Victoria’s Secret: nova campanha é transformação na moda ou repetição de padrões?
A coleção "The Icon" e o retorno do desfile anual prometem diversidade, mas entregam apego ao passado
Por Isadora Pacello, redação Marie Claire — São Paulo
Victoria’s Secret lançou nesta quarta-feira (9) a nova coleção, The Icon, com uma campanha de pegada cinematográfica. Em 26 de setembro, a marca retornará com o desfile anual Victoria's Secret Fashion Show — realizado de 1995 a 2018 e interrompido há cinco anos por ocasião do "cancelamento" da grife, após declarações gordofóbicas e transfóbicas do alto escalão.
A volta do desfile, que será transmitido ao vivo na Amazon Prime Video, renderá um documentário. Em comunicado oficial publicado em maio, Raúl Martinez, vice-presidente executivo e diretor criativo da Victoria’s Secret & Co, afirmou que "esse filme é a expressão máxima da transformação da marca Victoria's Secret. Será impulsionado pela moda, glamour e entretenimento, com um aceno para a adorada iconografia do passado, mas de uma forma ousada e redefinida.”
O “aceno” ao qual se referiu Martinez fica claro no casting da campanha da coleção, que gerou grande repercussão nas redes sociais, pode se traduzir no fato de que metade das escolhidas são “angels” consagradas: Gisele Bündchen, Adriana Lima, Candice Swanepoel e Naomi Campbell. Todas magras, vale lembrar.
A outra metade é composta por Hailey Bieber, Paloma Elsesser, Emily Ratajkowski e Adut Akech. Naomi e Adut são as modelos negras convocadas para o anúncio; Paloma é uma modelo afro-americana midsize. Ou seja: mesmo com as mudanças para trazer corpos diversos para o lançamento, Victoria's Secret revisita o culto à magreza que marcou as gerações anteriores na moda.
Gisele
A modelo brasileira foi angel entre 1999 e 2006, e foi escolhida para usar o Fenty Bra -- modelo mais caro da marca e que atribui status à modelo que o usa -- duas vezes nesse período. Aos 43 anos, a gaúcha volta ao catálogo da marca não só de maneira icônica por ter uma história longa com ela, mas surgindo ainda com o mesmo perfil que a consagrou nas passarelas.
Transformação?
Diante da repercussão, a pergunta que fica é: até que ponto a “transformação” da etiqueta, como prometeu o chefão da Victoria's Secrets, é real?
Num teaser publicado na terça (8) no Instagram, a marca anunciou para os consumidores um novo momento no mercado: “We’re entering our gilded era” (“Estamos entrando em nossa era dourada”, em tradução livre). A frase pode ser interpretada por uma promessa de a empresa retomar uma época de sucesso, os "anos dourados". Será que o caminho escolhido foi apelar à nostalgia personificada nas angels clássicas?
Para a stylist Bella Castro, essa escolha pode entrar na conta da volta das tendências de moda, beleza e cultura dos anos 2000. Com a popularização de peças como jeans de cintura baixa e de hábitos como a normalização da magreza extrema, é possível que Victoria's Secret tenha "surfado" na oportunidade de retomar uma estética pouco diversa e que vem sendo questionada por movimentos body positivity e contra a pressão estética que recai, sobretudo, sobre mulheres.
“A pandemia intensificou a volta dessas tendências, porque elas ocupam um lugar 'feliz', de lembranças boas e de afetos, no nosso imaginário. Com isso, a marca se aproveita da nostalgia para tentar reconquistar seu lugar de reconhecimento. Por outro lado, trilha um caminho aberto genuinamente pela Savage Fenty, marca da Rihanna, que modificou as estruturas do mercado da moda e de fato trouxe inclusão”, reflete. Porém, mesmo contemplando parte das diferenças, a estratégia da Victoria's Secret fica apenas na promessa de modificar paradigmas.
A stylist afirma que ainda há apelo para o consumo de marcas e pessoas que representam "padrões de beleza". Portanto, mesmo não suprindo a demanda por diversidade, Victoria’s Secret ainda fará brilhar os olhos de quem se empolga com a marca.









