Todo aborto é uma emergência
Com a Suprema Corte dos Estados Unidos prestes a decidir sobre um importante caso de aborto por medicamentos, ainda mais grávidas no país estão em risco de serem negadas cuidados de saúde reprodutiva
Por Danielle Campoamor, de Marie Claire dos EUA, com tradução de Manuela Azenha, de Marie Claire Brasil
Já se passou mais de um ano desde que a Suprema Corte dos Estados Unidos revogou o caso Roe v. Wade, e nesse tempo, inúmeras histórias de mulheres sendo negadas cuidados médicos relacionados ao aborto, mesmo diante de ameaças à sua saúde — e até mesmo à suas vidas — vieram à tona.
Houve a mulher que passou quase uma semana na UTI depois de ter sido negado um aborto para uma gravidez inviável que a deixou séptica e, como ela descreveu, "à beira da morte". A mulher que foi recusada por médicos em Oklahoma, EUA, mesmo sabendo que tinha câncer gestacional e provavelmente a mataria.
[Nota de Marie Claire Brasil: o câncer no interior do útero é considerado gestacional se detectado durante a gravidez ou durante a lactação até um ano depois do parto]
A mãe de dois filhos de 31 anos que mora no Texas, que processou seu próprio estado para obter um aborto para uma gravidez inviável [quando não há possibilidade do bebê sobreviver] que ameaçava não apenas sua saúde, mas também sua futura fertilidade. A Suprema Corte do Texas, no final, decidiu contra a mãe, que, após várias idas à emergência, foi forçada a viajar para outro lugar para realizar o aborto.
Os abortos nesses casos são frequentemente descritos como "abortos de emergência". De alguma forma, a linguagem sugere que esses procedimentos são diferentes — talvez até mais "morais" ou "éticos" — do que um aborto obtido por uma pessoa grávida que não está enfrentando uma emergência médica, mas que simplesmente não deseja continuar grávida.
Mas agora que a Suprema Corte concordou em analisar um importante caso de aborto por medicamentos que poderia eliminar o acesso ao que é frequentemente chamado de "pílula do aborto" — medida de cuidado para aborto mais utilizada nos Estados Unidos — é preciso repetir que todo aborto é um aborto "de emergência".
E embora certamente existam situações em que um aborto precisa ser realizado com mais urgência — especificamente porque as circunstâncias são uma questão de vida ou morte —, cada vez que a alguém é negado o cuidado relacionado ao aborto, a vida que estavam vivendo ou planejavam viver é posta em perigo.
Num país que afirma defender e proteger o direito universal à "vida, liberdade e busca da felicidade", qualquer situação que deixe uma pessoa grávida necessitando de cuidados com o aborto é urgente — a impossibilidade de acessar esse cuidado, catastrófica.
De acordo com as Nações Unidas e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, cada minuto em que um governo obriga alguém a permanecer grávida quando não deseja é uma violação dos direitos humanos. E essa violação causa danos reais e duradouros.
Quando descobri que estava grávida inesperadamente, meu namorado e eu estávamos bebendo demais e tentando lidar com uma série de problemas reais de relacionamento: infidelidade, uma incapacidade flagrante de se comunicar, problemas de confiança, explosões de raiva. Nossa decisão de interromper a gravidez foi quase imediata, como se o teste de gravidez positivo jogasse luz sobre as inúmeras razões pelas quais não poderíamos — e não deveríamos — estar juntos.
Cada segundo em que eu estava grávida sem querer sentia como um ataque à minha pessoa e uma ameaça legítima ao meu futuro. Tinha planos que não incluíam ser mãe em um ambiente prejudicial e tóxico. Sabia que não poderia ficar amarrada a esse homem pelo resto da minha vida por meio de uma criança pela qual nenhum de nós estava pronto, capaz ou disposto a cuidar.
Mas e se não tivesse dinheiro suficiente para o procedimento? E se fosse recusada por algum problema imprevisto que ainda não havia considerado? Estava ansiosa, deprimida e desesperada para encerrar a gravidez o mais rápido possível. Para mim, o aborto era uma emergência.
Felizmente, consegui ter acesso ao cuidado que não apenas queria, mas precisava. E devido à sorte de simplesmente viver em um estado que protege o acesso ao aborto, não estava mais grávida algumas semanas depois.
Faço parte de um grupo privilegiado que pode obter um aborto sem enfrentar barreiras desnecessárias e cruéis ao cuidado — um grupo que está diminuindo em um mundo pós-Roe, onde 24 estados proibiram o cuidados médicos para abortar ou têm a intenção de fazê-lo. Mais de 25 milhões de mulheres com idades entre 15 e 44 anos vivem em um estado onde existem mais restrições ao aborto do que antes da queda de Roe — cerca de duas em cada cinco mulheres nacionalmente. Agora, quase uma em cada cinco mulheres nos EUA é forçada a viajar para outro estado para realizar um aborto.
E ainda, de acordo com o estudo Turnaway realizado por pesquisadores da UC San Francisco, quando uma pessoa não consegue ter acesso a um aborto, é mais provável que ela enfrente complicações na gravidez, mantenha contato com um parceiro violento e não tenha dinheiro suficiente para cobrir despesas básicas de vida, como alimentação e moradia.
O dano psicológico de ser negado um aborto também é inegável. Conforme afirma a Associação Americana de Psicologia (APA), décadas de pesquisa mostram claramente que, quando o aborto é proibido ou dificultado de obter, a saúde mental das pessoas grávidas é prejudicada.
"Rigorosas pesquisas psicológicas de longo prazo demonstram claramente que as pessoas que são negadas abortos têm mais chances de experimentar níveis mais altos de ansiedade, menor satisfação com a vida e menor autoestima em comparação com aquelas que conseguem obter abortos", escreveu o presidente da APA, Frank C. Worrell, em um comunicado após um rascunho da decisão da Suprema Corte no caso Roe v. Wade ser vazado para a imprensa no início de 2022.
Negar a uma pessoa grávida um aborto seguro também prejudica seus membros familiares. A maioria das pessoas que buscam aborto já tem pelo menos um filho em casa — já são pais — e, de acordo com o mesmo estudo Turnaway, quando são negadas abortos, os filhos que já têm mostram pior desenvolvimento infantil do que seus colegas e têm mais probabilidade de viver abaixo da linha de pobreza.
Para as crianças de quem busca aborto, um aborto é uma emergência. Para a mulher cuja vida está em perigo, um aborto é uma emergência. Para a mãe sobrecarregada de dois filhos conciliando trabalho e maternidade, um aborto é uma emergência. Para o casal que só quer aproveitar a vida de recém-casados antes de expandir a família, um aborto é uma emergência.
E para uma jovem em um relacionamento prejudicial, um aborto foi uma emergência.









