Quem vai influenciar a moda em um futuro cada vez mais tecnológico?
Criativas, pioneiras no uso de novas tecnologias, fundadoras de startups que conectam talentos globais e engajadas com questões culturais e sociais — seriam essas as personalidades que moldarão a moda do futuro? Se for o caso, talvez seja o fim do conceito genérico de influenciador de moda a que estamos acostumados
Por Stefania Zizzi, da Marie Claire Italia, com tradução de Nathália Geraldo, de Marie Claire Brasil
A moda e as tendências que nos influenciaram nos últimos quinze anos nasceram e cresceram principalmente por meio das plataformas online, especialmente nas redes sociais. Conectar-nos diariamente com personalidades capazes de influenciar nosso estilo, nosso gosto e nossas compras é algo que, antes dos anos 2010, sequer poderíamos imaginar. Por que, então, não conseguimos imaginar nos inspirar em novas figuras que nos apresentam uma moda que ainda não existe no mundo físico?
Pensemos em um vestido de alta-costura criado pelo nosso estilista preferido. Sabemos que o vestido é real, mas isso não significa que possamos comprá-lo ou simplesmente usá-lo. E se o mesmo vestido tivesse sua versão digital? Provavelmente, experimentaríamos a peça em realidade aumentada por meio de um virtual try-on [um provador digital], compartilhando a imagem nas redes sociais para nos aproximar ainda mais do sonho de possuir aquele vestido na vida real. Mas o digital não torna a moda mais “democrática”, mas sim sua usabilidade.
Vestindo avatares, vivendo a cultura digital
O fenômeno da moda digital, impulsionado pela presença de marcas de luxo em plataformas de jogos como Roblox ou The Sandbox, ampliou as oportunidades de personalizar livremente o estilo dos nossos avatares, interagindo no espaço digital. Conectar as marcas da moda tradicional com os novos consumidores nativos digitais é uma das vantagens da moda digital, que, por sua vez, não se limita apenas aos videogames. Por que deveríamos nos inspirar em peças que não são reais? Ou, pelo menos, que ainda não o são?
A moda digital não é uma ameaça ao futuro da moda tradicional, mas pode se tornar sua nova razão de ser. Há fatos que não podemos ignorar. O primeiro é que a indústria da moda está entre as mais poluentes do mundo. O segundo é que a cultura digital já é parte integrante das nossas vidas. O terceiro é que o setor da moda apresenta dinâmicas e barreiras que dificultam a expressão e a visibilidade de um designer. É em torno dessas questões — que envolvem o compromisso com a sustentabilidade, a inclusão, a valorização do talento criativo e uma nova geração de consumidores — que se concentram as atividades e mensagens de inovadores que estão redefinindo os códigos do setor por meio da cultura digital. Você sabia que mais de 60% da população mundial passa diariamente seu tempo no espaço digital? A essa porcentagem, soma-se a abordagem de uma nova geração que considera sua aparência online mais importante do que na vida real. Esses são os dados destacados por Daniella Loftus, que enxerga o espaço digital como uma tela para expressar livremente a personalidade.
Criadora do blog This outfit does not exist [em português, "Este look não existe"], pelo qual promove a moda digital desde 2020, Loftus fundou a DRAUP, uma plataforma que traz a cultura digital para a moda tradicional. “Inspirados pela internet, criamos roupas que se movem na velocidade da cultura online” é a missão da DRAUP.
Entre as colaborações de Daniella Loftus está a parceria com o Tribute Brand, empresa lançada em 2020 como um coletivo que conquistou uma audiência global com seus looks de moda digital “sem contato”. O projeto ODDS, revolucionário no segmento de malhas, surgiu em colaboração com a marca Waste Yarn Project e o projeto de arte generativa Chromie Squiggle, unindo os mundos físico e digital. O algoritmo do Chromie Squiggle é processado pelo Tribute Brand Generator para criar peças únicas, reais e digitais. Os suéteres vêm com uma etiqueta NFC que permite conexão com o aplicativo Tribute. Isso possibilita vincular produtos reais aos virtuais, acessar opções de personalização e eventos. Os suéteres são produzidos em parceria com a Waste Yarn Project, que utiliza sobras de fios em sua fabricação, garantindo que cada peça seja feita sem desperdício de materiais.
Segundo Megan Kaspar, investidora em tecnologias emergentes focadas em blockchain e descentralização, “a desmaterialização e digitalização da moda é uma mega tendência latente com o maior potencial para revolucionar a economia global e causar um impacto positivo no meio ambiente”. Megan também atua como consultora da Louis Vuitton, escolhida como parte do projeto Via — um grupo seleto de influenciadores da Moda Web3, encarregados de guiar a icônica marca no lançamento de NFTs.
Como a moda vai se adaptar?
Como liderar a transição digital no sistema de moda tradicional? Essa é uma pergunta que o Digital Fashion Designer’s Council (DFDC) busca responder, com o objetivo de oferecer recursos e oportunidades para que marcas e designers integrem suas coleções físicas ao ecossistema digital, conectando-as a diversas plataformas. O fundador David Cash, junto com o artista visual Antoni Tudisco e o fotógrafo Nick Knight, anunciaram recentemente o lançamento da Fashion Week Connect do DFDC. Trata-se de um evento multicanal que conecta o ecossistema digital das marcas de moda a produtos e experiências no mundo real. Esse formato redefine o conceito de moda na era digital, atendendo ao desejo das marcas de expandir suas coleções físicas e narrativas no espaço digital.
Marjorie Hernandez, também integrante do conselho do DFDC, é uma arquiteta venezuelana especializada no estudo das mudanças e desafios enfrentados por marcas e criativos em um mundo onde cultura e design encontram tecnologias avançadas. The Dematerialised é o marketplace de moda digital que ela cofundou com Karinna Nobbs, com o objetivo de estabelecer um novo padrão de interação entre moda e tecnologia. Marjorie também é cofundadora da LUKSO, uma blockchain baseada em Ethereum [uma criptomoeda] desenvolvida para a Nova Economia Criativa. Citada pela Vogue Business como uma das 100 inovadoras em tecnologia e Web3, Marjorie promove a “desmaterialização” como um processo natural na evolução humana. Segundo ela, a realidade vai além da fisicalidade das coisas, e novas gerações já nascem em uma realidade multidimensional onde tecnologia e experiências digitais estão remodelando a experiência humana.
Pioneiras da moda digital
Entre as pioneiras da moda digital, destacam-se Daria Shapovalova, Natalia Modenova e Julie Krasnienko, fundadoras do DressX em 2020. Esse marketplace de moda digital permite explorar e adquirir roupas e acessórios digitais de mais de 400 designers. Hoje, o DressX é uma plataforma de fashion tech que utiliza IA, AR e VR para transformar a interação entre indivíduos e marcas. Liderada por mulheres, a startup também apoia causas sociais, como a criação de uma coleção digital inspirada na bandeira ucraniana, cujos lucros foram revertidos para organizações locais de caridade. Em 2023, o DressX arrecadou 15 milhões de dólares em novos investimentos para expandir as oportunidades no futuro da moda digital.
Criativas, pioneiras no uso de novas tecnologias, fundadoras de startups que conectam talentos globais e engajadas com questões culturais e sociais — seriam essas as personalidades que moldarão a moda do futuro? Se for o caso, talvez seja o fim do conceito genérico de fashion influencer. Afinal, isso também seria uma revolução.









