Como o tingimento biotecnológico está revolucionando o futuro da moda
Com pigmentos criados a partir de bactérias, fungos e resíduos naturais, o tingimento biotecnológico ganha destaque como um dos eixos mais promissores da moda sustentável
Por redação Marie Claire — São Paulo (SP)
Durante séculos, a moda construiu seu imaginário a partir da cor — mas raramente questionou o custo por trás dela. Responsável por cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa e um dos maiores consumidores de água do planeta, o sistema começa a encarar seus próprios limites. No cerne da questão, está o uso de corantes sintéticos, que dependem de químicos pesados e geram toneladas de resíduos tóxicos. É nesse contexto que o tingimento biotecnológico emerge como uma das respostas mais potentes até aqui. Ao substituir as fórmulas artificiais por organismos vivos, o processo reduz impactos reais no ambiente e institui uma relação mais consciente entre ciência, natureza e criação.
Na última edição do SPFW, em outubro, a marca paraense Normando levou essa conversa para a passarela. Em parceria com a Aiper, startup brasileira especializada em pigmentos biotecnológicos, a grife desenvolveu estampas feitas com bactérias amazônicas que produzem corantes naturais. Foi assim que nasceu o vestido “Vênus”, cujas cores e desenhos foram formados a partir da alimentação específica dada aos microrganismos. Além de eliminar resíduos prejudiciais, o processo cria uma paleta singular de cores, diretamente conectada à biodiversidade do Brasil.
Em sua mais recente apresentação, a estilista Flavia Aranha elevou o tingimento natural a um novo patamar. Ela combinou pigmentos orgânicos — como urucum, chá preto, índigo e cebola roxa — com tingimentos bacterianos, também desenvolvidos em parceria com a Aiper. Os corantes foram delicadamente aplicados a peças em musseline de seda, dando forma a uma coleção ultracontemporânea.
Fundada pelo pesquisador Ailton Pereira, a Aiper tem se consolidado como um dos laboratórios de biotecnologia mais promissores do país. O negócio surgiu a partir de sua pesquisa de mestrado, com foco em pigmentos microbianos. Hoje, a startup produz biopigmentos biodegradáveis e não tóxicos por meio de processos fermentativos com microrganismos, normalmente alimentados com resíduos agroindustriais como fonte nutritiva.
Esses pigmentos podem ser aplicados diretamente no tingimento têxtil, reduzindo de forma significativa o uso de água, energia e emissões de CO₂ em comparação aos corantes convencionais, derivados de petróleo. Trata-se de um processo circular, em que o resíduo se torna insumo para desenvolver uma produção livre de compostos tóxicos e de extração mineral. Como resultado, a Aiper tem se destacado em iniciativas de moda sustentável e já foi reconhecida em programas de inovação e aceleração.
Entre as grifes colaboradoras da Aiper, está também a paulistana P. Andrade, que estreou na semana de moda masculina de Paris em junho deste ano. Na coleção, estavam peças criadas em conjunto com o laboratório, substituindo os pigmentos convencionais pelo uso de bactéria gram-negativa, que vive no solo e apresenta uma coloração violeta-escura característica, produzida por meio de seu metabolismo secundário.
Outro bom exemplo é a Maniocolor, iniciativa que desenvolve corantes naturais à base de cascas de mandioca no Alto Rio Negro, no Amazonas. O projeto, que dialoga com práticas tradicionais de uso de corantes naturais, insere a biotecnologia no contexto da valorização comunitária e da sustentabilidade integrada à cultura local, abrindo possibilidades para cores e processos que vão além dos modelos hegemônicos da indústria. O laboratório também produziu tingimentos especiais para a coleção de Flavia Aranha.
Além das cores: o futuro dos materiais
O tingimento biotecnológico faz parte de um espectro maior de inovações que vêm repensando a moda como um ecossistema de materiais vivos. É o caso de biomateriais como o couro de micélio, feito a partir da estrutura de raiz dos cogumelos e cultivado sobre resíduos agrícolas, oferecendo uma alternativa vegana, biodegradável e com aparência similar ao couro animal, mas com menor impacto ambiental.
Essas alternativas não são apenas mais verdes: elas desafiam a própria lógica da produção em massa ao introduzir processos vivos no coração da cadeia. São materiais que crescem, respiram e se decompõem com muito menos dano ao planeta — e que ajudam marcas e consumidores a ressignificar o conceito de luxo.









