‘Tem quem ame e quem odeie’: nova geração de jovens ‘scene’ se une contra o minimalismo e revive o estilo que surgiu nos Fotologs
Popularizado na primeira década dos anos 2000, o estilo scene nasceu como uma subcultura do emo. Agora em 2025, jovens revivem a estética marcada pelo maximalismo, cores extravagantes e acessórios que chamam a atenção
Nas últimas temporadas, o cenário fashion tem sido dominado pelo minimalismo e pelos tons neutros. A era é das clean girls, com seus rostos quase naturais e produções básicas. Mas, na contracorrente, há também o resgate de uma estética colorida, exagerada e repleta de referências à primeira década dos anos 2000: trata-se do scene, subcultura que nasceu como um desdobramento do emo nos tempos das redes sociais da época, MySpace e Fotolog, e agora ressurge adaptada às novas plataformas digitais e a um público em busca de um visual mais autêntico.
“A cena scene é confundida por muitos com a emo e, por mais que elas tenham algumas similaridades, como os cabelos lisos em cortes assimétricos cobrindo parte do rosto, são bem diferentes,” explica a escritora e criadora do Modices, Carla Lemos, à Marie Claire. “A estética scene é multicolorida nas roupas e nos cabelos, com muitas listras, tons vibrantes, cheios de acessórios e um maximalismo pop”.
Carla destaca que esse estilo surgiu e se fortaleceu graças às primeiras redes sociais que se popularizaram na web. “O estilo sofreu influência direta dessa nova forma de se expressar e se comunicar proporcionada pela internet nos seus áureos tempos, como o Fotolog aqui no Brasil, num tempo em que o Orkut, a rede mais popular, não permitia fotos. A MariMoon [apresentadora de TV] era a estrela, com seus cabelos e estética multicolorida; e o MySpace, nos Estados Unidos, muito focado em música”.
Para a escritora, a vida digital ainda incipiente foi quem fez a cena brotar. “Eu acredito que essa estética teve um apelo tão forte no início dos anos 2000 por conta de toda essa energia futurista que existia na virada do milênio, e por causa dos adolescentes que estavam encontrando outras formas de se expressar e de criar uma persona online,” continua.
O mundo online, ainda engatinhando, era o lugar onde pessoas com interesses diversos, de diferentes lugares, podiam se conectar e trocar referências. “Acho que isso ajudou a popularizar esse estilo que era muito ousado, muito moderno, e que unia pessoas de diferentes lugares através desse visual. Era uma coisa meio que do ‘mundinho’ deles”.
Hoje, esse movimento ressurge em meio às microtrends do TikTok, numa nova geração que tem muito mais recursos para navegar, pesquisar e misturar referências. Agora, também aparecem nos looks cabelos e tendências dos anos 80 misturados aos anos 2000. Há também uma forte inspiração do street style japonês, especialmente de Tóquio, onde as subculturas jovens florescem com identidade própria — sem medo de misturar referências, cores e elementos considerados infantis, como de animes e filmes de animação.
“Tem gente que me acha estranha”
Ludmila Raineski, 24 anos, do Rio Grande do Sul, é um dos rostos dessa nova fase dos scene kids no Brasil. Natural do interior, ela só começou a explorar a estética depois dos 19 anos. “Cresci num ambiente mais conservador, com pouca liberdade para ousar. Mas sempre fui muito ligada à moda e ao universo dos animes. A moda japonesa, com meu gosto musical, me levou cada vez mais para o estilo,” conta.
O caminho até o visual vibrante foi gradual. Inicialmente, Ludmila, formada em Design de Moda, se aproximou da estética emo, marcada por roupas pretas e influências góticas. “Eu tinha receio de explorar cores dentro da moda alternativa, porque o pessoal costumava gostar só de coisas ‘trevosas’. Depois resolvi misturar tudo: o preto, a influência emo, e o exagero colorido do scene”.
“Eu acho que a gente está numa era com tanta informação e estímulo que podemos simplesmente ir atrás do que achamos legal e assumir: ‘Vai ser isso e pronto, não estou nem aí’”.
Para construir o visual scene, a curadoria de Ludmila inclui peças garimpadas em brechós e pesquisas visuais em arquivos virtuais: “Sou muito nerd de roupa e marcas dos anos 2000. Pesquiso referências antigas do Flickr, Tumblr, MySpace, Fotolog. Mas também adapto para os dias de hoje”.
