Como bumbum à mostra, igual a look de Jojo Todynho, virou tendência do Carnaval e por que ainda incomoda tanto?
A calça ou a bermuda "vazada" com a bunda em evidência é um hit entre os looks de Carnaval; mas, por que ainda é tabu deixar o bumbum em destaque?
Por Nathália Geraldo, redação Marie Claire — São Paulo (SP)
Há alguns Carnavais, parte das mulheres que curtiu os dias de folia reduziu o tamanho das peças que cobriam os mamilos para ir às ruas, e os tapa-peitos ganharam as ruas em um movimento de liberdade corporal. Desta vez, é a bunda. Ou melhor, a região das nádegas que surge em evidência em shorts, calças e hot pants confeccionados justamente para isso, como fez a multiartista e estudante de Direito Jojo Todynho durante os ensaios da escola de samba Mocidade de Padre Miguel, no início de janeiro. Para o figurino, que você vê no vídeo abaixo, ela escolheu uma calça cheia de brilhos com um recorte vazado deixando o bumbum à mostra, coberto por um biquíni verde e pequeno:
Pronto. Bastou essa publicação, em que Jojo dança ao lado dos outros componentes da agremiação carnavalesca, para que seu corpo e a escolha do look fossem criticados. "Jojo, muda o look, não te valorizou", disse uma seguidora. "Não precisa ficar nua para sensualizar", completou outra. "Essa roupa poderia estar fechada atrás, ficaria melhor".
Mesmo sendo um momento em que o brasileiro tem a "licença poética" para brincar, se divertir e explorar novas realidades para além da vida cotidiana, o Carnaval não é tão democrático ou seguro, aparentemente, para as mulheres deixarem a bunda aparecendo -- pelo menos, não a de todas e nem em todos os lugares.
Acontece que, quase como um paradoxo, as roupas com esse recorte viraram a tendência desse ano; em 2023, elas já tinham dado as caras nas escolhas de looks das famosas, como Aline Riscado, Iza e Anitta, em cima do palco, em camarotes e nas avenidas do samba.
Agora, são um dos hits das lojas populares e especializadas para os figurinos de folia. Então, por que a bunda da brasileira ainda incomoda tanto?
Bumbum à mostra, o hit do Carnaval
Como mais uma opção de look carnavalesco, a bermuda ou a calça com recorte no bumbum está entre as peças que têm tudo para marcar a folia deste ano. A proprietária da marca Amara Praia, do Rio de Janeiro, Mariana Queiroz contou a Marie Claire que, de olho no aumento de demanda do público, colocou a bermuda vazada pela primeira vez no catálogo carnavalesco. A peça, que vai do tamanho 34 ao 52, custa R$ 119.
"Ela veio de uma influência da Anitta, inclusive, porque ela usa muito esse tipo de figurino. Vendi sempre as hot pants, que já deixa a região de fora, e por isso resolvi começar a fazer a bermuda para completar", explica. "Essa dupla valoriza a bunda".
E dá para usar nas ruas?
Certa vez, em entrevista a Marie Claire em 2013, Rita Lee comentou que "mostrar a bunda é normal", um comentário suscitado em decorrência de ela, à época, ter abaixado a calça durante o próprio show. Mas, apesar dessas palavras de liberdade feminina da cantora, na vida real, nem sempre é assim - -deveria ser normal, mas o medo do assédio e as questões com o próprio corpo podem ser barreiras para algumas mulheres. E mesmo quem "ousa" usar o que quer, como Jojo, recebe críticas pelo figurino.
Para a antropóloga e fundadora do Puxadinho, laboratório de experimentação antropológica e inovação social, Carol Delgado, aliás, o fato de a bunda continuar sendo um tabu diz muito sobre como a sociedade brasileira vê os corpos de quem é mulher. "O Carnaval é sempre um micro laboratório da sociedade, e quando se fala de mulheres, corpos e esse conceito de liberdade, há muita coisa para entender", explica.
"A gente vê que há um contexto socioeconômico, inclusive com fortalecimento de movimentos de mulheres negras, indígenas, com a popularização das redes sociais, que em dado momento gera uma discussão sobre a ressignificação do corpo. Mas, deixar o bumbum de fora ainda é um movimento de bolha, porque é um confronto muito forte para se fazer com a materialidade".
Para ela, o corpo tem papel central nestes processos e a moda --- neste caso, a nova modelagem como tendência -- são fundamentais para entender essa contradição de o Brasil ser "o país do Carnaval", mas, ao mesmo tempo, julgar as mulheres que se sentem livres para colocar a roupa que quiserem.
"A liberdade das mulheres na folia sempre foi estimulada pelo homem, com um olhar de objetificação. Mas quando a moda, isso que é dito como algo feminino, traz essa liberdade, talvez seja uma brecha que estamos construindo. Acho que é levar outras visualidades para esse lugar de 'Brasil bunda'. O bumbum de fora, no fim das contas, pode ser uma forma de vazão para esse corpo".
Delgado avalia que, mesmo que poucas mulheres ou dentro de uma "bolha" consigam se sentir à vontade para usar a peça -- o que levanta o debate de "quem pode" e "onde pode" usar -- talvez um efeito desse movimento seja começar a se falar sobre isso. "É o início de um letramento; alguém comenta na foto da Jojo que 'ela não precisa usar aquela calça', aí vem outro e explica que 'não é sobre precisar'. Tudo isso pode ser importante para o letramento sobre gênero, raça, classe".









