Isabela Capeto e Chica: mãe e filha trabalham juntas para unir o legado da marca à linguagem de uma nova era
A chegada de Chica Capeto à codireção une o DNA artesanal da mãe a um olhar contemporâneo que define o futuro da etiqueta
Quando Isabela Capeto fundou a etiqueta que leva seu nome, em 2003, sua filha Francisca tinha apenas 3 anos. Chica, como é conhecida, viveu boa parte da infância brincando no ateliê, entre montanhas de botões e o som das máquinas de costura. Duas crias de Isabela, Francisca e a marca cresceram juntas, seguiram os próprios rumos e agora estão conectadas de forma profunda. Aos 26 anos, Chica Capeto acaba de assumir oficialmente a codireção criativa da grife, dividindo o posto com a mãe. A estreia da dupla aconteceu na Rio Fashion Week, que marcou também o retorno da etiqueta às passarelas depois de um hiato de dez anos.
Ao longo das últimas duas décadas, Isabela Capeto construiu um vocabulário próprio, fundamentado no excesso delicado, no bordado manual e em uma resistência quase política à produção em série. A chegada de Chica à marca, que Isabela define como “a realização de um sonho”, representa um momento de reorganização das estruturas. Ainda que pareça um percurso natural, o caminho de Chica até o comando da marca exigiu distanciamento e amadurecimento. Formada em Moda pela PUC-Rio, ela se viu cercada por projeções externas e entendeu a real dimensão de seu sobrenome.
Em busca da própria voz, procurou rotas alternativas: explorou o audiovisual, criou ilustrações para outras etiquetas e consolidou sua presença como influenciadora digital. Foi no TikTok, compartilhando o cotidiano – e o guarda-roupa – com Isabela, que Chica encontrou uma forma orgânica de apresentar o universo da grife para sua própria geração. Transitando com naturalidade entre o ateliê e as redes, Chica agora toma conta da imagem e da linguagem digital da grife. Para Isabela, o negócio não poderia ser melhor: “Tenho mais tempo para me dedicar às roupas, aos bordados, às ideias”. “Fazemos tudo juntas, mas a palavra final das roupas é da minha mãe e a palavra final das mídias é minha”, completa Chica.
Os primeiros contornos dessa assinatura a quatro mãos tomaram forma em 2025, quando mãe e filha lançaram a linha Capeto, com peças básicas e acessíveis a um público mais jovem. O processo deu vazão a uma autodescoberta criativa de Chica: “Entendi que não tenho entusiasmo em fazer coisas simples. Eu já sabia que não era uma pessoa básica, mas entendi que também não consigo criar algo básico”. Essa percepção fez com que a Capeto fosse absorvida pela grife-mãe. Em vez de uma divisão preestabelecida, a ideia agora é que as intervenções de Chica sejam incorporadas à criação.
Na prática, essa presença injeta uma dose de ousadia e frescor às peças, adicionando comprimentos curtos, modelagens oversized e mais pele à mostra ao repertório da grife. Nas palavras de Chica, é um “lado punk” que chega para conviver com os vestidos românticos de Isabela, criando um guarda-roupa que dialoga com diferentes gerações. Nada mais simbólico do que a fila A do desfile que selou essa união, dominada por um grupo célebre de mães e filhas: a atriz Ingrid Guimarães e a filha Clara, a diretora criativa Katia Barros e a filha Manu, a jornalista Renata Ceribelli e a filha Marcela, a cantora Fernanda Abreu e a filha Alice.
A coleção, intitulada Dracena, teve como ponto de partida a planta de silhueta gráfica e manchas rosadas que sempre habitou o cotidiano de Isabela. Em meio à pesquisa, ela descobriu que se tratava da planta favorita do artista Hélio Oiticica, o que abriu caminho para outros pontos de intersecção entre os criadores, culminando na ideia de obra viva. Para Oiticica, a arte só se completa por meio da interação com o espectador. “A forma não é fixa e a roupa não se encerra no cabide. Tudo se ativa no corpo”, explica a dupla.
Na passarela, as peças ganham vida a partir de construções tridimensionais em movimento. A renda encontra o veludo, o xadrez se une ao floral e as miçangas acrescentam brilho às produções. Elementos de jardim, como flores e insetos, surgem em bordados minuciosos, e o xadrez e as composições em blocos trazem a geometria neoconcreta para o têxtil. A cartela de cores – com fúcsia, vermelho e amarelo cevada – remete à paleta de Oiticica.
Para Isabela, o fator luxo da grife está intimamente ligado às etapas de produção, a começar pela matéria-prima e a mão de obra, 100% nacionais. No ateliê, o desperdício é combatido pelo reaproveitamento constante. Sobras de metais e tecidos são transformadas em acessórios ou até embalagens para o e-commerce. “Nada vai embora. Tudo é aproveitado, está no DNA da marca”, resume Chica. Essa responsabilidade social se estende às bordadeiras, muitas das quais trabalham com Isabela há duas décadas. A relação de proximidade e respeito mútuo se reflete na qualidade do produto final. Para as Capeto, o artesanal é o próprio fundamento da obra.









