Manuela Cantuária: 'Temos muito a aprender com homens medíocres'
Para uma mulher, baixar o sarrafo e fazer as pazes com a mediocridade pode ser o começo de uma transformação revolucionária. É o que afirma a roteirista Manuela Cantuária em artigo exclusivo para Marie Claire. segundo ela, silenciar a voz interna e implacável de que nunca somos boas o suficiente é um esforço que vale a pena
Por Manuela Cantuária, em colaboração para Marie Claire
O que estou prestes a dizer pode custar minha carteirinha de feminista. Temos muito a aprender com os homens medíocres. Refiro-me aos homens que vivem em completa harmonia com a mediocridade. Um comportamento bem mais raro entre mulheres, que, compelidas a dar sempre o seu melhor, nunca sentem que é o suficiente.
Tenho um vizinho que responde aos meus cumprimentos sempre da mesma maneira: “Por aqui tudo mais ou menos, graças a Deus!” Já são anos de convivência e não consigo me acostumar com esse bordão, capaz de transformar uma despretensiosa conversa de elevador em um dilema existencial. A paz terrível desse homem me parece impenetrável. Afinal, mais ou menos nunca é bom. Mesmo que o significado seja “nem bom, nem ruim”, mais ou menos sempre é ruim. Equivale a medíocre, mediano, nhé, morno. Como alguém consegue aceitar isso de bom grado sem baixar o sarrafo, encurtar a régua, flexibilizar os critérios, desistir de tudo?
Mas fazer as pazes com a mediocridade não é se contentar com migalhas. Para uma mulher, é um luxo, um privilégio, um mimo. Silenciar a voz interna e insistente de que deveríamos ter nos esforçado mais: esse sim é um esforço que vale a pena. Até porque essa voz nos acompanha até quando nos esforçamos ao máximo.
Sabemos que essa sensação é reflexo da desigualdade de gêneros, de um sistema dominado por homens medíocres. Insisto que eles podem ser uma inspiração para mudar esse estado de coisas, seguindo a lei do mínimo esforço. Não precisamos nem sair do lugar para invadir a sede do patriarcado, porque ela fica dentro de cada uma de nós.
Demoramos a notar a presença desse elefante branco na nossa sala de cristais, já que nosso foco inabalável está sempre na desvalorização à nossa volta, do lado de fora. Um fenômeno observável pela disparidade salarial, pela falta de representatividade em cargos de comando, por leis e dogmas religiosos, estereótipos femininos reproduzidos sistematicamente e culturalmente, e outras inúmeras circunstâncias tanto brutais quanto sutis, que resultam em frustrações em todas as esferas da nossa vida.
Ainda assim, essa cobrança externa não é tão poderosa quanto a nossa cobrança interna, onipresente e implacável. A maior vitória do patriarcado não é seu domínio sobre o mundo exterior, e sim sobre nosso mundo interior. E é por isso que não conseguimos encontrar essa tal sede no Google Maps. Ela encontrou seu esconderijo perfeito, dentro de cada mulher, onde sua influência se torna muito mais potente. O que estou prestes a dizer pode custar minha carteirinha de feminista – se já não a perdi. Não adianta se revoltar. Tentar expulsá-los no grito não vai trazer resultados. Eles vão alegar direito a usucapião. Estão lá desde que nos entendemos por gente.
Explodir essa sede com uma bomba seria ainda mais desastroso, porque implodiríamos junto com ela. Essa bomba precisa ser desarmada com sutileza e autocuidado. É mais fácil admitir que estamos cansadas de lutar contra tudo e todos, especialmente contra nós mesmas.
E entrar nessa sede assim, como quem não quer nada. Até porque queremos o básico, o medíocre: a autoestima de um homem heterossexual branco de classe média alta. É irônico que nossa paz interior esteja escondida a sete chaves justo nessa sede. Ela é o problema e a solução. É nesse mesmo movimento interno, em que assumimos o poder que ela exerce sobre nós, que esse poder começa a se enfraquecer.
Então, sejamos práticas. Vamos até o fim desses corredores embolorados para encarar o fato de que não somos perfeitas, de que jogamos o mesmo jogo sujo de homens medíocres quando nos desvalorizamos, e até quando os valorizamos. Vamos nos permitir usar tudo aquilo que nos sabota ao nosso favor.
O risco de nos perdermos nesse labirinto é imenso. Precisamos passar direto pelos setores de Carências Afetivas, Rivalidade Feminina, Complexos Paternos, Traumas, Medos & Gatilhos, pelo Salão de Troféus Dedicados a Homens Medíocres etc. Foco no cofre. E esse cofre está no setor de Autocobrança.
O que estou prestes a dizer não vai custar minha carteirinha de feminista, porque para chegar aonde chegamos é preciso ter aberto mão dela há muito tempo. Aceitar que somos mais ou menos feministas – já que, apesar do discurso, ainda não nos valorizamos como deveríamos – é o primeiro passo para virar esse jogo.
É por isso que quando encaramos, enfim, nossas autocobranças, precisamos baixar o sarrafo. Jogar o jogo dos homens medíocres e se contentar com o básico. O setor de Autocobrança não vai nos conceder, de mão beijada, o que chamamos de empoderamento, amor-próprio e paz interior. Reivindicar isso logo de cara vai gerar uma série de conflitos internos e demandar uma baita burocracia.
Se o patriarcado nos subestima, vamos nos aproveitar disso e reivindicar o direito à mediocridade. Do outro lado do guichê, a surpresa: só isso? Tantas pautas mais urgentes, e essa é a prioridade? Sim, é só isso, mesmo. Obrigada e uma boa tarde.
Nada pode ser mais libertador para uma mulher do que a ideia de que ela não precisa agradar a todos nem provar nada para ninguém o tempo todo. De que ela pode se contentar com o que tem, com o que dá para fazer, de vez em quando. De que ela pode ser feliz sendo quem ela é. A ideia de que ela pode celebrar suas vitórias, aprender com as derrotas e relaxar quando estiver tudo meio morno. Não necessariamente morno como um relacionamento sem libido sobrevivendo por aparelhos, e sim morno como as águas do litoral da Bahia.
Pegando o gancho do litoral baiano, onde pretendo celebrar o fim de um ano bem mais ou menos, convido-as a pensar em uma resolução de ano novo que não seja uma lista de cobranças. Pode até ser uma lista, mas você precisa estar em primeiro lugar. Boa virada.









