'Mais uma opção de se reconhecer': conheça o movimento 'Midsize'
Qual é o seu tamanho? Se alguma vez você se sentiu excluída quando o assunto são corpos na moda, talvez a hashtag 'midsize' já tenha aparecido no seu feed. Até o momento, o termo soma mais de 5 bilhões de visualizações apenas no TikTok e levanta a discussão: onde estão os corpos reais que não entram na caixinha do 36 ou do plus size?
De origem norte-americana, o termo midsize tem se propagado cada vez mais no Brasil-- ainda mais por conta das redes sociais. Só no TikTok, a hashtag #midsize conta com mais 5,4 bilhões de visualizações e ajudou a criar uma comunidade: são mulheres que não se encaixam na categoria plus size ou no padrão ultra magro da sociedade. Mais uma vez, as mulheres são colocadas em categorias, desta vez, por conta de um número na etiqueta da roupa: gorda ou magra.
Quem popularizou o termo foi a atriz e comediante Amy Schumer. Em 2016, ela foi incluída em uma lista de "Mulheres Plus Size Inspiradoras", mas não concordou com a nomeação por não se sentir representada.
"Não vejo nada errado em ser plus size. São mulheres lindas e saudáveis. Mas a revista me colocou em sua lista sem me consultar e isso não me parece correto. Jovens meninas vendo o meu tipo físico achando que aquilo é plus size? O que vocês acham?", questionou a artista em postagem nas redes sociais.
Desde então, mais mulheres passaram a se identificar com o movimento. A influenciadora e pós-graduada em Moda, Adriana Alfaro, é uma delas: “Comecei a falar sobre isso no TikTok logo no começo da pandemia. Criei o ‘clã midsize’ e em pouco tempo viramos uma comunidade!”, diz. Em suas redes sociais, a jovem dá dicas de moda e também mostra inspirações de looks para seu público.
“Quando comecei a mostrar como lidava com o fato de ser midsize começaram a perceber que o conteúdo vai muito além da moda. Hoje falo muito mais sobre autoestima e aceitação. Acho importante que todo mundo consiga viver em paz, feliz e sem amarras com o corpo”, conta.
"Fui percebendo que meu corpo não é nem gordo, nem magro, na hora de experimentar e comprar roupas, em comunidades e pautas na internet. Não me encontrava no movimento body positive. Isso me gerava uma sensação de limbo. Comecei a questionar 'por que o corpo deve ser apenas dois extremos e não, também, um meio-termo?'" comenta a modelo midsize Andressa de Almeida.
A jornalista e influenciadora Daphne Ruivo também relata como se encontrou no termo: “É muito difícil encontrar referência de look, de moda, na internet. Você não acha uma mulher com o corpo parecido com o seu vestindo a roupa que você quer.”
“Quando eu vi esse movimento na internet foi como se acendesse uma luz na minha cabeça. Eu passava horas vendo vídeos de mulheres brasileiras e estrangeiras falando sobre looks e aceitação do corpo. Isso virou uma chavinha em mim. Depois de tantos anos com vergonha do meu corpo, tendo que esconder ele, tendo que aceitar que eu não era o padrão, que eu não cabia ali, eu me enxerguei. Foi como se tirassem uma venda dos meus olhos depois de muitos anos odiando o meu corpo.”
No mundo da moda, o termo midsize também se refere às numerações de roupa. No Brasil, quem é midsize quase sempre sofre para "dar match" com as roupas de tamanho M, que, teoricamente, corresponderia ao corpo. Acontece que não há um padrão, já que não existe uma categorização exata para as etiquetas das peças.
Também na moda plus size, voltada às mulheres gordas, não há uma definição do que realmente é um "tamanho maior", segundo o artigo Por que plus size?, de Cynthia de Holanda, docente do Curso de Design de Moda do Centro Universitário Ateneu. Ela cita que o tamanho o vestuário para mulheres acima do tamanho 40 já é considerado plus size, mas ainda há controvérsias: "É claro que há outros autores que relatam que tal tamanho só inicia a partir do 44 ou 46."
A modelo Nahuane Drumond, por exemplo, disse em entrevista de 2022 que recebe diversas mensagens de haters dizendo que ela “nem é tão gorda assim” para ser plus size, “Não sofro tanto quanto outras meninas maiores do que eu. Mas ainda sofro. O mercado plus começa no tamanho 42, muita gente não sabe. E existe uma diferença entre plus e curvy, mas no Brasil englobamos tudo numa coisa só. Existem os dois nichos e eu me encaixo nos dois”, explica ela que complementa: "Sempre pediam para eu emagrecer, mas eu não queria emagrecer. Tinha dificuldade em encontrar roupas, sim, mas eu estava feliz com meu corpo.”
