Power Trip Summit

Por Camila Cetrone


Yasodara Cordova, pesquisadora da Unico e ativista de privacidade, Heloisa Massaro, diretora na InternetLab, e Carla Vieira, engenheira de dados e pesquisadora em inteligência artificial — Foto: LuPrezia e KenjiNakamura
Yasodara Cordova, pesquisadora da Unico e ativista de privacidade, Heloisa Massaro, diretora na InternetLab, e Carla Vieira, engenheira de dados e pesquisadora em inteligência artificial — Foto: LuPrezia e KenjiNakamura

Os avanços tecnológicos trouxeram diversas facilidades para a vida moderna, mas o compartilhamento de dados pessoais escancarou um novo problema ao qual é necessário aprender a lidar: a privacidade digital. Em uma sociedade patriarcal, as mulheres podem estar mais vulneráveis a ciberataques, que podem ter consequências severas que vão além da tela.

Esse foi o tema discutido na mesa “A Privacidade em Nossas Experiências Digitais” durante o Power Trip Summit 2022. Mediadas por Natacha Cortêz, editora-executiva de Marie Claire, participaram do encontro Yasodara Cordova, pesquisadora da Unico e ativista de privacidade, Heloisa Massaro, diretora na InternetLab, e Carla Vieira, engenheira de dados e pesquisadora em inteligência artificial.

Yasodara explica que a privacidade digital é o poder de uma pessoa sobre a representação de seus dados e o controle que se tem sobre a própria imagem e corpo. "Se você estiver em uma sala com seus amigos, você está seguro, mas não necessariamente vai se sentir à vontade para tirar a roupa", exemplifica sobre o conceito.

Heloisa explica que o conceito de privacidade digital foi mudando conforme as novas tecnologias foram surgindo e avançando. Por serem criadas e pertencentes à sociedade, serão refletidas as questões que são vividas no mundo offline. Diante disso, as mulheres, entre outras minorias, são as mais expostas.

"Quando estamos falando de uma sociedade estruturalmente discriminatória com as mulheres, essas tecnologias vão ser construídas nessa sociedade e viver nela", diz Heloisa. Carla complementa que a falsa ideia de que a internet é um espaço público fomenta esses ataques. "As pessoas têm esse jargão de que, se está na internet, é público. Não é bem assim."

Não à toa, o vazamento de dados é o medo de 75% das mulheres brasileiras, segundo pesquisa realizada pelo laboratório especializado em segurança digital da PSafe em 2021. Entre os ciberataques mais comuns realizados contra as mulheres estão criação de perfis falsos, clonagem de redes sociais, chantagens e ameaças – mas, principalmente, a divulgação de fotos e vídeos íntimos sem consentimento.

O motivo para tanto medo, Yasodara explica, é a sensação de insegurança devido à maneira não cuidadosa como esses dados são distribuídos. "É o medo de ter seus dados usados de maneira errada para fazer atos ilícitos. A gente vê muitas histórias de mulheres que tiveram a conta invadida por vingança, muitas vezes porque compartilharam as senhas das redes sociais e aí ela é invadida", diz.

Heloisa explica que, conforme a necessidade por privacidade digital avançou, a legislação foi se adaptando para garantir a proteção de dados. Os principais exemplos são o Marco Civil da Internet (Lei n° 12.965/2014) e Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei n° 13.709/2018). No entanto, a Lei Maria da Penha enquadra casos de exposição de imagens íntimas de mulheres desde 2018 – mas a diretora na InternetLab afirma que isso sequer era feito.

"A situação não era vista como violência que se enquadra na lei. O tipo de crime no qual se enquadrava era contra a honra dentro do Estatuto do Direito de Privacidade. Nem se falava de crime sexual."

Yasodara Cordova, pesquisadora da Unico e ativista de privacidade, Heloisa Massaro, diretora na InternetLab, e Carla Vieira, engenheira de dados e pesquisadora em inteligência artificial, e Natacha Cort^z, editora-executiva de Marie Claire — Foto: LuPrezia e KenjiNakamura
Yasodara Cordova, pesquisadora da Unico e ativista de privacidade, Heloisa Massaro, diretora na InternetLab, e Carla Vieira, engenheira de dados e pesquisadora em inteligência artificial, e Natacha Cort^z, editora-executiva de Marie Claire — Foto: LuPrezia e KenjiNakamura

Como se proteger

Yasodara explica que a proteção de dados digitais caminha ao lado da identidade digital, que é a representação de uma pessoa na internet. Trata-se de uma representação online em que se armazena dados como senhas e números de cartão de crédito, por exemplo, e pode ser usada para verificar a própria identidade.

“A identidade digital está muito relacionada com a privacidade porque vai de uma certa maneira moldar negócios de empresas para respeitar a privacidade das pessoas. Quando se pensa nisso, começa-se a separar os dados, armazená-los e protegê-los de uma maneira muito eficiente”, explica a pesquisadora da Unico.

Heloisa, Clara e Yasodara indicam ainda que, além de buscar por cartilhas com informações, buscar autenticação de dois fatores e evitar usar e-mail no celular, é importante democratizar a forma de comunicar sobre proteção de dados e tornar o assunto interessante para a população em geral.

Pensando nisso, a Unico criou uma campanha para conscientizar sobre a necessidade de cuidar da privacidade de dados. "Fizemos uma pesquisa em 2021 e descobrimos que as pessoas tinham um certo desânimo com relação à privacidade. Elas tinham uma visão de que não tinham como impedir os dados de passearem por aí e que tudo bem, assim é a vida, infelizmente. Então, elas se sentiram sem poder para controlar onde estavam os dados e questionar, não entendiam muito bem o conceito. A gente pediu para fazer a campanha para deixar as pessoas mais conscientes de sua privacidade e decidimos fazer uma nova pesquisa para entender melhor quais eram as principais preocupações das pessoas", conta Yasodara.

"É interessante que a gente pesquisou os centros do Brasil e descobrimos que as mulheres se preocupam mais com privacidade do que os homens por vários motivos. Começa com insegurança. Você se sente exposta quando tem seus dados distribuídos de maneira não cuidadosa. Há um pouco do medo de ser fraudado, medo de ter dados usados de maneira errada, para fazer inúmeros atos ilícitos. Então, além da questão da segurança pessoal, que é muito importante, a gente vê muitas histórias de mulheres que tiveram a conta invadida por vingança", continua.

"Muitas vezes elas compartilham senha das redes sociais com namorado ou com filho (não façam isso, jamais). E aí aquela conta é invadida,é tomada. Então a gente sentiu que tem essa insegurança, que é muito latente. Parte do desejo da Unico é ensinar a tecnologia a guardar segredo. Então, a gente entende que existem três maneiras de se guardar a privacidade no ambiente digital. A primeira é não coletar dados – só que aí você não presta serviço, e a gente não quer ficar fora da Internet por ser mulher. A segunda é coletar o dado e cuidar dele, e é isso que a Unico faz. A terceira é coletar o dado e nem ficar com esse dado. A gente vai se valer de técnicas novas de tecnologia, que têm a ver com a temática e a segurança, técnicas de criptografia e proteção de dados ao extremo. É nesse futuro que a gente quer chegar."

A 8ª edição do Power Trip Summit é uma realização de Marie Claire, com patrocínio de Magalu, Alexa, Claro, Merz Aesthetics e O Boticário. Apoio de Ornare e Blue Note.

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