Moda

Por Aldrey Olegario, redação Marie Claire — São Paulo (SP)


Crochê é hobby, fonte de renda e está relacionado ao consumo consciente para as jovens da Geração Z — Foto: Reprodução/Instagram @favoritocroche
Crochê é hobby, fonte de renda e está relacionado ao consumo consciente para as jovens da Geração Z — Foto: Reprodução/Instagram @favoritocroche

Faltava o vestido. Era a peça principal para completar a festa de 15 anos que Maria Juvêncio, agora com 19, ganhou em um concurso de sua cidade, Ibiá, em Minas Gerais. Ela só percebeu que não tinha uma roupa para o momento especial quando recebeu o convite para a sessão de fotos da celebração. Tendo ideia que ainda não trabalhava e que sua mãe não teria condições de pagar pelos tradicionais vestidos mais elaborados, Maria se entristeceu por um tempo. Mas foi ao ver em seu feed um vestido branco de crochê feito pela crocheteira e empreendedora Mariana Castro — ou Marie Castro para quem já está imerso no mundo do crochê — que Maria reacendeu as esperanças ao lembrar um talento que tinha cultivado desde a infância.

Estava decidido. Ela iria fazer o próprio vestido. Afinal, que forma melhor de marcar os 15 anos do que uma roupa de produção própria? “Vi esse vestido da Marie e falei: ‘Gente, eu sei fazer crochê’. Vou tentar fazer ele. Esse vestido é feito com uma linha extremamente fina, você pode comparar ao fio dental. Fiquei de 3 a 4 meses trabalhando nesse vestido antes da festa”, conta.

Foi a partir desse vestido que Maria Juvêncio retomou a atividade de crochetar. Com os resultados que compartilhava nas redes, recebeu encomendas e se tornou Tetê Crocheteira, com mais de 200 mil seguidores em seu perfil no Instagram, além dos mais de 350 mil no TikTok.

Tetê, como é chamada nas redes sociais, faz parte de uma parte da geração Z interessada em um hábito que requer paciência e conexão com a feitura. Costumeiramente, é ligado a pessoas mais velhas. Mas ela faz isso por hobby mesmo (hoje, as encomendas são apenas em casos pontuais) “Gosto de fazer peças para mim, para ir em eventos específicos. Estou sempre fazendo alguma roupa que combine com o evento. Eu gosto muito [de fazer crochê], porque para mim é até uma terapia”.

‘Sentar, ver uma série, fazer meu crochê’

Algumas das jovens crocheteiras, como Maria, falam em “crocheterapia”. Para elas, é entre as agulhas que encontram uma forma de lidarem melhor com elas mesmas e com sentimentos de ansiedade e tristeza.

"É uma forma de ficar bem comigo mesmo, de desestressar do dia. Sentar, relaxar, colocar uma série e fazer meu crochê. Hoje em dia eu não consigo viver mais sem fazer crochê", diz Tetê.

Relaxar com o crochê pode ser terapêutico mesmo. É o que explica a doutora em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da USP Erika Rodrigues Colombo. “Não só o crochê, como qualquer outra atividade artística irá atuar em áreas do nosso cérebro que promovem o bem-estar. Vão produzir endorfinas, alguns neurotransmissores que são responsáveis pela nossa saúde mental. Corpo, mente e emoção são coisas que estão conectadas. E a questão de ter um hobby é importante justamente para promover esses espaços em que a gente possa desestressar e fazer algo que seja prazeroso.”

E bem, tudo está ligado à moda. Por esse caminho, elas também consumem moda de forma mais consciente, geram renda e constroem novas redes de relacionamentos com outras meninas. Valores muito importantes para o grupo dessa faixa etária.

A psicóloga ainda destaca que produzir as peças de crochê, uma atividade manual que demanda atenção, resulta em um estado de fluxo do corpo que envolve a pessoa por inteiro; por isso também acaba sendo tão prazeroso. “Quando a pessoa já tem a habilidade e se sente confortável para fazer aquilo, ela consegue entrar em um estado meditativo mesmo, de realmente se concentrar naquela atividade”, comenta. "Tem pessoas que conseguem fazer isso com o trabalho, por exemplo. Elas entram nesse estado que alguns pesquisadores chamam de estado de flow, e se deixam levar naquela atividade ao ponto de relatarem essa sensação de se desligar do mundo e não perceber o tempo passar.”

