Moda
Por
Priscilla Geremias
— de São Paulo (SP)

Ao falar sobre maternidade, Sheron Menezzes desmonta qualquer versão idealizada. Descreve a experiência não como uma plenitude imediata, mas um processo de reconstrução pessoal. “Foi um renascimento mesmo”, diz. “É clichê, mas é a verdade. Afinal, clichês são feitos de fatos. A maternidade transforma cada uma de uma maneira, e eu me redescobri como mulher.”

A atriz estava com 33 anos quando teve Benjamin, hoje com 8 anos. Sempre quis ser mãe. Antes mesmo de engravidar, consumia conteúdos sobre parto, maternidade e educação, imaginando como seria viver essa fase. Quando seu filho com o lutador e empresário Saulo Bernard nasceu, porém, ela descobriu rapidamente a distância entre planejamento e realidade. A primeira mudança foi no “sim” que a mulher que ela foi um dia respondia para tudo. “Vamos viajar? Vamos. Vamos fazer isso a tal hora? Vamos. Acordar na hora que eu quiser? Sim. Essa mulher deixou de existir. Ainda tenho essa essência, só que agora de forma menos espontânea.”

A maternidade também costuma ser um espelho poderoso e mostrou para Sheron um lado mais paciente, consigo mesma e com os outros. “Antes eu era muito explosiva. Não uma pessoa brava, mas bem decidida no que quero, no que gosto ou não gosto. Mas, quando penso em ser assim hoje, sei que não vale a pena. Na idade que meu filho está, ele me desafia, questiona, tudo é ‘por quê?’ E eu repenso minhas prioridades e minhas discussões.”

Benji está na fase de construir sua própria personalidade. “Até o jeito de falar dele mudou. Antes era ‘mamãe’ num tom mais fofinho, hoje ele já traz gírias, ‘cara’, ‘mano’...”, diz a atriz, aos risos. “É a hora de eu ser mais cautelosa, para ajudar a construir essa personalidade, sua autoestima e sua relação com os outros.”

A preocupação de Sheron é respeitar seu filho como indivíduo. “Quero ensinar o que é certo e errado, mas de uma maneira que ele não se sinta invadido naquele mundinho em que está vivendo. As pessoas às vezes esquecem de respeitar a criança, como se elas não fossem um ser em construção. Educar é estar sempre em uma linha tênue. É difícil, mas eu estou aprendendo.”

heron veste camisa e calça Aluf e sandálias Burberry . Benji veste jaqueta Polo Ralph Lauren Kids, polo Lacoste, calça Zara e tênis Converse — Foto: Bruna Castanheira (GrouPart)
heron veste camisa e calça Aluf e sandálias Burberry . Benji veste jaqueta Polo Ralph Lauren Kids, polo Lacoste, calça Zara e tênis Converse — Foto: Bruna Castanheira (GrouPart)

Outro clichê que Sheron vive: “Nasce uma mãe, nasce uma culpa”. “Sou trabalhada na culpa, é da minha personalidade. E na maternidade não é diferente. Porque sempre fico pensando se o que eu estou fazendo, como a rigidez que eu tenho, vai acarretar em algo bom ou ruim. Mas me trato na terapia e ele vai poder se tratar também. Não vou acertar tudo. Aliás, sempre achamos que seremos melhores que nossas mães, e que os filho também serão melhores. Faço o que posso.”

A atriz carrega bandeiras feministas publicamente. Foi madrinha da campanha de aleitamento do Ministério da Saúde, em 2018, incentivando a amamentação exclusiva até os 6 meses e a doação de leite (ela fez questão de amamentar até os 2 anos). Em 2016, também apoiou a campanha HeForShe, da ONU Mulheres, que busca envolver homens e meninos na luta pela igualdade de gênero e pelo empoderamento feminino. “Nós achamos que é difícil ser mãe de menina, porque ser mulher nesse mundo é muito cruel. Mas ser mãe de menino também é perigoso, porque você precisa educá-lo para que ele não seja igual àqueles homens que abominamos. Para que seja carinhoso e respeitoso”, diz. Por isso, orienta-o sobre limites. “Ensino que, se uma menina diz que não quer brincar, é para respeitar o ‘não’. Que não se deve encostar no corpo das meninas ou de qualquer outra pessoa.”

A gravidez foi bem planejada. “Ele foi feito no dia 5 de fevereiro de 2017, um sábado antes do Carnaval”, brinca a atriz, musa da Portela há 15 anos. Agora, ela já não tem tanta firmeza nos planos para um segundo filho. “Penso várias vezes nisso, mas acho que passou muito tempo. Já me culpei por isso. Hoje entendo que é porque ele me completou de uma maneira tão profunda e, quando eu consegui me reencontrar, os anos já estavam passando.” Esse reencontro acontece após a atriz viver os primeiros anos do filho de forma integral. Ela idealizou uma maternidade em que estaria presente em cada detalhe da criação de Benji – e hoje reconhece o peso dessa decisão. Sem babá e sem rede de apoio constante, mergulhou completamente na rotina do bebê. “A maternidade te suga e vivê-la dessa forma que escolhi te deixa muito cansada. Éramos eu, meu marido e nosso filho”, lembra. “Gostaria de ter tido outro filho mais cedo, ele me pede muito um irmão. Só que me tomou de amor e de descobertas. Fui deixando até que pensei: ‘E agora?’”. Quando lembra da rotina intensa no puerpério, olha para o período sem romantização. “Fui muito rígida comigo”, afirma. “As pessoas não falam o quanto dói amamentar. O quanto a privação de sono destrói. Eu olhava para fora e parecia estar tudo ótimo, mas por dentro eu estava completamente exausta.”

