Moda
Por
Natália Guadagnucci
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)

Por muito tempo, o amor entre mulheres teve que existir nas sombras. Ao longo das décadas, a moda se mostrou uma linguagem silenciosa, mas potente, que tornou essas relações possíveis de serem vistas, ainda que de maneira discreta.

Quando a palavra era impossível — por medo, repressão ou invisibilidade —, o visual falava por essas mulheres. Códigos que não estavam nos livros nem nas vitrines, mas que permitiam o reconhecimento mútuo entre quem vivia à margem das representações. Entre a camuflagem e a provocação do status quo, a vestimenta passou a exercer um papel fundamental em meio às pequenas e grandes revoluções da comunidade.

Flappers, garçonnes e os primeiros sinais

Com a efervescência das grandes cidades nos anos 1920, surgiramos primeiros traços de uma moda que desafiava normas de gênero. Nos Estados Unidos, as flappers (também conhecidas como melindrosas) representavam uma juventude feminina ousada: elas abandonavam os espartilhos, cortavam os cabelos, usavam vestidos mais soltos e, em muitos casos, viviam uma vida noturna pulsante — o que podia incluir relações com outras mulheres.

Ao mesmo tempo, na França, o termo garçonne designava mulheres que adotavam uma estética inspirada na moda masculina — terno, gravata e cabelo curto — como forma de subversão. Muitas frequentavam bares exclusivos para mulheres em Paris e Berlim, como o Le Monocle, na capital francesa. O nome não era à toa: o monóculo foi transformado em um símbolo sutil de lesbianidade. Inicialmente usado por aristocratas, o item foi apropriado por s lésbicas no fim dos anos 1920 como um marcador de identidade.

“Alguns códigos de moda lésbica no passado não eram específicos, como o uso de roupas masculinas. Mas eram um primeiro indício: se uma mulher era ‘masculina’, que outras coisas gays ela fazia?”, provoca a pesquisadora e historiadora britânica Eleanor Medhurst, autora do projeto Dressing Dykes, que joga luz para a história da moda lésbica nas plataformas digitais.

No começo do século passado, em Paris, flores violetas presas à lapela se tornaram um símbolo de afiliação à comunidade sáfica — uma referência tanto à poeta grega Safo quanto à peça The Captive, em que as violetas representavam uma relação entre mulheres. Nas classes trabalhadoras britânicas, o anel no dedo mindinho era um código bem estabelecido de identidade lésbica. Já o mosquetão, hoje comum entre mulheres queer que o penduram nas calças, vem do chaveiro na cintura, item funcional do vestuário das lésbicas operárias, como relembra Eleanor.

Butch/femme e a vigilância do Estado

Com a repressão moral da Segunda Guerra e os anos de conservadorismo que se seguiram, a expressão da sexualidade lésbica recuou para espaços privados. Mas os bares continuaram a ser redutos de resistência — especialmente nos Estados Unidos, onde o visual butch/femme ganhou força como forma de reconhecimento.

As butches usavam cabelos curtos, roupas utilitárias ou de alfaiataria e mantinham uma postura firme, assumindo um papel considerado masculino dentro da dinâmica de casal, enquanto as femmes cultivavam uma feminilidade estratégica. Ambas, porém, desafiavam a heteronormatividade. Eram comuns as batidas policiais em bares frequentados por elas, que podiam ser presas por “usar roupas do sexo oposto”. No Brasil, episódios semelhantes aconteceram nos arredores da Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, e na região da Boca do Lixo, em São Paulo.

Casal butch/femme no bar Le Monocle, em Paris, 1932 — Foto: Getty Images
Casal butch/femme no bar Le Monocle, em Paris, 1932 — Foto: Getty Images

Mas mesmo sob vigilância, o crossdressing — vestir-se com roupas tradicionalmente associadas a outro gênero — tornou-se uma ferramenta poderosa. Um exemplo emblemático é o de Gladys Bentley, musicista afro-americana que se tornou celebridade no bairro do Harlem, em Nova York, nos anos 1930. Bentley se apresentava de terno e cartola, cantando blues em bares enquanto colocava em xeque as normas da época. Seu apelido era bulldagger, uma gíria usada para lésbicas com visual masculino, e seu estilo — tanto no palco quanto fora dele — virou um símbolo radical de liberdade.

“Existe um desejo de controle do próprio corpo, para que não seja atraente para homens”, observa a professora Natalia Rosa. “A caminhoneira [espécie de versão brasileira da butch] se veste assim também como uma forma de recusa ao olhar masculino", completa ela, que é pesquisadora com foco em gêneros, sexualidades e decolonialidades.

Gladys Bentley  — Foto: Getty Images
Gladys Bentley — Foto: Getty Images

Dungarees, militância e o dyke look

Na década de 1980 e início dos anos 1990, a estética punk e a cultura queer explodiram juntas. Muitas mulheres lésbicas rasparam a cabeça, colocaram piercings e usaram jaquetas de couro como armaduras. Uma estética dura, forte, feita para afastar o olhar normativo e atrair apenas quem soubesse decifrar os códigos.

É quando surge o que a historiadora Eleanor Medhurst chama de dyke uniform — ou “uniforme sapatão” —, que consistia em roupas funcionais, como jardineiras, jeans largos, camisetas e botas pesadas. “Era uma anti-moda. Não se tratava de um estilo proposital, mas de identidade. De dizer: ‘não somos como vocês’.”

O termo “sapatão” surgiu no Brasil nos anos 1930 como uma forma pejorativa de constranger mulheres que usavam roupas e sapatos masculinos — muitas vezes grandes demais, já que não existiam numerações menores voltadas a elas. A palavra nasce da recusa em aceitar expressões de gênero não conformes, e da tentativa de ridicularizar essas escolhas. Assim como aconteceu com o termo “dyke”, nos Estados Unidos e Europa, a expressão foi transformada com o passar do tempo, sendo retomada pela comunidade como um sinal político.

