Vanda Witoto sobre eventos climáticos extremos: ‘Resultado de escolhas políticas’
A líder indígena e a ativista Kamila Camilo abordaram a necessidade de criação de políticas ambientais eficazes na 10ª edição do Power Trip Summit, em Belo Horizonte
"Falar sobre natureza é uma conversa se todo mundo", afirma a empreendedora social e ativista Kamila Camilo na 10ª edição do Power Trip Summit, em Belo Horizonte. Ela e a líder indígena e também empreendedora social Vanda Witoto abordaram a crise climática – incluindo o evento climático extremo que acontece agora no Rio Grande do Sul – e a necessidade de criar e implementar políticas ambientais eficazes no país.
"De qual lado vocês querem estar? É melhor estar do lado do planeta. A Terra nunca desistiu da gente", continuou Camilo. Entrevistadas por Maria Rita Alonso, diretora de Marie Claire, Camilo e Witoto alertaram que as mudanças climáticas já não são uma previsão distante, mas uma realidade atual, consequência direta da atividade humana, mas também da falta de priorização por parte do poder público.
“A primeira coisa que estamos fazendo errado é ignorar a ciência, especialmente as pessoas tomadoras de decisão. O negacionismo brasileiro é mais sofisticado porque flerta com o racismo estrutural, que negamos de forma discreta”, afirma a ativista.
Ela também cita como más políticas que contribuem para o acontecimento de eventos climáticos extremos a persistência na produção de combustíveis fósseis, a não demarcação de terras indígenas e a não preservação de terras quilombolas.
Witoto afirma que há um problema muito maior ao se pensar no enfrentamento dos desafios climáticos desse momento, que é “o tipo de liderança política que elegemos enquanto sociedade para tomarem decisões pelo país”.
“O desafio que estamos enfrentando hoje é resultado das nossas escolhas políticas. A violência contra os territórios indígenas historicamente promovida por vários tipos de governos é o fruto que colhemos dessa política contra os direitos, sobretudo desses povos originários que vai refletir na retirada desse território na degradação do meio ambiente”, afirmou a liderança indígena.
“O Congresso do nosso país continua fragilizando mecanismos de proteção ambiental, por exemplo, criando lei da tese do marco temporal ou retirando a função de demarcação de terras indígenas da Funai [Fundação Nacional dos Povos Indígenas] e do Ministério dos Povos Indígenas. Enquanto o Congresso do nosso país tiver a maior bancada ruralista, não teremos políticas ambientais de demarcação e preservação de terras indígenas. A questão climática é uma questão política, e é importante elegermos pessoas comprometidas com essa pauta para construir”, continuou.
Witoto também afirmou que é necessário dar atenção para eventos climáticos extremos que acontecem em outras regiões do país, sobretudo no Norte e Nordeste do país, há muito tempo. Ela cita, por exemplo, o fato de a população amazônida ter enfrentado a pior seca histórica em 130 anos de Amazônia.
“Não tivemos mobilização nacional por nossas vida, da imprensa, para problematizar os impactos a essas vidas na Amazônia – sobretudo das nossas comunidades indígenas. Tem corpos e regiões que merecem e serão olhados, e têm corpos e regiões que não vão ser olhados. Temos que abrir mais nossa mente”, ponderou.
Sobre a 10ª edição do Power Trip Summit
O principal encontro de líderes mulheres do Brasil, o Power Trip Summit, promovido por Marie Claire com patrocínio master do Banco do Brasil, patrocínio de L’Oréal Paris, Vivo e Dove, apoio do Magalu, Musquée, Mastercard, Liftera e MSD, parceria educacional da MUST University, apoio institucional do Instituto Inhotim, participações de Oshadi e Dior e parceria editorial da Pantys. Foi realizado nos dias 26, 27 e 28 de maio, no Hotel Fasano Belo Horizonte, em Minas Gerais.
Em sua 10ª edição, o evento aborda o tema “Visionárias” e reuniu na plateia executivas, CEOS e líderes da sociedade civil nos campos dos negócios, cultura, beleza, moda, política, ciência e tecnologia. O Instituto Inhotim, sede de um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil e o maior museu a céu aberto do mundo, foi parte da agenda.









