Power Trip Summit
Por
Ana Serra
, redação Marie Claire — de Salvador (BA)

A história de Ângela Diniz, assassinada em 1976 pelo então namorado Doca Street, voltou ao debate público nas últimas décadas como um marco na luta feminista no Brasil. O caso, que escancarou o machismo estrutural do sistema judiciário ao aceitar a tese da "legítima defesa da honra", ganha agora uma nova interpretação com a série baseada no podcast Praia dos Ossos, protagonizada por Marjorie Estiano.

Marjorie já era admiradora do podcast original e do trabalho da jornalista Branca Vianna antes mesmo de ser escalada para o projeto televisivo. Na sua participação durante a 11ª edição do Power Trip Summit, em uma mesa com Silvia Chakian, promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, e mediada por Natacha Cortez, editora-chefe de Marie Claire, ela afirma que os debates trazidos pela narrativa são essenciais para a sociedade e permanecem atuais. "São 6 episódios, que vão falar da vida da Ângela, do assassinato e do impacto que isso teve na vida das mulheres em geral. Ela foi uma mulher que vivia da maneira e de acordo com o que ela queria. Enfrentava os homens, não tomava para si a autoridade masculina e esse, inclusive, foi o gatilho do assassinato, na minha opinião. O que mais atordoa os homens é e era não ter domínio, a mulher não aceitar ser propriedade dele."

Feminicídio, Justiça e o avanço da pauta de gênero

Marjorie Estiano e Silvia Chakian ao lado da editora-chefe de Marie Claire na 11ª edição do Power Trip Summit — Foto: Paula Fróes
Marjorie Estiano e Silvia Chakian ao lado da editora-chefe de Marie Claire na 11ª edição do Power Trip Summit — Foto: Paula Fróes

Ao lado de Silvia Chakian, a conversa trouxe luz não apenas ao crime, mas ao processo de transformação social e jurídica necessário para garantir liberdade e equidade às mulheres. "O machismo estrutural da nossa sociedade é refletido no sistema de justiça na história de Ângela Diniz, essa é a importância desse julgamento", afirmou a promotora. "Essa história de que matou por amor não poderia ser mais tolerada e o movimento feminino foi muito grande para mudar essa realidade."

A promotora destacou a importância da tipificação do feminicídio. "A gente precisa enaltecer esse avanço de verbalizar a figura feminicídio sempre. A morte feminina no Brasil se dá pela violação das leis do patriarcado, subvertendo a lógica de subordinação que ele impõe e afrontando o poder masculino."

Apesar dos avanços, ambas reforçam que há muito a ser feito. "É muito doloroso ver uma denúncia de assédio e ter um monte de comentários de mulheres criticando quem denunciou", desabafou Marjorie. "É uma mentalidade machista daquela mulher, que foi educada em uma sociedade patriarcal."

Silvia ainda complementou com um alerta importante. "Quando dizemos que queremos mulheres nos espaços de poder, queremos quem tem a pauta de gênero como prioridade. Já vimos mulheres nesses lugares sem esse compromisso e o estrago que isso faz. Por isso, mesmo em tempos difíceis, precisamos continuar aqui falando."

A arte como agente de transformação e inclusão

Marjorie Estiano celebrou suas personagens na 11ª edição do Power Trip Summit — Foto: Paula Fróes
Marjorie Estiano celebrou suas personagens na 11ª edição do Power Trip Summit — Foto: Paula Fróes

As transformações também passam pela arte, apontada como uma ferramenta estratégica para o despertar da consciência coletiva. "A possibilidade de você poder refletir mais sobre uma situação de violência é maior com a arte", afirmou Marjorie. "Ela é uma ferramenta, um campo estratégico da formação de uma sociedade, não está à parte, separada."

Silvia compartilhou experiências de como a cultura pode provocar mudanças reais. "A arte contribui para a conscientização das pessoas. Casos emblemáticos, como o de João de Deus ou o assassinato de Marielle Franco, abriram debates fundamentais. Marielle permitiu uma discussão sobre violência política de gênero que a gente não tinha na sociedade."

Silvia Chakian reflete sobre mudanças no sistema judiciário — Foto: Paula Fróes
Silvia Chakian reflete sobre mudanças no sistema judiciário — Foto: Paula Fróes

O papel das mulheres nos bastidores das produções culturais e nos espaços institucionais também foi discutido. "Me sinto mais acolhida e respeitada quando vejo uma sala diversa", contou Marjorie. "Às vezes, quando você entra em uma sala e só tem homem, o debate fica truncado. Para a gente reconhecer e evoluir como sociedade, precisamos ter essa diversidade em todos os espaços."

Silvia destacou os desafios de ocupar posições de liderança nas instituições públicas. "Essas instituições jurídicas eram muito masculinas e isso tem mudado porque as mulheres lutaram para ocupar esses lugares. Mas nas cúpulas ainda são os homens que decidem os rumos institucionais. Essa geração que vem fazendo esse papel acaba sendo estigmatizada, limitada nas possibilidades, mas é o papel dela abrir espaço para que as próximas possam ocupar de forma integral."

Sobre a 11ª edição do Power Trip Summit

Principal encontro de lideranças femininas do Brasil, o Power Trip Summit é promovido por Marie Claire, com patrocínio de MSD, Boticário, Vivo, Banco do Brasil e SulAmérica; apoio institucional de Magalu, Dove e Secretaria de Cultura e Turismo - Prefeitura de Salvador; parceria da GOL Smiles e Mastercard; e hotel oficial Fera Palace Hotel, em Salvador.

O tema da 11ª edição é Intelligence: Influência | Inovação | Identidade, assuntos quentes e que acompanham o pensamento Marie Claire.

O evento reúne em sua plateia CEOs, empreendedoras, conselheiras e lideranças da sociedade civil nos campos da cultura, beleza, moda, política, ciência, tecnologia, educação e transformação social. No palco, nomes influentes levantam a conversa.

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