zíper, amarrações, coisas que estão sendo construídas”, explica Rafaella, ampliando as metáforas para as criações. “E em ncoras, são os clássicos Neriage; aquela mulher que já se conhece e que, ainda assim, voltou diferente de uma viagem.”

Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação
Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação

No texto sobre a coleção enviado à imprensa, a estilista faz outras considerações sobre o que se viu em cada bloco: no primeiro, tons de off white e azul com acessórios dourados, jacquards exclusivos e pérolas se encontram com o mix de textura e os plissados. No segundo bloco, peças de alfaiataria desconstruídas. No terceiro bloco, silhuetas tubulares e peças com recorte em tons de terra e amarelo simbolizam a volta para casa.

Faz parte do meu show

Trabalhando pela primeira vez com jeans, a Neriage levou à passarela peças de upcycling com o tecido – uma proposta da Levi’s em comemoração aos 150 anos do primeiro modelo de calça jeans da história, a 501 –, que foi plissado manualmente no ateliê. “Foi um desafio para nós, descosturamos e costuramos tudo à mão, aproveitando os acabamentos. Ficou bem interessante e uma identidade nova e mais jovem para a Neriage”, avalia a estilista.

Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação
Desfile Neriage - Verão 2024 — Foto: Zé Takahashi/Divulgação

A gerente de marketing da Levi's para o Brasil, Argentina e Uruguai, Renata Sernagiotto diz que a parceria, de fato, traz essa conexão da moda com a atualidade. “Convidar marcas relevantes e tão queridas do público faz com que a Levi´s intensifique o valor e a herança que carrega e gere impacto tanto nos atuais fãs da marca, quanto nas novas gerações. Afinal, se sabemos uma coisa sobre a juventude é que eles têm tudo a ver com autenticidade e se conectam com as marcas que amam.”

A joalheira Victoria Sayeg produziu joias em ouro 18 quilates e pérolas de água doce exclusivamente para o desfile.

As bolsas gigantes e os chapéus ficaram por conta do projeto Akra, do designer Samuray Martins, e foram feitas com fibras de raphia em crochê.

Os sapatos da designer Juliana Bicudo acompanharam a identidade da Neriage, em dois modelos, um mule e uma flatform com salto de cinco centímetros, de couro plissado. “Parece algo simples, mas plissar o couro foi trabalhoso. Foram idas e vindas para chegar nesse modelo. Por fim, escolhemos as cores que combinavam com a cartela das peças, sendo preto, off white, dourado e ferrugem”, conta Juliana.

A importância de José Leonilson

Multiartista, José Leonilson nasceu em 1957 e morreu precocemente em 1993, aos 36 anos, vítima da Aids. Com obra predominantemente autobiográfica, se encontrou com bordados e costuras a partir de 1989.

No mesmo ano de sua morte, familiares e amigos fundaram o Projeto Leonilson, para manter vivo o legado do artista. São pinturas, desenhos, bordados e algumas esculturas e instalações. Pela primeira vez, a família dele concordou em fazer esse tipo de licenciamento da obra, para uso da Neriage.

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