Feminismo e bruxas medievais: com dizeres contra patriarcado, Dior espelha moda e ativismo em desfile de Paris
Concorrido e repleto de celebridades na fila A, show de uma das marcas mais sofisticadas do mundo aliou ativismo e moda (cheia de classe e história) sob direcionamento da estilista Maria Grazia Chiuri
Por Maria Rita Alonso e Nathália Geraldo, redação Marie Claire — São Paulo e Paris
As pessoas amam acabar com a moda. Dizer que a moda é fútil, é excludente, é esnobe, é feita para demonstrar status e poder. Sim, sim, sim. A moda pode ser tudo isso, sim. Mas, nesta terça-feira (26), o desfile da Dior, uma das marcas mais sofisticadas e esperadas da Semana de Moda de Paris, mostrou que é possível também levar às passarelas um ativismo declarado em defesa dos direitos das mulheres.
Impactante, o show uniu a força da artista visual feminista Elena Bellantoni, pop e provocadora, com a estética das bruxas medievais. Foi uma retomada histórica feita pela estilista Maria Grazia Chiuri da época em que mulheres rebeldes foram queimadas na fogueira em praça pública na Europa.
"Maria está interessada em todos as rebeldes que afirmaram a sua independência face a um mundo masculino e desafiaram o seu sistema", reforçou a marca em seu material para a imprensa.
Com mais de 1.400 pessoas na plateia, e outras 400 pessoas trabalhando, o desfile foi armado em uma construção no meio do Jardim de Tuilerie, em Paris. Foi uma confusão enorme na entrada, conforme Marie Claire acompanhou presencialmente. Não faltaram celebridades -- e um público com o celular na mão filmando tudo que acontecia -- na entrada do evento. Entre os convidados, várias atrizes e atores excepcionais, com a sul-africana Charlize Theron, estrela da campanha do perfume J'Adore Dior há quase 20 anos, e a francesa Camille Cottin, da série 10% da Netflix.
Videoinstalação e a derrubada das estruturas patriarcais
No momento em que começou o desfile, foi simplesmente emocionante ver as modelos desfilarem em frente da obra NOT HER, de Elena Bellantoni. Era uma videoinstalação, que ocupava todas as paredes da cenografia, usando um dispositivo analógico. Ali vimos uma sucessão de figuras femininas (incluindo a própria artista) retrabalhadas com espírito pop, cores vibrantes, utilizando imagens de anúncios sexistas e frases feministas que derrubam estereótipos e abalam as estruturas patriarcais.
No telão, surgiam dizeres (em inglês) como "Ela não é um jogo", "Escute o tempo do seu corpo", "Não sou um pedaço de carne", "Inverta os espelhos" e "Não sou apenas uma mãe, esposa, filha. Sou mulher".
Sobre os looks, que poderiam ficar ofuscados frente à força das imagens de Bellantoni, felizmente, não houve esse problema. A coleção é, em termos de produto, boa demais. O que se viu foi prioridade à silhueta arquitetônica, na qual a jaqueta tem uma pegada masculina e contrasta com os tecidos finos como o tule, que surgiu em saias e transparências sensuais e interessantes.
A grife também elencou peças de malha que acompanhavam as curvas do corpo e um suéter metálico muito leve, o que chamou atenção pela delicadeza. As camisas de um ombro também são intrigantes e legais. Sem contar as botas desgastadas, os sapatinho de bico fino e as bolsas que são sempre sucessos de venda da Dior.
Elementos florais e da natureza também fizeram parte do universo icônico da coleção, por meio da transformação, por exemplo, da estampa Mille-fleurs, emblemática da marca, em uma versão "raio X floral contrastante". A lua e o sol, além de ervas medicinais e animais fantásticos, integraram a apresentação.
Encontro da moda com a arte feminista
Pode-se dizer que a Semana de Moda de Paris, que é o berço do feminismo mundial, começou muito bem. Levando um assunto fundamental para as mulheres às passarelas.
Nesse encontro entre a moda e a arte, aberto a muitas interpretações, a estilista Maria Grazia Chiuri mostrou uma coleção que joga com a relação entre feminilidade e feminismo. "Tenho convicção de que a moda tem tem, mais do que nunca, a responsabilidade de ajudar as mulheres a perceberem o seu valor e a expressarem as suas diferenças", declarou. Ela tem toda a razão.









