A maior fábrica de alta joalheria do mundo é italiana — e sustentável
Com 33 mil metros quadrados, a nova Manifattura da Bulgari é a maior fábrica de joias preciosas do mundo. Em entrevista a Marie Claire, Eleonora Rizzuto, diretora de sustentabilidade da maison, diz como a expansão une luxo, inovação e compromisso ambiental
No distrito de Valenza, na região do Piemonte, ao norte da Itália, a Bulgari acaba de inaugurar um novo marco da alta joalheria. Com 33 mil metros quadrados, a ampliação da Manifattura transforma o local na maior fábrica de joias preciosas do mundo. O plano é ousado: dobrar a capacidade produtiva da maison até 2029, mantendo a operação com impacto ambiental neutro.
Com uma extensão de quase 19 mil metros quadrados, a Manifattura Bulgari deverá contratar mais de 500 novos artesãos até 2029. A expansão cria oportunidades para as gerações atuais e futuras de profissionais da ourivesaria. “A sustentabilidade é algo muito presente na estratégia da Bulgari há muito tempo”, afirma Eleonora Rizzuto, diretora de sustentabilidade da marca. “Isso nos permitiu buscar soluções inovadoras para aprimorar nossas práticas em todas as frentes.”
Entre essas soluções está um sistema geotérmico com 100 sondas, instaladas a 200 metros de profundidade, que fornece energia térmica limpa para aquecimento e resfriamento. Nos telhados e estacionamentos, mais de 4.100 painéis solares – sendo 420 no edifício central e cerca de 3.700 nos estacionamentos – atendem até metade das necessidades energéticas do complexo. O restante vem de fontes 100% renováveis.
A arquitetura também integra sistemas de captação e reuso da água da chuva, três tanques subterrâneos de contenção, um reservatório na encosta e blocos permeáveis no lugar de asfalto, que respeitam a absorção natural do solo. Desde 2019, a unidade reduziu em 7% o consumo de eletricidade e em 60% o uso de combustíveis. Internamente, as temperaturas dos ambientes são controladas com precisão de até ±1°C, e unidades de tratamento de ar otimizam a eficiência energética.
Além da tecnologia, soluções naturais como o Bosco Bulgari – um projeto de reflorestamento nos arredores da fábrica – também contribuem para a absorção de carbono. Os números são expressivos, mas não isolados. A nova fase da Manifattura foi pensada para manter a certificação LEED Gold – um dos selos mais rigorosos do mundo em construção sustentável, já conquistado pela unidade em sua fase inicial. “O grande desafio foi otimizar o desempenho energético sem comprometer a operação. Cada detalhe foi pensado: ventilação, reaproveitamento de recursos, escolha de materiais, transporte de funcionários”, diz Eleonora.
O compromisso ambiental da Bulgari é mais que estrutura física. Desde 2022, toda a produção da joalheria é feita com ouro certificado pelo Responsible Jewelry Council (RJC), que garante práticas éticas e rastreáveis em toda a cadeia de fornecimento. “Reforçamos nossos processos e aprimoramos os sistemas de rastreabilidade. Isso fortaleceu a rede de parceiros e incentivou uma cultura de responsabilidade em toda a cadeia”, acrescenta Eleonora.
Essa abordagem também impacta diretamente o consumidor final. “Os compradores buscam cada vez mais significado por trás do objeto. Especialmente entre as gerações mais jovens, há uma atenção crescente à sustentabilidade”, diz a executiva.
“Isso aprofunda a confiança e a conexão emocional com a marca.” A estética da maison – marcada por exuberância, volumes esculturais e uso expressivo de cor – permanece. Mas agora é construída com novos materiais e critérios. Além do ouro rastreado, as peças usam pedras preciosas de origem ética, diamantes livres de conflito e chegam ao público em embalagens feitas com papel reciclado com certificação, couro vegano e seda com selo GOTS (Global Organic Textile Standard). “Quando a sustentabilidade se torna central, a criatividade e o artesanato evoluem – sem concessões”, afirma Eleonora. “Nosso estilo continua icônico, mas é construído sobre escolhas éticas.”
Fundada em Roma em 1884, a Bulgari entende que o futuro do luxo depende, hoje, de sua responsabilidade no presente. “Marcas como a nossa têm um papel único. O luxo sempre foi sobre valores atemporais – e poucos são mais rele - vantes agora do que a sustentabilidade”, resume Eleonora. “Ao redefinir o luxo, temos que mostrar que a sustentabilidade não é uma tendência, mas o futuro da excelência. É nossa obrigação demonstrar que inovação e responsabilidade podem andar juntas, sem perder brilho.”









