Anatomia do gótico: desvendando o figurino do novo 'Frankenstein'
O longa dirigido por Guillermo del Toro e estrelado por Mia Goth usa o figurino como parte indissociável da narrativa
O diretor mexicano Guillermo del Toro sempre filmou monstros como metáforas da humanidade. Em Frankenstein, essa tradição atinge seu auge. O longa, que chegou na última semana aos cinemas brasileiros e estreia no dia 7 de novembro na Netflix, é protagonizado por Oscar Isaac, Jacob Elordi e Mia Goth, e transforma a fábula sobre criação e poder em uma ópera visual. Parte importante dessa reinvenção está no figurino assinado por Kate Hawley, em uma das colaborações mais íntimas e poéticas da carreira do diretor.
A figurinista rejeita o preto vitoriano e o excesso de peso da era industrial. Em vez disso, aposta em cor, textura e elementos da natureza: tecidos que remetem a órgãos, bordados que lembram células, véus que se movem como fumaça. Cada traje funciona como uma extensão do corpo e da consciência dos personagens.
Elizabeth, a ciência e o sagrado
Interpretada por Mia Goth, Elizabeth é o coração moral e estético do filme — uma mulher que vive entre a razão e o misticismo, a natureza e o artifício. Seu guarda-roupa é uma tradução dessa dualidade. Para construir a paleta de cores, a figurinista olhou para os insetos, inspirando-se no interesse da personagem pela biologia. Verdes de malaquita, azuis de escaravelho e violetas de asas metálicas foram transformados em vestidos que parecem estar em movimento, com sedas marmorizadas e veludos fluidos.
Os acessórios assinados pela Tiffany & Co. reforçam o elo entre ciência e espiritualidade — caso do colar de escaravelhos, que representa a natureza, e do rosário de contas carmim, que simboliza a fé. Em um dos visuais mais memoráveis, Elizabeth surge com um vestido azul translúcido e um colar de vidro iridescente, que irradia luz.
As transparências, véus e mangas fluidas ajudam a trazer um efeito etéreo para as produções, em sintonia com o ar de mistério envolto na personagem. Hawley descreve essa escolha como “um gesto de memória”: é como se as roupas guardassem vestígios de quem Elizabeth foi.
O vestido de noiva e a anatomia do mito
No clímax da narrativa, o figurino de Elizabeth assume proporções míticas. O vestido de casamento, uma homenagem ao filme A Noiva de Frankenstein, de 1935, é uma escultura de organza, seda e fitas suíças. São cinco camadas de tecidos translúcidos, costuradas como se fossem peles sobrepostas. As amarrações, semelhantes a costuras cirúrgicas, remetem tanto ao corpo do monstro quanto ao processo de criação que move o filme.
As roupas carregam ideias: religião, anatomia, memória. Entre a beleza e o horror, o figurino se revela como metáfora da criação, um ato quase divino de unir fragmentos e dar forma ao indizível.









