A contribuição fundamental do mundo dos esportes para que as calças entrassem no guarda-roupa feminino
As calças nem sempre foram parte do vestuário feminino. Para vesti-las como fazemos hoje, foi necessário mais de um século de luta pela liberdade do corpo da mulher, e nessa história, a moda esportiva teve papel crucial
Se você se identifica como mulher e usa calças, você deve essa conquista ao mundo esportivo, veste um item histórico todos os dias, possivelmente sem saber. Hoje, é até difícil pensar em montar um guarda-roupa sem incluir calças entre os itens de vestuário. Mas nem sempre foi assim. E a gênese desta história, conectada à liberação dos corpos femininos, tem a ver com as modalidades esportivas – tão em alta agora, às vésperas das Olimpíadas de Paris. É que as mulheres que ocuparam quadras e arenas no início do 20 foram as pioneiras em colocar as calças, principalmente pela questão de facilidade no movimento, em seu cotidiano. Algo, acredite, que já foi até proibido por lei.
Proibidas para mulheres
Até meados do século 20, as calças eram itens proibidos para mulheres no Ocidente. Assim como modelavam o corpo dos homens e eram consideradas sensuais para eles, para elas a peça era vista como vulgar e inapropriada. Além disso, as longas e volumosas saias e espartilhos eram itens obrigatórios no vestuário feminino e simbolizavam certa forma de controle sobre o corpo da mulher.
Em Paris, que recebe diferentes delegações e pessoas do mundo inteiro nestes dias de Jogos Olímpicos, ironicamente, a peça era uma coisa proibida para elas. Promulgada há 225 anos, uma lei determinava que elas não usassem calças em público. Curioso: somente em 2013 o decreto, já sem efeito prático, sumiu da vida das parisienses. Isso porque um senador e a ministra dos Direitos da Mulher da França à época consideraram o fim da proibição uma questão simbólica importante.
Andar de bicicleta, uma “pequena” revolução
Nas fazendas e áreas rurais, é claro, as mulheres já usavam calças. A necessidade de andar à cavalo e ter mais conforto para exercer atividades que exigiam esforço físico tornou a peça acessível para elas. Mas, o choque mesmo aconteceu quando as mulheres passaram a escolher modelos para sair às ruas, em momentos de lazer e atividades físicas.
Na década de 1890, uma revolucionária, que talvez você não conheça o nome, foi defensora do uso delas no dia a dia: a norte-americana Amelia Bloomer. Ela ficou tão famosa pela luta que há, na história, um modelo apelidado como “calça Bloomer”. Usado anteriormente com uma saia por cima, a peça afofada era ajustada no tornozelo e escondia a silhueta feminina. Um adendo: ela já havia sido inventada pelas sufragistas. Para o público geral, era uma afronta tão grande diante das regras de moda para mulheres, que a ideia foi massacrada e teve poucas adeptas.
Quem resgatou essa versão de calça foram as mulheres que pedalavam pelas ruas das grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos. Um traje esportivo que ajudou a normalizar – ainda que lentamente – o uso das calças por mulheres.
Das aviadoras às operárias
O início do século 20 viu uma mudança de valores e comportamentos inédita nas sociedades, especialmente europeias e dos Estados Unidos. Na época, mulheres começaram a ocupar espaços que antes eram exclusivos aos homens. Um dos maiores exemplos é a aviação, marcada por grandes aviadoras que apareceram entre as primeiras décadas. Com elas, as calças tomaram conta de vez. A aviação é, sim, considerada uma modalidade esportiva, mas nunca esteve nas Olimpíadas.
Em 1912, a norte-americana Harriet Quimby foi a primeira mulher a atravessar o Canal da Mancha pilotando um avião, da Inglaterra até a França. Na mesma década, nomes como o da Baronesa de Laroche, francesa, e Hilda Hewlett, britânica, também foram pioneiras da aviação. Talvez o exemplo mais famoso: a norte-americana Amelia Earhart, primeira mulher a sobrevoar o Oceano Atlântico e que, em 1937, desapareceu ao tentar dar a volta ao mundo de avião.
O que todas elas têm em comum? Pilotaram seus aviões vestindo não apenas calças, mas trajes tipicamente masculinos.
Mais esportes
Numa pesquisa histórica, ainda é possível encontrar imagens de outras atletas da época vestindo trajes esportivos compostos por calças para praticar modalidades diversas, como é o caso do ski e do golfe. Vale dizer que, para além de andar a cavalo e de bicicleta no dia a dia, as mulheres passaram a praticar o ciclismo e o hipismo como esporte. E conforme a presença feminina nas Olimpíadas ia se tornando gradualmente menos restrita, a partir de 1900, elas também entraram no atletismo, esgrima e ginástica, por exemplo – em que a vestimenta era composta por calças – e, portanto, aderiram à peça.
Ao lado dos esportes, é claro que outros eventos históricos contribuíram para a evolução do vestuário das mulheres. É o caso da Primeira Guerra Mundial, em 1914, que recrutou as mulheres para trabalharem em fábricas enquanto os homens serviam como soldados. Assumir a posição deles como operárias também pedia o uso das calças no uniforme, o que ajudou a popularizar a peça.
Coco Chanel
Nos anos 20, ninguém mais, ninguém menos que Coco Chanel não apenas popularizou de vez as calças, mas as elevou ao status de tendência de moda. Inspirada nos modelos vestidos por homens, como as de alfaiataria, ela confeccionou calças largas e leves, e que não marcavam tanto a cintura, semelhantes ao que, hoje, chamamos de pantalonas, além de utilizar o jérsei – tecido considerado barato na época e utilizado em roupas íntimas masculinas.
Tamanha admiração pelos moldes feitos para eles, que ela até pegava as peças emprestadas dos homens com quem se relacionava, porque as achava mais confortáveis para atividades como cavalgar.
Chanel não é conhecida por ser feminista, mas sempre percebeu o incômodo e a falta de praticidade que usar saias impunha no cotidiano das mulheres. As calças criadas por Chanel fizeram sucesso entre as mulheres ricas e viraram um dos elementos mais populares das coleções da grife que leva seu nome.
No dia a dia, o jeans vira “queridinho”
Nas décadas seguintes, as estrelas de cinema tiveram seu papel na popularização das calças como conhecemos hoje. Katherine Hepburn, Marlene Dietrich e Greta Garbo são alguns dos ícones que tinham as calças como peças queridinhas.
Com a ascensão dos jeans femininos nos Estados Unidos da década de 60, foi a vez das calças jeans virarem moda. Nos anos 80 não tinha mais volta: a peça era praticamente obrigatória entre as mulheres, das conservadoras às modernas, das tradicionais às fashionistas. Como é até hoje, após anos de lutas e conquistas.









