O que pode acontecer quando mulheres com a influência de Luísa Sonza quebram o silêncio sobre a dor da traição?
Em entrevista a Ana Maria Braga no Mais Você, a cantora anunciou o fim do namoro com Chico Moedas e revelou que foi traída por ele, o que causou comoção nas redes e além delas. Ao contrário de ceder ao silêncio e ao constrangimento, Luísa escolheu tornar pública a infidelidade masculina para dar a volta por cima. Mas o que isso causa para além da indústria da fofoca? Pode Luísa inspirar uma mudança de paradigma quanto às mulheres e o amor romântico?
Por Camila Cetrone e Manuela Azenha, redação Marie Claire — São Paulo
Enquanto tomava café da manhã para engrenar mais uma quarta-feira normal, o brasileiro se deparou com Ana Maria Braga, uma das figuras mais importantes da televisão nacional, debulhada em lágrimas. Quem provocou a reação foi Luísa Sonza, ao ler uma carta aberta que escreveu para anunciar que, depois de quatro meses de um amor público com Chico Moedas, estava solteira. E não só: o rompimento só aconteceu porque Luísa foi traída pelo ex.
"É insuportável que a traição, a quebra de combinado, respeito, confiança, zelo e cuidado continuem sendo normalizadas. Um erro pontual. Só quem já foi traída sabe o que se sente, a dor que se acarreta a o que se chama de erro pontual. Da autoestima destruída, da dúvida, da insegurança que algo assim causa”, diz uma parte do monólogo de Luísa no programa Mais Você, da TV Globo.
Ao levar a traição para a televisão, Luísa deixou transparecer para milhares uma situação que, para a maioria, causa vergonha, arrependimento, raiva e ego doído; um acontecimento privado que seria preferível esconder para o resto da vida do que fazê-lo um outdoor.
Por um lado, recebeu julgamentos. Foi chamada de "precipitada", “afobada” e "emocionada" por ter escrito uma música para ele com tão pouco tempo de relacionamento – segundo ela, a faixa foi composta quando se conheciam há um mês. Outras pessoas viram a ação como o melhor do marketing de entretenimento – teve até tuíte relacionando o álbum "Escândalo Íntimo" e suas músicas com os dramas pessoais de Luísa. E houve ainda quem pedisse para que a cantora “se preservasse”. Por outro lado, mulheres que passaram pela mesma situação balizaram a fala sincera da artista, e a coragem de trazê-la à televisão.
“A infidelidade dos homens é uma queixa antiga das mulheres, mas é ainda uma normativa em nossa sociedade. A novidade [que se dá a partir do pronunciamento de Luísa] está no fato de uma cantora pop muito famosa utilizar da mídia para divulgar a sua dor. Essa dor cria conexão pois toca em um ponto sensível para a experiência feminina: o amor e a traição”, diz Lígia Baruch, doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autora do livro Tinderellas – O Amor na Era Digital (Ed. e-galáxia, 199 págs., R$ 24,90).
A psicóloga e psicanalista especialista em violência social Natália Parolin complementa: "Se antes a mulher era vista como responsável pela traição do parceiro, agora, com falas como a de Luísa, oferece-se um deslocamento de responsabilidade para o traidor. Mais que isso, ao revelar a traição há a possibilidade de se falar. Não são todas que foram traídas que falarão, mas o fato de uma mulher poder fazer isso é resultado de toda uma luta feminista.”
Até uma semana atrás, a cantora de 25 anos, que vive agora um auge de sua carreira, e o ex, de 27, eram os “namoradinhos do Brasil”. Por mais que fosse conhecido graças a suas aparições no canal do YouTube de Casimiro, Chico nunca foi tão falado como nos últimos tempos. A grande atenção em torno de sua pessoa foi apontada como motivo pelo término – seja pelos fãs da cantora, enlouquecidos pela história de amor; seja pelo fato dele ter ganhado uma música com seu nome no terceiro álbum dela, Escândalo Íntimo, que alcançou as paradas globais e é, neste momento, a música mais escutada do Brasil.
A revelação da traição acontece após os dois protagonizarem um namoro nada íntimo. Chico acompanhou a então parceira em grande parte de sua agenda – incluindo o festival The Town –, participou de podcasts em que falou do relacionamento (sozinho e acompanhado dela) e chegou a participar do programa Altas Horas com ela. Nas redes sociais, houve especulações sobre quanto tempo um namoro com uma chama tão intensa e tão exposta poderia durar.
Até o momento, Chico não se pronunciou sobre o assunto. O que fez foi desativar sua conta do Instagram.
Para Renata Correa, ativista feminista, escritora e roteirista, a infidelidade masculina sempre foi tolerada e até mesmo incentivada pela nossa sociedade. “O esperado das mulheres que são traídas é a contenção, o recato e o perdão.” Por outro lado, os homens podem se calar e continuar desempenhando esse comportamento.
“Falar abertamente sobre o rompimento dos acordos afetivos e amorosos com homens é uma conquista recente das mulheres. Inverte uma lógica injusta onde a culpa e a vergonha recai sobre a mulher traída e que o homem é apenas pegador, machão e que isso seria natural do comportamento masculino. Verbalizar a dor e poder reagir a um comportamento desleal é legítimo”, continua.
Há menos de um mês, a atriz Bella Campos falou sobre esse acovardamento ao comunicar o próprio término com o cantor MC Cabelinho, que a teria traído com uma ex-ficante em Belo Horizonte. "Os homens, de uma forma geral, são isentados desse questionamento. E nós, mulheres, precisamos sempre nos explicar. Se vamos casar, ter filhos, nos separar.” Falar da traição não estava em seus planos, mas a intensa repercussão pública a obrigou a se posicionar.