Para ela, o aspecto artístico da prática também traz benefícios. “A arte, seja ela praticada ou consumida em qualquer formato, traz muitos benefícios tanto físicos quanto emocionais e mentais. Desde regular a pressão arterial e, no caso do crochê, pode ser preventivo em casos de demência ou ajudar a melhorar quadros em que se tem alguma perda cognitiva, como o autismo. São infinitos benefícios. Acho que deveria fazer parte de um plano básico de cuidado à saúde ter uma atividade artística inserida na vida”.

Coisa de ‘senhorinha’?

Aquela imagem que se criou de que o crochê é uma atividade que atrai apenas o gosto de pessoas mais velhas está ficando para trás e ele vem abraçando novos públicos.

Talvez uma das poucas diferenças esteja no fato de que as jovens estão juntas para crochetar, mas separadas. Quer dizer, unidas em grupos virtuais, em que dividem dicas e dificuldades sobre o mesmo interesse. Cada uma na sua casa. É assim que Kauane Lopes, 23 anos, crocheteira de Guarulhos, na Grande São Paulo, e que faz sucesso no TikTok, se reuniu com uma galera que toma para si o título de “jovens senhoras”. São 600 integrantes do grupo ‘Café da tarde das jovens senhoras’, reunidas pelo WhatsApp.

“Criei o grupo com algo que remetesse a café da tarde, que é uma coisa de senhorinhas. Mas o nosso é das jovens senhoras. E elas amaram”, lembra. “Foi nele que percebi que as dificuldades que eu tinha e achava que eram só minhas na verdade não eram. Todo mundo que estava começando teve os mesmos desafios Vejo que essa comunidade que criamos é muito empática. Todo mundo se ajuda.” O amigurumi — outra aplicação da técnica que teve origem no Japão durante a década 1980 e é mais voltada para criar itens, personagens e animais com características mais fofas — também é um dos temas dos grupos.

Kauane desenvolveu seu interesse com a avó, Maria, desde muito cedo. “Tive contato com crochê pela primeira vez com ela. Mas como eu era muito pequena, não me liguei muito. Meu gosto era mais ver as produções de moda, mas não passava pela minha cabeça que eu iria produzir algo. Eu só admirava”, diz a crocheteira, que ainda toca uma marca, “The Faucon”, de encomendas de peças feitas por ela.

Seu encanto pela moda a motivou, em 2021, a se dedicar de vez, também com apoio da avó, a aprender crochê e criar a própria marca Para seus mais de 25 mil seguidores no TikTok, Kauane compartilha dicas sobre modelos de agulhas, como unir linhas diferentes no processo e, é claro, como produzir saias, biquínis e outras peças. Isso porque muitas das novas praticantes contam que iniciam de modo autodidata, reproduzindo criações de influenciadoras da área e acompanhando tutoriais principalmente do YouTube.

“Minha avó é costureira, tricoteira, ela faz tudo [risos]. Sempre admirei e fui rodeada de mulheres que estavam relacionadas à moda, seja vestindo ou fazendo. Então sempre foi uma influência no meu meio”, conta.

"Comecei a tentar formas para eu conseguir ser um pouco mais feliz, porque estava meio insatisfeita e desanimada. Não estava mais me reconhecendo como eu mesma e o crochê começou a me trazer isso", diz Kauane.

Sou jovem crocheteira, é claro que consumo moda consciente

Para além do apelo de uma atividade que ajuda na concentração, o crochê atraiu a geração Z pelo fato de ser, essencialmente, um endosso ao slow fashion. Crocheteiras e consumidores estão por dentro de como cada peça é feita, muitas vezes por demanda, e por quanto tempo ela estará no armário de quem compra.

