Retratos

Por Mariana Gonzalez, em colaboração para Marie Claire — São Paulo


Podcast esmiúça história da chefe do tráfico Nenê da Brasilândia — Foto: Reprodução/Arquivo
Podcast esmiúça história da chefe do tráfico Nenê da Brasilândia — Foto: Reprodução/Arquivo

Floripes Souza de Oliveira passou anos trabalhando como empregada doméstica em casas de famílias ricas de Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. Começou ainda na infância. Mas, com o passar dos anos, o trabalho foi gerando revolta – afinal, passava o dia cuidando de casas com abundância de tudo e, no final do expediente, voltava para a Brasilândia, bairro pobre da zona norte, onde faltava muita coisa. Até que, certo dia, recebeu um tapa na cara, dado pela patroa durante uma discussão.

Essa foi a virada de chave que começou a transformar a jovem, nascida em Alagoas mas criada desde a primeira infância na periferia paulistana, em Nenê da Brasilândia, a mulher que comandou o maior esquema de tráfico de drogas em São Paulo nos anos 1970 e 1980, comparada a grandes criminosos como Pablo Escobar e Lampião – sempre homens.

Depois do tapa, Nenê decidiu que nunca mais voltaria ao posto de trabalhadora doméstica. A agressão é tão marcante em sua biografia que “um tapa na cara” dá nome ao segundo episódio do podcast Nenê da Brasilândia, uma produção da Rádio Novelo para a Wondery, estúdio de podcasts do Amazon Music.

O podcast conta, em oito episódios, a história de Floripes a partir da apuração dos jornalistas Davi Molinari, que investiga Nenê da Brasilândia desde os anos 1990, e Paulo Motoryn, que entrou na apuração em 2016. A documentarista Paula Sacchetta completa o time na direção.

“A história da Nenê se confunde muito com a história da violência no Brasil: o pai dela era do bando do Lampião, ela vem de uma família retirante que migrou para São Paulo em um período muito específico, cresce no crime durante a Ditadura Militar e é assassinada em 1989 em um crime que nunca foi solucionado”, resume Paula.

Nenê da Brasilândia veio de família de retirantes que migraram para São Paulo — Foto: Reprodução/Arquivo
Nenê da Brasilândia veio de família de retirantes que migraram para São Paulo — Foto: Reprodução/Arquivo

Se para alguns ela era uma comerciante, dona de padaria, que protegia a comunidade – porque não tolerava assalto e violência contra moradores da Brasilândia –, para outros era apenas uma bandida cruel. Fato é que, até hoje, falar dela desperta emoções no bairro.

O podcast passa longe de transformar Nenê da Brasilândia em heroína, mas olha para a mulher por trás da fachada de temida traficante estampada nos jornais – que, aliás, eram bastante sexistas quando se referiam a ela. “A gente tenta dar conta dessa figura complexa que é a Nenê, uma mulher que ocupou um lugar que mulheres não ocupam e cuja história acabou ficando perdida”.

‘Nem no crime há lugar para as mulheres’

Entre as teorias que explicam como Nenê teria se tornado chefe do tráfico na Brasilândia estão mitos de que ela teria sido levada ao crime por seu primeiro marido ou por ter se envolvido com um famoso traficante da época – ambos desmentidos pelo filho dela, Cal, em entrevistas ao podcast. A verdade é que Floripes foi para o mundo do crime por suas próprias pernas, sem precisar que um homem a levasse a isso.

“O podcast fala desse clichê que mulher no crime é mulher de traficante”, percebe Paula Sacchetta. “Se você jogar no Google ‘mulher traficante’, os resultados que aparecem são ‘mulher de traficante’, ou seja, as esposas e namoradas dos criminosos, e não a mulher que ocupa a liderança. Nem no crime tem lugar para as mulheres”.

E Nenê sentiu isso na pele: mesmo mandando e desmandando, desafiando policiais e até promovendo uma fuga da cadeia – segundo ela, decidiu fugir ao saber que sua filha de 13 anos tinha sido vítima de estupro; precisava, portanto, cuidar da menina e se vingar dos algozes – ela não escapou do sexismo da imprensa.

Em matérias de jornal lidas no podcast, ela é descrita como uma mulher "parda", “longe de ser bonita”, com o “rosto marcado por manchas” e até “devoradora de homens”.

Nenê da Brasilândia foi tratada pela imprensa da época com sexismo — Foto: Reprodução/Arquivo
Nenê da Brasilândia foi tratada pela imprensa da época com sexismo — Foto: Reprodução/Arquivo

Embora apresentado por dois homens brancos e uma diretora branca – que vez ou outra surge no podcast fazendo comentários que chamam atenção às desigualdades de gênero vividas pela protagonista – o podcast “Nenê da Brasilândia” conta com a consultoria do escritor Vagner Souza, um dos fundadores do Sarau da Brasa, nascido e criado na Brasilândia.

Ele leu todo o roteiro e sugeriu alterações importantes a partir do olhar de quem nasceu, foi criado e ainda vive na Brasilândia, como trocar a identidade de pessoas que poderiam ser expostas a riscos por suas entrevistas ou mesmos marcadores de linguagem que não fazem sentido na Brasilândia – Paula Sacchetta cita um exemplo: Vagner vetou o termo “cria da Brasilândia”, porque essa é uma gíria típica das favelas do Rio de Janeiro, não de São Paulo.

O Sarau da Brasa também está presente em poesias compostas por poetas da Brasilândia e interpretadas ao final de cada episódio. Serão oito no total – o primeiro foi ao ar em 18 de abril e o quinto, mais recente deles, ficou disponível na última terça-feira (9), no Amazon Music.

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