Sandra Annenberg se abre sobre aborto: 'Quem deveria legislar sobre o corpo feminino é a própria mulher'
A apresentadora do Globo Repórter é rosto querido da audiência e construiu sua assinatura inconfundível no jornalismo brasileiro. Aqui, Sandra fala dos aprendizados em 40 anos de carreira, das mulheres que cimentaram suas experiências e de como se prepara para viver o (mais que bem-vindo) amanhã
Por Natacha Cortêz
"Me belisco ainda. É verdade? Vim parar aqui?" Essa é a reação de Sandra Annenberg sempre que um desconhecido a aborda na rua para falar de seu trabalho, mesmo quatro décadas depois de ter aparecido pela primeira vez na televisão.
"Caramba, a gente definitivamente não tem noção da importância [que tem] na vida das pessoas, fico impressionada do quanto fazemos parte de uma espécie de memória nacional", continua a jornalista e apresentadora do Globo Repórter, atração que completa 50 anos neste 2023.
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Sandra é íntima do universo televisivo desde pequena. A mãe, Débora Takser, foi produtora na TV Cultura e levava a filha caçula a tiracolo para o trabalho, "aquela coisa de não ter com quem deixar [a criança], muito normal entre as mulheres da geração dela", conta a apresentadora.
"Aí me dizia: 'Fica aí no cantinho desenhando e fazendo a lição enquanto mamãe ganha o nosso dinheiro'. Eu obedecia, mas não tirava os olhos das pessoas gravando, da movimentação do estúdio, das luzes e cores do lugar", lembra. A infância nos bastidores comoveu Sandra, que aprendeu a amar aquele ambiente irremediavelmente. "Criei uma paixão. A caixinha preta da televisão me fascinava como poucas coisas. Entendi logo cedo que queria fazer comunicação e me alimentar dela. E foi isso o que busquei a vida inteira."
A busca surtiu efeito, são 32 anos só de Rede Globo e um currículo que inclui a bancada do Jornal Hoje, a cobertura de duas Copas do Mundo (2006 e 2010), a apresentação do Fantástico e Jornal Nacional, entre outros trabalhos. A trajetória até aqui, no entanto, teve suas experimentações.
Antes de mergulhar de cabeça no jornalismo, Sandra passou pelo entretenimento e chegou a atuar em novelas, peças de teatro e minisséries. Contracenou com Tarcísio Meira e Glória Menezes – no espetáculo Um Dia Muito Especial – e com Edson Celulari, em cenas de nudez, na minissérie Chapadão do Bugre.
A (não tão) breve e intensa carreira de atriz explica a escolha de sua primeira formação: antes da graduação em jornalismo na FIAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado), em São Paulo, cursou dois anos de um concorrido curso técnico em artes dramáticas na USP (Universidade de São Paulo).
A híbrida bagagem profissional formou uma jornalista que não sustenta o verniz em frente à câmera. Não porque não consegue, mas porque não se reconhece dessa forma. Sandra se emociona, erra (e vira meme), escapa da carcaça que protege o emissor da audiência; Sandra humaniza o jornalismo.
Com isso, acabou criando um estilo muito próprio e mais próximo de quem recebe a notícia do outro lado. No fundo, sabe disso e se orgulha: "Essa sou eu. Esse é o meu quadradinho. Olha, e é bom [ri]. Dá uma paz de falar: 'Acho que cheguei lá'. Cheguei num lugar ao qual pertenço, onde me acolho e que criei. Não foi fácil criar isso", conta.
A televisão tem sido tão parte de sua vida que lhe trouxe um grande amor: ela e o marido, o também jornalista Ernesto Paglia, se conheceram nos bastidores do Fantástico, em 1991. Ela, ainda cursando a faculdade de jornalismo, chegava para apresentar o programa quando ouviu do diretor "antes, você precisa aprender a fazer reportagem, vou te colocar para acompanhar o melhor repórter da TV brasileira". O veterano era Ernesto.