A internet é até hoje a principal ponte para a comunidade scene, segundo a jovem, já que é raro encontrar presencialmente pessoas que mantenham esse estilo. “A cena é pequena, mas muito conectada. Conheci minha melhor amiga numa festa emo e até meu namorado compartilha do estilo”.
Devido ao seu visual chamativo, Ludmila reconhece os desafios sociais — apesar da “facilidade” por estar em um contexto profissional que incentiva a criatividade. “Tem gente que me acha estranha, tem quem ame. É aquele ‘ou ama, ou odeia’. Já riram, apontaram, cantaram música perto de mim na rua. Nada muito grave, mas desconfortável. Meu pai até tinha medo que eu apanhasse”.
Como resposta, Ludmila aprendeu a usar a “técnica de constranger de volta”. “Se a pessoa mexe comigo diretamente, eu respondo de um jeito que a deixe sem graça, sem criar um grande caso”.
“Nunca é tarde para ter o estilo que quer”
Gabriela Drescher, 23 anos, moradora de Porto Alegre, também é adepta do estilo scene e reflete sobre sua importância no contexto atual. “Eu sempre gostei dessa estética, mas vim do interior, um lugar onde ser LGBTQIAPN+ e ter um estilo diferente é sempre muito complicado, porque a gente é muito julgado,” conta.
Só ao se mudar para a capital do estado, em 2021, Gabriela sentiu mais liberdade para se expressar de verdade. “Morar sozinha me deu espaço para ser quem eu realmente queria ser, seguir o meu estilo”, diz. Para ela, o que a atrai no scene é justamente o visual maximalista: “Acho uma estética muito expressiva, e eu digo que me expresso muito através das minhas roupas”.
Ela destaca a influência do gyaru — uma subcultura da moda japonesa marcada por exageros — dentro do scene. “Ele pega muita influência de moda japonesa e de outras referências. Eu gostei principalmente porque sempre amei a vida noturna. A gente sempre fala que o scene tem que ser vivido: dar rolê, sair com os amigos para tirar fotos”.
“E tem muito isso na história do scene, porque na época do MySpace, as pessoas scene eram consideradas pelos outros como ‘emos posers’. Era porque gostavam de moda e diziam que iam aos shows ‘para fazer cena’: por isso o nome.”
A estudante de Psicologia também ressalta a aceitação que encontrou no meio acadêmico, apesar dos olhares desconfiados que o estilo pode atrair. “Eu não vou tão montada ao estágio quanto eu vou numa festa. Uso maquiagem, arrumo o cabelo com a franja para o lado. Mas vou de camiseta, calça, roupa mais comum, porque é para trabalhar mesmo”.
Por outro lado, Gabriela entende as repercussões de se apresentar com um estilo alternativo. “Se quer seguir esse estilo, tem que entender que vai ser julgado. É fora do padrão, principalmente para mulheres. Para mim, me machucava muito quando meus pais não me apoiavam. Hoje em dia não mais tanto, porque viram que tiveram que aceitar", desabafa.
"Hoje, faço terapia, que é base pra mim, e aprendi a afrontar: se não gostam, problema deles. Eu vou viver minha vida".
“Acho super importante as pessoas poderem se descobrir mesmo. É muito legal descobrir o que você gosta, as coisas que você prefere, como quer se vestir. Se não tem oportunidade na adolescência, vai moldando depois. Mas acho que não tem idade para fazer isso. Só se vive uma vez. Nunca é tarde para ter o estilo que quer.”
Moda como refúgio e resistência
Carla Lemos destaca que essa retomada das subculturas é uma reação natural ao conservadorismo e ao minimalismo predominantes. “Movimentos conservadores atraem minimalismo, retração, pessoas mais uniformizadas que não querem se destacar. Quando um movimento maximalista como esse ressurge, é uma resposta natural da rebeldia, principalmente dos jovens”.
“Isso é uma coisa muito típica dos mais novos: de tempos em tempos, eles querem encontrar referências, pessoas que expressem suas inquietudes internas. A forma como as pessoas se vestem e se expressam sempre reflete alguma urgência da geração que está vindo. É uma geração inquieta”, conclui.
“As pessoas sempre vão julgar, não importa o estilo. Então, por que se moldar aos outros se a frustração vai existir de qualquer forma? Para mim, é sobre misturar referências e me colocar acima do julgamento alheio”, finaliza Ludmila.