Aniversário de 25 anos da revolta de Stonewall, em Nova York — Foto: Getty Images
Aniversário de 25 anos da revolta de Stonewall, em Nova York — Foto: Getty Images

“O que visto diz quem sou antes mesmo da fala”, definem as estilistas Lívia Barros e Janaina Azevedo, criadoras da Ken-gá, marca fundada em 2016. “Nossas peças, feitas por mulheres lésbicas, conversam nesse idioma, provocam o olhar, mas abraçam quem reconhece os sinais".

Para a estilista Jal Vieira, fundadora da marca que leva seu nome, “talvez a real significância do que ‘torna’ — entre muitas aspas — um corpo lésbico é desafiar as normas sociais. Não somente daquilo que você nega, mas também daquilo que você reafirma todos os dias ao se relacionar com corpos semelhantes aos seus, ao beijar essas pessoas em praça pública, ao andar de mãos dadas".

Lesbian chic e os limites da visibilidade

Nos anos 1990, a expressão lesbian chic chegou ao mainstream. Mulheres lésbicas passaram a ganhar mais espaço na TV, nas revistas e nas campanhas de moda, mas com um recorte específico: eram, em sua maioria, magras, brancas e mais femininas. Podiam vestir terno, mas sem abandonar o salto alto ou o batom. Mais higienizado, o visual perdia parte de sua carga política original.

Para a pesquisadora Natalia Rosa, esse período marcou uma aceitação seletiva. “A lésbica elegante, chique, apresentável foi aceita. Mas isso não incluía a caminhoneira, a mulher gorda, a negra, a transmasculina", reflete.

Aqui, a frase da escritora e ativista Audre Lorde faz ainda mais sentido: “Dentro da comunidade negra, sou lésbica. Dentro da comunidade lésbica, sou negra”, escreveu ela em Sister Outsider (1984). No livro, ela denuncia o racismo dentro do próprio movimento lésbico e desafia qualquer leitura homogênea da vivência queer — especialmente aquela promovida por uma moda que seleciona quem pode (ou não) ser representada.

Quando a moda veste o desejo (de quem?)

Nas décadas seguintes, a moda continuou a recorrer à imagem lésbica. Em 1989 e 1990, a estilista Vivienne Westwood colocou na passarela casais de mulheres vestidas de noiva encenando um beijo. Jean Paul Gaultier fez o mesmo em sua coleção de outono de 1997, em um tributo à artista francesa dos anos 1920 Josephine Baker — um ícone queer e abertamente bissexual.

Jean Paul Gaultier, 1997 — Foto: Getty Images
Jean Paul Gaultier, 1997 — Foto: Getty Images

Se por um lado, essas imagens contribuíram para colocar o afeto entre mulheres em cena, por outro, nem sempre foram pensadas a partir de uma vivência real — mas performadas como fetiche ou provocação. "Quando a moda mainstream se apropria de estéticas lésbicas sem escutar nossas histórias, transforma vivência em ornamento e apaga a potência de quem vestiu aquilo antes que fosse aceito", alerta Natalia Rosa.

Ainda assim, há nomes que ajudaram a moldar essa presença com autenticidade. A estilista Jil Sander, uma das poucas lésbicas assumidas no alto escalão da indústria, foi pioneira em construir uma estética minimalista, elegante e funcional. Muitos das silhuetas e cortes que hoje associamos à moda de gênero fluido têm origem em seu trabalho — ainda que o crédito nem sempre a acompanhe.

Recentemente, a etiqueta nova-iorquina Collina Strada encerrou sua coleção de outono 2025 com um casal de noivas lésbicas. Diferentemente de momentos anteriores, performados por modelos heterossexuais em contextos heteronormativos, a diretora criativa Hillary Taymour imaginou um universo onde “feminilidade, queerness e deficiência não são combatidas, mas enfaticamente celebradas.” A presença lésbica não foi usada como recurso de choque visual, mas para representar uma história de afeto real e possível.

Collina Strada, outono/inverno 2025 — Foto: Getty Images
Collina Strada, outono/inverno 2025 — Foto: Getty Images

TikTok, dykecore e os novos ícones lésbicos

Hoje, uma nova geração volta a se apropriar de códigos visuais do passado, ao mesmo tempo em que desafia uma lógica binária. No TikTok, o estilo dykecore ganha popularidade ao resgatar peças como regatas, bermudas cargo, sapatos pesados e chaveiros. “Esse resgate das gerações mais jovens é essencial. É o reconhecimento e a continuidade”, apontam Lívia Barros e Janaina Azevedo.

“Muitas lésbicas também se vestem de forma hiperfeminina, com rosa, acessórios kitsch e saltos plataforma — o que subverte a expectativa de gênero”, diz Eleanor Medhurst. “A moda lésbica questiona, celebra e vira o binarismo de cabeça para baixo. Afinal, já subvertemos o binarismo ao amar outras mulheres.”

Novas artistas, como Chappell Roan, personificam essa ideia: seu visual exageradamente feminino — que beira o teatral — não busca agradar o olhar masculino, mas sim expressar sua autonomia e identidade lésbica com uma dose de humor, drama e ironia.

Nas mãos dessas jovens, artistas e criadoras de conteúdo, os códigos se renovam. Longe de ser apenas uma tendência, essa preservação é também um gesto político e afetivo. Como resume Medhurst, “é uma forma de dizer: ‘nós sempre estivemos aqui’”.

Chappell Roan  — Foto: Getty Images
Chappell Roan — Foto: Getty Images
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