Luvas pretas e bolsas utilitárias: acessórios desejo marcam desfile de Angela Brito no SPFW
A estilista Angela Brito abriu o sexto dia de São Paulo Fashion Week com uma ode à mulher crioula e, reverenciando sua própria origem cabo-verdiana sem deixar de conversar com a contemporaneidade -- daí, os itens práticos que amamos ver completando o stylist dos looks, também assinado pela diretora criativa
Na coleção Criola, apresentada pela estilista Angela Brito em sua marca homônima neste sábado (19), no SPFW, pelo menos dois acessórios provocaram certa vontade no público que assistiu ao desfile na passarela armada no Shopping Iguatemi: as luvas pretas de couro, curtinhas e em tamanho três quartos, e os bolsões acoplados a muitos dos 30 looks pertencentes à proposta.
A bolsa anexada à roupa é uma das interpretações de Angela ao mote da coleção que navega por suas origens, no país africano de Cabo Verde, e chega a sua identidade forjada também pela vivência no Brasil. "Minha marca sempre faz dialogo entre tradição, do meu lugar de origem, e vanguarda, numa linguagem de moda contemporânea", pontou a estilista a Marie Claire no backstage da apresentação.
"Essa mulher crioula tem um viés de usar o que é utilitário, mas ao mesmo tempo tem signos fortes da tradição. As bolsas acopladas à roupa, nas saias e nos vestidos, já deixam ela pronta para uma festa". Desse mesmo lugar, partem as luvas, que surgem quase como parte de uma vestimenta instrumentalizada para que a mulher possa viver o dia a dia com as mãos protegidas, de forma muito elegante.
As modelos ainda desfilaram usando óculos de sol Ray Ban e, algumas, com clutches seguradas de forma despretensiosa.
Essa sobreposição de coisas -- que, em última instância, torna o que foi acoplado como parte integrante do corpo principal -- é ainda um diálogo com a composição cultural que uma sociedade acaba tendo, por conta de movimentos de resistência e de assimilação frente à colonização, enquanto se constrói.
Brincar com isso nas volumetrias resultou em uma coleção narrativa bastante forte. "Essas volumetrias são uma prova desse mix de várias culturas que dá origem a esse povo crioulo caribenho. Os volumes dão início a uma nova identidade que vem de várias camadas", analisa, concordando com o fato de que, por ter essa vida entre Cabo Verde e Brasil, também tem um perfil "em camadas". "Sim, sou eu. Isso é invisível, mas sou eu".
A construção da coleção
Para Marie Claire, Angela explicou que, como sempre, começou a pensar na coleção nas férias em Cabo Verde e terminou em solo brasileiro. Daí vem a quebra no preto e branco, tão característico de sua marca, para "pops" de cores como o verde e o amarelo, entre uma paleta bastante coerente de tons terrosos.
A paleta de cores dos vestidos, túnicas, conjuntinhos de saia e tops obedeceu quase uma cartografia dos dois países. "No final do ano, em Cabo Verde, é sempre muito seco. Então vieram os tons terrosos, desse deserto. Aí veio o azul que, por ser uma olha, sempre está lá. E o verde vem pipocando. Já aqui no Brasil, o mar segue presente, mas com mais verde. Além disso tudo, alguns pontos de amarelo solar. Achei que daria um balanço interessante."









