Conheça o projeto que conecta jovens estilistas nordestinos a comunidades artesãs tradicionais
Iniciativa da plataforma Nordestesse com apoio da Riachuelo, o projeto Mãos da Moda surge para preservar tradições e ampliar horizontes criativos
A moda se revela como um dos mapas mais precisos da identidade de um povo. No Nordeste brasileiro, esse mapa é traçado à mão, entre o bater dos bilros, o desfiar do crivo e a paciência do bordado. É nesse cruzamento entre a ancestralidade e o design contemporâneo que nasce o Mãos da Moda, projeto idealizado pela plataforma Nordestesse, de Daniela Falcão, em parceria com o Riachuelo Lab. A iniciativa, que também abrange o estado da Paraíba, selecionou por meio de edital oito marcas autorais para um mergulho profundo em comunidades artesãs. O objetivo é fomentar coleções colaborativas que combatam o craftwashing — o uso superficial do artesanato sem o devido crédito ou remuneração justa — para criar produtos de alto valor agregado, que serão apresentados na passarela do Dragão Fashion, em junho de 2026.
Sob a mentoria criativa de Luly Vianna, o projeto entrega ferramentas de emancipação. Entre oficinas de branding e estratégias digitais, o impacto social se materializa em gestos fundamentais: para algumas artesãs, o projeto foi o motivo para a abertura da primeira conta bancária, um marco simbólico de independência financeira. Em dezembro de 2025, acompanhei os primeiros encontros dessa jornada na Bahia.
Saubara: entre redes e rendas
Às margens da Baía de Todos-os-Santos, em Saubara, a vida das mulheres se divide entre a maré e as almofadas de renda: são marisqueiras por necessidade e rendeiras por alma. "Onde tem rede, tem renda", repetem como um mantra que une o sustento à estética. É nesse cenário que o encontro entre a marca Luci Bortowski e a Associação dos Artesãos de Saubara, representada por Diana Felix de Oliveira e pela mestra Maria do Carmo Amorim, propõe um exercício de moda regenerativa.
Luci, que trocou São Paulo pela Chapada Diamantina para lançar sua marca em 2022, construiu sua identidade a partir do garimpo de memórias — panos de prato, toalhas e tapeçarias que ganham nova vida sob seu olhar.
Para este projeto, ela experimenta uma inversão em seu método: se antes o ponto de partida era o resíduo têxtil já existente, agora o desenho nasce primeiro para que as artesãs executem a renda sob medida. "Pela primeira vez estou invertendo a lógica da minha criação, partindo do papel e não do material que encontro pronto", conta. No repertório da coleção, camisolas antigas e golas delicadas serão reinterpretadas sob o rigor do bilro — técnica em que a artesã manipula pequenas peças de madeira sobre uma almofada, cruzando fios em um ritmo percussivo para formar desenhos vazados de extrema complexidade. "É importante mostrar que isso é força e potência, e não algo associado à ideia de 'coisa da vovozinha'", afirma a estilista.
A troca é celebrada pela mestra Maria do Carmo, que fundou a associação em 1999: “Aprendi a desenhar sem saber que sabia desenhar. Hoje, a minha curiosidade é entender até onde posso chegar diante de um desafio desse tamanho. Eu sempre digo: ‘a gente não sabe fazer, mas vai fazer’. As marisqueiras gostam de desafio. A gente tem fé, vai com um balaio vazio e volta com ele cheio”.
Cachoeira: o metal, o crivo e o axé
Em Cachoeira, a marca Dua, de Camila Oliveira, uniu-se ao grupo Chitarte para trabalhar a tipologia do bordado crivo rústico. Pós-graduada em Moda e mestranda em Artes na UFBA, Camila criou a marca em 2018 em parceria com sua mãe, Dona Nádia. O encontro foi marcado pelo simbolismo: a estilista já planejava homenagear a Irmandade da Boa Morte em sua próxima coleção antes mesmo de saber que trabalharia na cidade-sede da instituição. Um dos pilares da identidade do Recôncavo Baiano, a organização foi fundada por mulheres negras escravizadas que conquistaram a própria alforria e a de seus pares. Para além da manifestação religiosa afro-católica, celebrada em um festejo anual, a irmandade é um símbolo histórico de vanguarda política, emancipação feminina e resistência da comunidade negra há mais de dois séculos.
O trabalho de Camila é atravessado pela herança de sua avó, Dona Alzira, uma autoridade no Candomblé. "Quando volto para o Ilê e para o Axé, busco cada vez mais essa presença. Carrego elementos como búzios e figas que agora aparecem para honrá-la", explica. A estilista mistura o metal da ourivesaria com cerâmica, madeira e, agora, o bordado. No desfile do Dragão Fashion, Camila pretende apresentar peças em tamanhos máxi, onde colares se transformam em golas e braceletes assumem a forma de armaduras. No styling, ela pretende incluir o bioco — espécie de véu que cobre parte do rosto, herança das negras muçulmanas Malê —, sinalizando a passagem da santidade e a resistência das mulheres de Cachoeira.
Bárbara Nunes, voluntária e representante legal da Chitarte, destaca a missão de resgatar a memória da chita — tecido de origem indiana que vestia pessoas escravizadas no período colonial hoje é símbolo de pertencimento local. “A Chitarte faz essa releitura da chita como ferramenta de inclusão de mulheres que, ao ficarem isoladas em casa, acabam adoecendo. Hoje somos reconhecidas como Patrimônio Cultural de Cachoeira. Atuamos também com comunidades quilombolas e com jovens em situação de vulnerabilidade. A economia que promovemos não é só de troca de saberes, mas também rentável. Cada venda é uma injeção de ânimo”, diz ela, que coordena um grupo de 17 mulheres sócias e cerca de 60 aprendizes voluntárias.
Dias D’Ávila: alfaiataria viva
Em Dias D’Ávila, a marca Inttuí, criada por Washington Carvalho em 2020, encontrou a Associação das Rendeiras, coordenada pela mestra Dinoélia Trindade. Washington, natural de Feira de Santana, revisita uma alfaiataria que é memória familiar — sua mãe era uma mulher de grande vaidade e apreço pelo corte — para construir o que define como uma "arquitetura viva".
As inspirações da coleção são densas: as formas orgânicas de Lina Bo Bardi, que defendia uma arquitetura em movimento e integrada às pessoas; o uso vibrante das cores e a pigmentação do multiartista Heitor dos Prazeres; e o rigor das esculturas em metal de Amílcar de Castro. “Lina é o epicentro que molda o contexto, enquanto as influências de Heitor e Amílcar tornam o projeto mais grandioso”, reflete o estilista. A união da renda de bilro com as silhuetas fluidas e descoladas do corpo da Inttuí busca elevar a artesania ao lugar de alta-costura brasileira.
Para a mestra Dinoélia, o projeto é um degrau para voos mais altos. Quinta geração de rendeiras, ela fundou a associação para transformar a realidade local. O índice de violência era muito alto, a autoestima muito baixa. Eu precisava fazer algo, e o que eu tinha era a arte. Comecei convidando vizinhos e vizinhas para compartilhar o saber, e identificamos que, em Dias D’Ávila, não havia renda, nem pessoas que fizessem renda. Preservar é a nossa bandeira — caso contrário, as futuras gerações só vão conhecer a renda de bilro pelos livros de história”.