“Hoje vocês não vencem. Hoje, eu quebro o ciclo pela minha mãe, por minhas tias, por todas as mulheres que eu vi a minha vida inteira sendo traídas e muitas vezes não tinham nem para onde ir, tendo que ficar com um traidor dentro de casa. Hoje, eu me escolho, mesmo que me doa, mesmo que por vezes eu não queira, mesmo ainda te amando, hoje eu me protejo e não vou te proteger”, diz Luísa em outro trecho da carta.
A vida pública e a independência das mulheres – financeira e emocional – só é uma possibilidade mais concreta em tempos relativamente recentes e, até hoje, para poucas.
“A posição de poder de Luísa é muito diferente – ainda bem! – das mulheres de antigamente que eram obrigadas a permanecer em relações falidas por falta de alternativas. Graças ao feminismo e a luta por equidade salarial, elas só ficam em relações se quiserem ficar”, diz Baruch.
"Na nossa cultura, homens aprendem a amar muitas coisas e as mulheres, a amar os homens", foi como definiu Valeska Zanello, psicóloga, filósofa e coordenadora do grupo de estudo Saúde Mental e Gênero, do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB), em entrevista a Marie Claire em 2021. Essa condição é um aparato que condena as mulheres a uma dependência emocional, que acaba em submissão e as coloca enquanto objeto da masculinidade – e reféns de maus comportamentos. Afinal, mesmo com mais liberdade, muito da vida das mulheres ainda gira em torno das relações amorosas — principalmente as heterossexuais monogâmicas.
Em agosto, Luisa e Chico falaram longamente ao podcast PodDelas sobre o relacionamento recém-assumido. Na ocasião, a cantora contou que assistiu a uma entrevista de Chico, no podcast Match Coins, gravado em maio, e imediatamente se apaixonou. Na hora, diz ela, teve certeza de que Chico seria seu próximo namorado. Logo perguntou a amigos quem era o entrevistado e escreveu para ele no Instagram: “Acho que temos algo em comum."
Dias depois, Luisa convidou Chico para um primeiro date: um show de Caetano Veloso – o qual ele quase não foi porque na véspera disse que estava cansado e precisava dormir. Enfurecida, Luísa então enviou um áudio exigindo que Chico a encontrasse – e ele foi. “Sou camisa 10, atacante”, anunciou a cantora enquanto batia no peito, ressaltando que o namoro começou graças à insistência dela.
O episódio pode ser encarado de duas formas. Uma jovem mulher dona de seu desejo, destemida, que vai atrás do que quer. Ou estaria ela projetando uma fantasia romântica e ignorando os sinais de que todo esse investimento emocional já não estava sendo correspondido? No X (ex-Twitter), chamariam isso de red flags não identificadas.
Com o avanço das conversas sobre emancipação das mulheres – o que envolve também uma emancipação emocional, em que elas não depositem as esperanças de suas felicidades nos homens e nas relações amorosas –, a discussão pública pautada pelas famosas sobre este assunto carrega o recado de que traição dói, sim, mas não precisa ser o fim. E não precisa ser algo que anule toda a sua dignidade. É possível a volta por cima e a autovalorização.
Em 2016, Beyoncé – apenas uma das mulheres mais importantes do mundo atual – dedicou parte de seu político álbum "Lemonade" para falar das traições do marido, o rapper Jay-Z. Foi sua maneira não só de acabar com as dúvidas de que uma infidelidade tomou conta de seu casamento, mas de expor que até ela, que está em um pedestal inabalável, precisou lidar com isso.
“Olhando para o meu relógio, ele deveria estar em casa / Hoje me arrependo da noite em que coloquei aquele anel / Ele sempre dava desculpas para eles / Peço ao Senhor que revele qual é a verdade dele”, Queen B canta em Sorry.
2023 foi um ano em que o público assistiu as narrativas das mulheres traídas que não querem ser definidas por esse momento de suas vidas, mas pela forma como saíram ainda mais fortes. Miley Cyrus pode comprar suas próprias flores. Shakira diz que uma loba como ela não é para tipos como Piqué. E SZA transformou em música a vontade de matar o ex.
Não devemos ser ingênuas: é claro que, sendo personalidades públicas cuja vida privada é de grande interesse, o lucro está entre um dos principais proveitos que querem tirar desta exposição. Por outro lado, se há uma indústria inteira que de qualquer jeito vai lucrar com suas tragédias pessoais até o surgimento do próximo assunto, não seria justo elas terem um pedaço disso?
Mais do que lucro, o silêncio do outro lado as permite que tomem poder sobre suas próprias narrativas. Por que não relembrar Preta Gil, que enquanto tratava de um câncer agressivo foi deixada pelo ex-marido, envolvido com a própria stylist de Preta.
"Por mais que não estivesse bom até então, e por mais que eu tenha decidido separar… A decisão foi minha, mas já estava acabando. O casamento não superou um tratamento oncológico. Não é tão pragmático. A gente fica tentando justificar. Existem nuances em uma separação tão sofrida como foi a minha. A gente não conseguiu passar por isso”, Preta contou a Marie Claire em junho.
“Cabe pensar que Luísa Sonza e essas outras personalidades, por serem pessoas públicas, poderiam ser expostas por outras pessoas. Pegar a narrativa para si também é uma forma de se cuidarem", diz Natália Parolin.









