Lenny Niemeyer celebra 35 anos de marca com desfile retrospectiva no Museu do Amanhã
Há mais de três décadas, Lenny Niemeyer desenhava uma geometria própria para o corpo da mulher. Agora, a diretora criativa celebra o marco histórico de uma etiqueta que transformou a moda praia em estado de espírito
Havia algo no ar do Brasil de 1991 que inspirava ventos de reinvenção. Enquanto as bancas recebiam o primeiro exemplar da Marie Claire brasileira – que chegava com a promessa de discutir o mundo a partir de uma perspectiva feminina profunda e engajada –, a estilista Lenny Niemeyer, santista recém-chegada ao Rio de Janeiro, abria as portas de sua primeira loja em Ipanema. O encontro desses dois marcos, que agora celebram 35 anos de história, não é mera coincidência cronológica. Ambas as trajetórias foram construídas sob a premissa de que a mulher brasileira precisava de novas narrativas, tanto nas ideias quanto na forma como vestia o próprio corpo sob o sol.
Para celebrar esse marco, Lenny acaba de apresentar um desfile-retrospectiva no Museu do Amanhã, encerrando a primeira edição da Rio Fashion Week, evento que reposiciona a capital carioca no calendário de moda nacional. “É a primeira vez que reúno todo o meu acervo, desde o primeiro desfile”, conta. O styling ficou com Daniel Ueda, colaborador de longa data de Lenny, e a direção de arte foi assinada pela artista Nídia Aranha. O casting contou com tops como Isabeli Fontana, Gianne Albertoni, Barbara Fialho, Fernanda Tavares e Raica Oliveira — que também fazem parte de capítulos importante da história da marca.
A trajetória de Lenny começou muito antes de ter um endereço para a etiqueta que levava seu nome. Estudante de desenho industrial e estagiária em um escritório de arquitetura, decidiu se aventurar na moda depois de ouvir das amigas de São Paulo que era impossível encontrar biquínis que fugissem dos modelos asa-delta. “Na época, o que chamávamos de ‘biquíni das cariocas’ era muito pequeno. Foi quando eu resolvi fazer algo no meio do caminho – nem tão míni quanto o das cariocas, nem tão amplo quanto os modelos de fora do país”, recorda a estilista. Ela ainda não sabia, mas a aposta era tão certeira que ajudaria a transformar os rumos do beachwear brasileiro.
Durante cerca de uma década, desenvolveu coleções de moda praia customizadas para grifes como Fiorucci e Daslu. “Eu usava lenços da minha mãe e comecei a fazer sem ter muito conhecimento técnico. Não havia um designer. Eu gostava de imaginar o que tinha a cara de cada marca”, conta. O desvio de rota definitivo veio em 1990, com a implementação do Plano Collor. O confisco da poupança e o congelamento de ativos financeiros paralisaram o país, e as marcas para as quais Lenny fornecia cancelaram todos os pedidos de um dia para o outro. “No varejo da época, a moda praia era tratada como um acessório secundário e foi a primeira a ser cortada.”
Em um misto de sorte, timing e desejo de fazer acontecer, ela decidiu dar um passo ainda maior, saindo da produção para outras marcas e partindo para a venda direta aos clientes. Assim nasceu a etiqueta Lenny Niemeyer, junto à abertura da primeira loja, em 1991. “Eu mesma pintei o espaço, eu mesma ficava no balcão. Foi meu primeiro confronto com o varejo.” O início foi marcado pelo choque de quem propunha uma estética incomum para a época – especialmente para o público carioca. “Não me esqueço de quando entraram duas mulheres na loja, olharam as peças e uma falou para a outra: ‘Nossa, que biquíni careta, vamos embora agora’”, relembra, com humor.
