Voz poderosa, Preta Gil usou a própria existência como bandeira contra discriminações
A artista, que seguia em tratamento de câncer colorretal, morreu neste domingo (20), comovendo o Brasil inteiro com sua partida; mulher poderosa e que se abria para falar de suas vulnerabilidades, ela deixa um legado de feitos e falas sensíveis sobre a própria existência, marcada por música, força e autocuidado; aqui, uma homenagem de Marie Claire a uma das vozes mais fortes contra discriminações que ainda fazem parte da nossa sociedade
Preta Gil não apenas erguia bandeiras. Ela mesma era uma bandeira. Um estandarte. Essa não é uma metáfora nossa ou uma convicção a que ela chegou sozinha, mas uma definição dada por seu pai, Gilberto Gil, diante das realizações em diferentes frentes de ativismo em que a cantora, empresária, apresentadora, publicitária e produtora atuava. Ela morreu neste domingo (20), aos 50 anos, comovendo o Brasil inteiro por sua perda, após um diagnóstico de câncer colorretal. A cantora estava nos Estados Unidos, onde realizava um tratamento experimental focado na imunoterapia.
“Meu pai diz que eu não carrego, mas que eu sou a própria bandeira!", contou, em entrevista para a capa de Marie Claire, edição de junho/julho de 2023, de onde resgatamos as fotos que acompanham esta matéria. "Ao defender a minha existência como uma mulher gorda, bissexual, preta, isso há tantos anos, quando nada desses assuntos era pauta ainda, coloquei meu corpo a esse serviço."
Preta esteve a serviço de nós, ao falar muito mais de si em momentos sensíveis para servir como um exemplo de autoconhecimento e autoamor, ao bancar sua existência, com lutas e conquistas, de maneira pública, e ao transmitir alegria pela música e pelas tantas outras expressões artísticas a que se propôs fazer.
Aqui, um compilado sensível das falas e dos feitos de Preta Gil, uma mulher poderosa que fará falta para fãs, amigos, familiares e para todos os brasileiros que acompanharam sua vida pública com tanta proximidade e respeito.
Na música
Foi em 2003 que Preta Gil lançou seu primeiro álbum, Prêt-a-porter, com a icônica capa em que ela posou nua -- coberta apenas por algumas fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim. Preta, antes de entrar na carreira artística de vez, era publicitária; em diversas entrevistas, ela dizia que sentia receio de subir no palco como cantora, tamanha a expectativa que se colocava em torno dela por conta da veia musical na família. Ela se rendeu e, daí em diante, agitou o povo com um repertório animado e dançante.
O Carnaval se tornou um de seus grandes momentos de reconhecimento do trabalho --, inclusive lançando, em 2014, o álbum Bloco da Preta. Ele, claro, se desdobrou em um megaevento nas ruas do Rio de Janeiro nos dias de folia -- e são marcantes os momentos da cantora recebendo artistas convidados pelos 15 anos em que aconteceu a apresentação.
"Desde que me entendo por gente o carnaval sempre foi o momento mais especial do ano. Cresci entre os carnavais do Rio e Salvador, vi o axé crescer, o Sambódromo ser inaugurado, cantei em muitos trios, nossa família criou um camarote em Salvador, fui rainha de bateria da Mangueira e depois disso criei o Bloco da Preta. O Carnaval é parte da minha identidade", contou a Marie Claire, em 2020.
Na luta como mulher
Aberta e coerente ao falar das opressões e das liberdades que atravessavam sua existência, Preta Gil também teve forte representação nas discussões sobre os dramas que mulheres como ela sofrem cotidianamente. Gordofobia, racismo, machismo, discriminação contra pessoas LGBTQIAP+, e os desdobramentos que esses preconceitos levam às vítimas deles sempre estiveram em pauta para a cantora.
Em seu Instagram, seguido por mais de 11 milhões de pessoas, ela expôs o corpo, fora do padrão, para apoiar e inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo. Para mostrar que é possível ter autoestima mesmo dentro de uma sociedade que mobiliza mulheres para buscarem um padrão estético irreal. Foi inúmeras vezes criticada por isso -- inclusive por mulheres -- mas sempre manteve o discurso de que "o corpo é político". "Vi o meu corpo sendo atacado logo no início da minha carreira. E foi a partir daí que eu entendi que o meu corpo é político, que ele fala sobre a opressão que as mulheres sofrem no Brasil e no mundo. Eu, por excesso de críticas, já me rendi diversas vezes para a pressão estética", revelou, em 2021.
Na rede social, também suscitou diversas vezes o debate sobre racismo -- ela mesma tendo sido alvo de ataques racistas em 2016 pela internet, o que a fez abrir denunciar o caso à Polícia, à época.
"A gente vive uma grande farsa no nosso país no que diz respeito à democracia racial. Vivemos uma disparidade. A gente está começando a emergir, se unir, mas ainda é tudo muito difícil.
"Temos que realmente provocar para que as instituições contem a nossa história de verdade", pontuou, durante participação em evento realizado por Marie Claire, em 2022.
No que fez por si mesma, ao viver um divórcio
Se cuidar em uma das fases mais difíceis de sua vida, durante o tratamento do câncer diagnosticado em janeiro de 2023, foi só uma das perspectivas que Preta precisou priorizar nos últimos meses.
Acontece que, no meio do tratamento da doença, Preta decidiu se separar do então marido, após descobrir um caso de traição dele dentro do casamento. Mais uma vez, ela se posicionou de maneira a fazer homens e mulheres refletirem sobre o machismo dentro das relações, o respeito mútuo e o autocuidado.
Em uma das frases mais fortes durante a entrevista que deu a Marie Claire em junho daquele ano, ela falou sobre a decisão: "Meu instinto de sobrevivência me fez querer me separar, mesmo eu estando com câncer, porque não estava me fazendo bem. E é machista achar que preciso ficar casada para ser cuidada", disse. "Por que o marido é mais importante que a mãe, o pai, a irmã, o amigo? Isso é um traço do patriarcado, que coloca essa importância tão grande no homem."
Como uma porta-voz da 'beleza real'
Uma mulher negra, bissexual, gorda sofre com várias camadas de discriminação. Preta Gil foi, para muitas das pessoas que vivem na pele o preço desses recortes sociais, uma figura pública com essas características e que, justamente por carregá-las, sabia se celebrar. Ícone fashion, por vezes ela foi às redes sociais para se mostrar feliz e realizada usando looks extravagantes, biquínis e maiôs. Dialogou, nesse sentido, com os termos da "beleza real", exigindo mais inclusão e diversidade também nos segmentos da moda e da beleza.
"A minha relação com a moda nem sempre foi de amor, mas de dor. A moda sempre pareceu algo para corpos magros e brancos e isso nos é imposto pela sociedade. Muitas marcas não chegam nem ao 44, imagina quem usa 46 ou mais de 50", disse, a Marie Claire, ao lançar à época uma coleção de moda praia com uma loja de departamento brasileira.
Revolucionária, lidou com as vulnerabilidades pessoais entendendo que muitas dessas questões são coletivas. Por isso mesmo, revelou que a relação com o feminismo se deu quando ela começou a se respeitar e a se unir a outras mulheres "contra qualquer tipo de injustiça ou discriminação". "A mulher demorou para adquirir direitos básicos como o de votar por exemplo, ainda há questões fundamentais a serem vistas e essa agenda não está na mão de ninguém além de nós mesmas. Estamos vivendo um momento em que essa união das mulheres é fundamental para avançarmos em questões que já deviam estar estabelecidas na sociedade faz tempo."









