Presença irreverente: Lo de Lui se destaca com graça e identidade na nova geração de marcas brasileiras
Da pintura à estamparia, a marca da estilista Luiza Rosas transforma o vestir em expressão criativa e bem-humorada — agora desdobrada em novas coleções e parcerias
Foi quase por acaso que Luiza Rosas deu início à sua marca, a Lo de Lui, em dezembro de 2020. Durante a pandemia, a estilista, que sempre gostou de desenhar e pintar, trocou o papel pelo tecido e começou a experimentar estampas feitas à mão. “Comecei a pintar peça por peça, como uma arte para vestir. Enquanto estilista, eu olhei e entendi que aquilo poderia virar uma coleção interessante”, lembra. O que nasceu de forma espontânea se consolidou ao encontrar seu próprio nicho no mercado.
“Eu acreditava no meu olhar. Vi que havia espaço para uma estamparia forte, com mais personalidade e que não fosse de uma brasilidade caricata”, diz Luiza. Desde o início, a marca construiu uma identidade pautada no uso de cores marcantes, volumes e proporções inesperadas. “Itens com personalidade”, nas palavras da própria designer. A Lo de Lui é pensada para pessoas que não se levam tão a sério.
No universo da marca, a moda existe, acima de tudo, como um espaço para experimentação e diversão — o que fica nítido ao acompanhar os processos de sua criadora. Luiza olha com humor para situações cotidianas, e as transforma em estampas singulares. Para a quarta coleção da etiqueta, a inspiração veio de um concurso de beleza para cachorros. “Pode ser algo banal, mas que tenha alguma graça. Minhas referências nunca são muito cabeçudas. São coisas fáceis, engraçadas, que estão ali na frente de todo mundo”, destaca.
O vestido Florence, um dos best-sellers, também tem uma história inusitada por trás: “Cresci ouvindo minha mãe dizer o quanto odiava o cheiro de alho, que eu não podia comer alho, e aí decidi fazer uma coleção toda estampada por alhos. Gosto de tirar um sarro.”
Seu trabalho também envolve pesquisas de silhuetas vintage em leilões e brechós. A mais recente coleção, lançada no fim de agosto, teve como ponto de partida um selo ar- gentino de 1978 encontrado em um leilão virtual. “A partir disso, ilustrei elementos de navios, como a Balsa 24, os remolcadores Legador e Río Paraná Mini, e o barco de passageiros Ciudad de Paraná. São símbolos da navegação fluvial e da força estética presente nessa iconografia argentina.”
Hoje, Luiza comanda duas lojas em São Paulo: a primeira, na Joaquim Antunes, em Pinheiros, com a coleção completa; a segunda, recém-aberta no Lapi, complexo que une moda, gastronomia, música e arquitetura. No novo endereço, a estilista não quer se restringir às suas próprias criações, incluindo uma curadoria de marcas independentes — como Toca, Drama, Iro Studio e Struktura. “Não se trata de uma multimarcas, mas uma edição de peças que fazem sentido no nosso universo. Assim, conse- guimos trazer novidades com outros olhares e impulsionar novas marcas, sem perder a identidade.”
As colaborações são parte importante da essência da Lo de Lui. Neste ano, a etiqueta assinou coleções com a NK e a C&A Mindset, ampliando seu diálogo com públicos diversos. 2025 marca também a chegada ao mercado internacional, com pontos de venda em Milão e Dubai.
“Nossa entrega de faturamento agora precisa ser de uma empresa, não de uma marca artística, como foi na primeira coleção. Eu era contra o movimento de lançar novidades todo mês, mas entendi que as pessoas realmente esperam por isso. Minha estratégia é dividir as duas coleções anuais em várias entradas, lançando um pouco a cada mês.” Em setembro, a grife lança uma linha de básicos, intitulada Basics. “Também vamos ter o primeiro jeans dentro da marca. É um básico com bossa”, define.
Atenta à questão de descarte e reaproveitamento de materiais, a estilista também desenvolve coleções especiais a partir de sobras de coleções anteriores e de resíduos da indústria têxtil, como fez no Carnaval deste ano.
Apesar da mente criativa, Luiza mantém os pés no chão. Ela está mais preocupada em firmar uma empresa bem estruturada, tocar bons projetos e trazer as marcas em que acredita para perto. A ideia de um desfile, formato muito explorado por etiquetas contemporâneas à Lo de Lui, não está entre as prioridades.
“O desfile tem uma atmosfera incrível, mas é um pouco romântico. É algo que quero fazer com calma.” Quando volta aonde tudo começou, a estilista resgata o propósito central de sua criação: “Quero que quem escolhe nossa roupa se sinta especial. Não para ficar parada no armário esperando uma ocasião, mas para transformar, por si só, qualquer momento em celebração.”