O tempo validou a ‘caretice’. À medida que as mulheres ocupavam novos postos no mercado de trabalho e buscavam uma imagem que projetasse sofisticação também nos momentos de lazer, a modelagem de Lenny se tornava ainda mais representativa desse desejo por liberdade de movimento. Enquanto a moda praia ainda era encarada como inferior pela moda tradicional, Lenny começava a importar cada vez mais referências do mundo das artes, da arquitetura e até da alta-costura para suas criações, apresentando estampas abstratas, drapeados e peças em seda que permitiam que a mulher saísse da areia direto para outros compromissos. “Eu me questionava por que não havia uma peça que pudesse seguir com a mulher durante o dia, que não fosse apenas uma canga. Morar no Rio me fez perceber que o lifestyle da cidade não é só a praia, é o além da praia também.”
Lenny já repetiu algumas vezes seu lema de “se manter fiel ao DNA da marca”. Mas esse não é o único fator que ajuda a explicar a perenidade da grife. Ela tem uma característica rara: a abertura para o novo. Foi assim que topou o primeiro encontro com Airon Martin, fundador da Misci, em uma sessão de fotos anos atrás, naquele que viraria o início de uma am amizade e parceria profundas. No dia da entrevista para esta reportagem, aliás, o estilista mato-grossense circulava com naturalidade pela casa da diretora criativa. “Foi um encontro de almas”, define ela. “Eu sempre acreditei que uma maneira de trazer frescor à marca era me aproximando de estilistas mais jovens em que eu realmente acreditasse. Airon é uma pessoa extremamente talentosa. Somos muito diferentes no estilo, mas temos uma admiração mútua, uma sinergia.”
A fundadora pensa muito sobre o futuro e em como quer que a marca esteja nos próximos anos, para além da sua própria existência. Em 2025, anunciou a filha, Bel Niemeyer, como codiretora criativa da grife. A transição é um movimento de longo prazo, fruto de um amadurecimento natural. Bel, que estudou fotografia em Barcelona e chegou a fundar sua própria marca, está há três anos mergulhada no cotidiano da empresa da mãe. A relação entre as duas é complementar. Enquanto Lenny admite ter um olhar mais clássico, Bel traz a renovação necessária para dialogar com as novas gerações. “Bel chegou para somar com esse olhar que não é de uma menina de 18 anos, é de uma mulher de 30 e poucos. É uma maneira de acompanhar as mudanças sem perder a essência. Eu tenho um olhar mais conservador; se me deixassem sozinha, estaria fazendo a mesma coisa.” Bel intervém: “Não é careta, é clássica. Você sempre traz uma pontinha de ousadia”.
A resiliência de Lenny em um mercado onde tantas outras marcas contemporâneas a ela ficaram pelo caminho parece vir de uma paixão genuína pelo fazer manual e, mais do que isso, pelas pessoas. Bel compartilha que a mãe já fez algumas tentativas de se distanciar do comando da empresa, mas não consegue ficar mais do que um dia longe do ofício. “Esse é o negócio que ela construiu, que ela ama, que a move. Então, se ela está lá no backstage, está rodeada pelas pessoas que também trabalham para aquilo acontecer. Ela ama essa vida e não quer outra.” Lenny concorda:
“A moda brasileira exige muita persistência. Você tem que amar o que faz a ponto de não conseguir resistir a fazer”.
O compromisso com a longevidade também se reflete na durabilidade das peças. Para Lenny, o verdadeiro luxo está naquilo que resiste à passagem do tempo. “Nada me deixa tão feliz como quando alguém vem me dizer: ‘Lenny, tenho esse biquíni seu de anos atrás, como dura!’”. Esse pensamento se estende para as investigações sobre materiais biotecnológicos e práticas sustentáveis em que a marca tem se aprofundado, usando insumos brasileiros como o látex e a seda rústica. Quando questionadas sobre o legado para as próximas décadas, mãe e filha convergem para uma simplicidade elegante. Lenny é direta: “Less is more” (“menos é mais”). Bel complementa com o desejo de que suas roupas sejam lembretes de boas memórias: “Que a gente vista as filhas e as netas das nossas clientes sem nunca perder a modernidade. Que essas peças sejam parte da história delas”.