"Segui a missão à risca e assim o faço até hoje", diz ela, com o rosto corado. "Sou completamente apaixonada pelo trabalho do Ernesto. O jeito com que trata a equipe, a maneira com que se relaciona com os entrevistados, o namoro que tem com a câmera… E o texto… único! Ouso dizer, ninguém escreve para televisão como ele", se declarou em sua conta do Instagram, quando o companheiro teve o contrato encerrado com a Globo em dezembro de 2022.
“Dias melhores para todas nós”
Com Ernesto, Sandra teve Elisa, sua única filha, que hoje aos 19 anos mora em Nova York e segue os passos iniciais da mãe estudando interpretação. A jornalista engravidou de Elisa aos 35 – na época apresentava o Jornal Hoje e estava há dez anos com o marido. A maternidade, diz Sandra, foi uma escolha e um acordo com Ernesto, que já tinha dois filhos do primeiro casamento.
"Ele falou: 'Olha, eu não queria mais, mas por você, pelo nosso amor, topo'. Então a gente negociou um só [filho]", lembra. Quanto a ela, conta que queria experimentar a maternidade em sua totalidade. "Biologicamente falando. Queria sentir no corpo o que era gerar uma pessoa. As transformações, as mudanças, a amamentação, o parto, as noites insones, tudo isso fazia parte de uma ideia de experiência para mim."
A chegada de Elisa transformou Sandra e abriu suas percepções sobre ser mulher no mundo. Ela explica: "A partir dali, já não era mais só eu… A partir dali, tinha um ser com quem dividia tudo, especialmente a mim mesma, o meu tempo."
O que sentiu quando teve a filha a fez ainda recordar da mãe, que assim como ela, conciliou o avanço dos seus desejos profissionais com a criação dos filhos. "Digo que sou feminista desde sempre porque aprendi com a minha mãe. Ela foi a primeira desquitada na escola em que passei minha infância, nem divórcio existia na época, e existia aquele olhar das outras mães, inquisidor, de 'a separada'. Muitas não permitiam que as filhas fossem à minha casa, porque eu era a filha da mulher separada. Quando aconteceu a maternidade para mim, essa e outras histórias passaram como um filme na minha cabeça. E me deram força para não sucumbir."
Hoje, aos 54 anos, as vivências da mãe vêm de novo para Sandra. Isso porque, para ela, se constituir em frente às câmeras implica, agora, em envelhecer em frente delas. Condição que já não a perturba mais. "As pessoas têm falado muito do etarismo e isso é importante. No meu caso, que estou envelhecendo no vídeo, é isso: quero me ver envelhecendo".
O assunto a faz lembrar ainda de outra mulher, a colega de Globo Repórter, Glória Maria, morta em fevereiro – uma mulher que evitou, a todo custo, revelar a própria idade. "A verdade é que ela foi de uma geração em que as mulheres não podiam envelhecer. Não podiam mesmo, porque perdiam o emprego ou deixavam de ser desejadas, seja lá o que isso signifique nesse mundo machista. A Glória escondia a idade para que a idade não a escondesse. Por causa de mulheres como ela, penso: ‘talvez a gente esteja entregando para a geração da minha filha, o enfim poder envelhecer’", diz, com otimismo e sorriso escancarado.
O mesmo otimismo aparece quando Sandra fala sobre a experiência feminina nos dias atuais. "Sempre lutei contra esse machismo estrutural em que a gente vive, e hoje acredito em dias melhores para todas nós." Mas ela é, sobretudo, capaz de sentir as dores – quando, no Altas Horas Klara Castanho falou pela primeira vez do estupro que sofreu, foi Sandra quem, "em nome de todas as mulheres", ofereceu à atriz, lágrimas e um longo abraço – e se posicionar sem censuras.
É assim quando falamos de direitos reprodutivos e da descriminalização do aborto no Brasil. Sandra é irredutível e, mais uma vez, não poupa ninguém: "Quem deveria legislar sobre o corpo feminino é a própria mulher. A gente não tem que entender o aborto como assassinato, porque ele não é. Não tem que entender como violência. Violência é o que se faz com a mulher. Violência é não permitir o aborto de uma criança que foi estuprada com 11 anos de idade."