Na página ao lado, Sheron veste camisa Aluf e Benji veste polo Lacoste — Foto: Bruna Castanheira (GrouPart)
Na página ao lado, Sheron veste camisa Aluf e Benji veste polo Lacoste — Foto: Bruna Castanheira (GrouPart)

A maternidade também alterou sua relação com autoestima e imagem. Durante a gravidez, diz ter vivido um dos períodos em que mais se sentiu bonita. “No momento em que descobri que estava grávida eu me tornei a mulher mais linda do mundo”, diz. No pós-parto, apesar dos desafios emocionais e do maternar como prioridade, fez questão de não abandonar seus cuidados de beleza. Depois de mergulhar integralmente nos primeiros anos de Benji – e reconhecer hoje o custo físico e emocional dessa escolha –, a atriz conseguiu voltar a olhar para si mesma para além do papel de mãe. E percebeu que outra fase começava: voltou a dar espaço para os projetos e as ambições que haviam sido temporariamente colocadas em pausa. “Não me permiti virar só mãe”, resume. Se antes a rotina girava em torno das noites maldormidas, da amamentação difícil e do medo constante de errar, ela se permitiu viver “a vida de outra pessoa”. É assim que Sheron entende a entrega a uma personagem.

Quando Benji tinha 3 anos, em 2019, viveu Nana em Bom Sucesso. Depois, em Vai na Fé (2023), tornou-se protagonista – a primeira em mais de 25 anos de carreira. Este ano marca outro momento importante em sua trajetória profissional: em março, estreou na série original do Globoplay Juntas & Separadas, criada por Thalita Rebouças – uma dramédia que acompanha quatro amigas 40+ após o divórcio. “A Laura caiu bem para mim, porque tratamos temas pelos quais não passei ainda, como a menopausa, mas vou ter de enfrentar.” No segundo semestre, com previsão para agosto, ela vi verá mais uma protagonista, na próxima novela das 19h. Bela é uma obstetra bem-sucedida que nunca quis ser mãe, mas vê sua vida virar do avesso ao assumir a criação de quatro crianças. O papel quase ficou com outra atriz. Inicialmente escalada para interpretar a melhor amiga da protagonista, Sheron mudou o rumo da própria trajetória quando soube que a escolhida para o papel principal não seguiria no projeto. “Liguei para o diretor e falei: ‘Para mim não faz sentido ninguém fazer essa personagem que não seja eu’. Nunca tinha feito isso na vida”, afirma. Uma semana depois, recebeu a resposta positiva. Antes das gravações, mergulhou intensamente na preparação. Ligou para sua médica e pediu para acompanhar partos reais. Assistiu a cesarianas, partos normais e plantões hospitalares para entender a dinâmica de uma obstetra.

Sheron veste camisa e calça Aluf e sandálias Burberry . Benji veste jaqueta Polo Ralph Lauren Kids, polo Lacoste, calça Zara e tênis Converse — Foto: Bruna Castanheira (GrouPart)
Sheron veste camisa e calça Aluf e sandálias Burberry . Benji veste jaqueta Polo Ralph Lauren Kids, polo Lacoste, calça Zara e tênis Converse — Foto: Bruna Castanheira (GrouPart)

A personagem chega depois de um momento divisor de águas. Em Vai na Fé, a atriz protagonizou uma novela que ampliou discussões sobre representatividade e ajudou a consolidar novas narrativas para mulheres negras na televisão aberta. Para ela, o impacto ultrapassou a própria carreira. “Depois da Sol, quantas protagonistas negras vieram? Em praticamente todas as novelas.” Sheron enxerga esse movimento como parte de uma mudança maior e fala com entusiasmo sobre meninas negras que hoje crescem com referências. “Quero que elas olhem e pensem: ‘Se ela está lá, eu também posso estar’.” Aos 42 anos, a atriz diz ter realizado todos os sonhos: pessoais, profissionais e materiais. Tem o filho que desejou, a carreira que construiu e a família que sonhou formar. Ainda assim, rejeita qualquer ideia de completude. “Eu ainda não me encontrei. Nem vou encontrar.” Talvez porque sua trajetória tenha sido construída em sucessivas reinvenções: a jovem gaúcha que saiu de casa para tentar a carreira no Rio de Janeiro; a atriz que ajudou a abrir espaço em uma cultura historicamente excludente; a mulher que fala com honestidade sobre culpa materna e exaustão. E agora a protagonista que, entre grandes personagens, continua fazendo questão de estar em casa para colocar o filho para dormir. É nesse momento do dia, segundo ela, que Benji conta tudo sobre sua vida. E talvez seja ali, entre roteiros, gravações e conversas antes de dormir, que Sheron Menezzes encontre sua versão mais inteira.

Vestido e pantalona Osklen — Foto: Bruna Castanheira (GrouPart)
Vestido e pantalona Osklen — Foto: Bruna Castanheira (GrouPart)

Direção de moda LARISSA LUCCHESE
Beleza HELDER RODRIGUES (Capa Mgt)
Direção criativa HUGO TEX (No Title).
Produção executiva VANDECA ZIMMERMANN

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BELEZA COM PRODUTOS: HERÔ, SEBASTIAN
PRODUÇÃO DE MODA: RENAN KAWANO
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ASSISTENTE DE DIREÇÃO DE ARTE: GABRIELLA TRAVASSOS
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: VINÍCIUS RODALM
ASSISTENTES DE BELEZA: CECÍLIA SARTORI, DANIELLE RIBEIRO, LUCAS ADRIEL
ASSISTENTES DE FOTOGRAFIA: MARCIO MARCOLINO, MAVI FONTENELLE, DIEGO LIMA
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO EXECUTIVA: CHRISTIANO MATTOS

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