“Estamos em um mundo da moda em que não se pode mais não pensar na parte ambiental. Isso sempre me preocupou”, diz Kauane. “O crochê é feito à mão, de algodão ou material têxtil reciclado. A malha da bolsa que você usa pode ser de resíduo têxtil da indústria, que você nem imagina de onde veio. O barbante que você vê no tapete que a sua avó está fazendo é reciclado. Reciclado da indústria que hoje vira linha para a gente fazer o crochê.”

Para ela, há ainda mais um fator: o de que nem sempre uma peça slow fashion precisa ser cara. “Vejo que a gente está estourando uma bolha de o crochê não ser só para as pessoas que são mais ricas e tudo mais.”

Feito à mão, o crochê está na moda

Crochetar uma peça estilosa leva tempo e exige muita dedicação, cada ponto para criar um vestido, por exemplo, importa. E se forem usadas cores diferentes então, a conversa fica ainda mais longa. “Quem não faz não imagina o trabalho que dá fazer crochê. Por exemplo, um top feito à mão, aqueles tops faixa bem básicos, uma crocheteira rápida não faz em menos de seis horas”, explica Kauane. Ou seja, é preciso estar bem envolvida com a linha para não passar a ser algo cansativo.

É claro que a técnica, tão primorosa e artesanal, também está entre as tendências de moda. São bolsas, toucas, conjuntos e vestidos — para diferentes estações, inclusive – que fazem parte do catálogo de marcas nacionais e internacionais. Famosas também apostam na onda do crochê. A atriz Bruna Marquezine já escolheu a técnica para compor os looks em ensaios de moda; a modelo Yasmin Brunet é a rainha da tendência ‘mermaidcore’, que bombou e remete às sereias e ao estilo praiano, e, sim, é uma amostra de que há sempre um olhar moderno em jogo para as produções de crochê.

E como não lembrar das produções de Kevin Germanier, estilista suíço, junto ao designer brasileiro Gustavo Silvestre que levaram o crochê ao melhor estilo brasileiro — com paetês, transparências e sobreposições — para as passarelas da Paris Fashion Week 2024?

A renda extra no puerpério

Vale ainda dizer que as “jovens crocheteiras” têm buscado transformar a produção em renda extra – e por vezes, isso é de ajuda em momentos como o puerpério vivido por Marcela Risse, de 22 anos, que é de Maricá, no Rio de Janeiro, e criou a Risse Crochet quando ficou desempregada após o nascimento do filho Caíque, hoje com 2 anos.“Passei por muitas dores e problemas que mães entendem. Ficava meio entediada., via as minhas amigas fazendo um monte de coisas e eu pensava: ’Caraca, o que é que eu posso fazer, sabe?”, relembra.

Marcela começou com tricô e depois foi para o crochê, onde se encontrou. “Eu amamentava e ficava cansada. Falei, cara, vou começar um novo hobbie aqui e ver o que dá. E aí foi indo. Fui fazendo e me apaixonando.” A marca da artista esbanja um visual divertido, colorido e com modelos para ocasiões das mais elaboradas às cotidianas.

Toda sua produção também vai para as redes sociais – isso inclui takes crochetando na praia ou tomando um sol ao lado da piscina. Sobre a criação da marca, Marcela diz que a principal motivação foi o filho. “Fui criando mais gosto pelo crochê. Pensei ‘e se daqui sair um trabalho?’”

"Sem contar que tem uma história por trás daquela roupa. Acho que a galera está muito ligada nisso, no handmade e no faça você mesmo", diz Marcela.

Para ter ainda mais sucesso com a marca, Marcela se especializou há dois anos. “Abri um site, pensei no logo da marca. Estudei sobre, fiz alguns cursos no Sebrae e comecei a trabalhar de fato com o crochê”. Uma das peças de mais sucesso, e que Marcela lembra com carinho, é uma calça super trabalhada feita em três semanas. “Ela tem 147 quadradinhos, que chamamos de quadradinho da vovó. A gente traz uma coisa antiga e faz uma coisa moderna. Peguei os quadradinhos e fiz uma calça jovem que todo mundo pirou e achou incrível.”

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