“O midsize reforça que as marcas parem de fazer essa separação de seções”, observa Andressa. Ela questiona a necessidade de se fazer coleções diferentes: “Por que as marcas decidem que algumas tendências/peças de roupas pertencem ao tamanho 'convencional', mas para o plus size criam outra coleção? Por que há essa divisão, uma vez que quem deve escolher o que quer vestir é o consumidor?”
“Não precisamos separar ‘roupa de magro’ e ‘roupa de gordo’. Queremos coleções com diversidade de tamanhos e o midsize enfatiza isso, uma vez que ele fica ali no meio-termo. Muitas vezes as roupas de loja 'convencionais' ficam pequenas e as de lojas plus size ficam grandes.”
Andressa ainda fala sobre como estar entre a numeração “convencional” e plus size faz com que as peças fiquem pequenas ou grandes demais para o ser corpo, dificultando encontrar a numeração adequada em ambos setores.
Daphne relata que a maior dificuldade de encontrar uma peça de roupa sendo uma mulher midsize é a falta de padronização das medidas no Brasil: “Em uma loja, o número 48 tem uma medida. Se você vai em outra, o mesmo número tem uma outra medida e isso acaba deixando a nossa cabeça confusa.”
“Será que é realmente essa minha numeração? Será que eu preciso emagrecer? São muitos ‘serás’. A partir do momento que você entende que é a roupa que tem que caber em você, não o contrário, esse pensamento muda", continua.
Para Adriana, era frustrante não poder usar alguma tendência por não ter o seu tamanho. O fato de se sentir “julgada” também era uma frustração: “Já saí de casa me sentindo linda e assim que chegava nos lugares percebia olhares estranhos e até comentários como ‘essa blusa está muito justa’ ou ‘seria melhor usar uma saia midi ao invés de uma saia curta’. Ficava me sentindo mal durante o evento inteiro mesmo sabendo que estava bonita.”
“É muito triste mas, na nossa sociedade, quando não somos reconhecidas como magras automaticamente somos gordas. Para piorar, isso [ser gorda] é considerado errado, feio, desleixado. Ainda por cima esquecemos toda a questão psicológica e biológica, como até mesmo a estrutura óssea e todo o resto do biotipo físico, por exemplo”, lembra Andressa.
“Assim, uma vez que são consideradas gordas por não serem magras, muitas meninas começam uma busca pela magreza de forma irresponsável. Tudo está muito distorcido e os valores estão bastante invertidos. Acredito que tudo que traga acolhimento e carinho é válido.”
Modelo há mais de 20 anos, ela também ressalta que a intenção “não é comparar com a luta dos corpos gordos”. “Luta, inclusive, que coloca em pauta uma série de problemas que pessoas magras e mid não sofrem, como a falta de acessibilidade e diversos preconceitos sofridos pelas pessoas gordas”, conta.
“A ideia, ao falar mais do termo midsize, é que mulheres tenham mais uma opção de se reconhecer, se aceitar e ver que está tudo bem. O corpo midsize não sofre gordofobia e, sim, pressão estética”, finaliza.
Lembrando que pressão estética é quando a sociedade te pressiona a seguir um "ideal de beleza", enquanto que na gordofobia, há uma discriminação quanto ao corpo gordo, com pessoas gordas até não conseguindo acessar certos lugares por conta do corpo que tem.
No mercado internacional, Jill Kortleve, começou a ser rotulada como a "primeira modelo 'plus' da Chanel em 10 anos", mas veste tamanho 44: "É problemático, com certeza. Claramente não sou uma modelo ‘plus size’, e eu nunca tive de enfrentar as situações que minhas colegas ‘plus size’ enfrentam por não conseguirem encontrar roupas de seu tamanho nas lojas; isso não acontece com alguém do meu tamanho", declarou em uma entrevista à Folha de S.Paulo.
À Harper's Bazaar, a modelo também reflete sobre a pressão estética que sofreu: "Quando comecei como modelo eu fazia dieta 24 horas por dia, 7 dias por semana. [...] Meu estado mental não conseguia acompanhar os padrões da indústria da beleza que eu achava que deveria seguir para ter sucesso. Então decidi que queria me tornar uma modelo curvy e isso abriu toda uma nova parte da indústria que eu nem conhecia."
"Nunca fui uma modelo de sucesso quando estava tentando ser mais magra. Cinco anos atrás, morando em Amsterdã, eu não fazia ideia de que o que estou fazendo agora, nesse nível, era possível. Eu nunca soube que você poderia ser um modelo de sucesso e também se desviar dos padrões antigos", comemora.









