Agosto Lilás: ‘Meu ex-noivo me trancou em um quarto de hotel por 16 horas. Quando quis terminar, ele tentou me matar’
A empresária Tatiana Pimenta sofreu uma tentativa de feminicídio após viver um relacionamento abusivo, repleto de crises de ciúmes e tentativas de isolá-la do convívio de amigos e familiares. A Marie Claire, ela narra como conseguiu romper com a violência, as dificuldades que enfrentou para obter uma medida protetiva e o conforto que falar sobre o assunto trouxe para sua vida: ‘A gente tem vergonha, mas falar cura’
Por Camila Cetrone, redação Marie Claire — São Paulo
Nem sempre a empresária Tatiana Pimenta falou abertamente sobre o relacionamento abusivo que viveu. Na verdade, diz que demorou para cair a ficha de que estava vivendo em um, mesmo percebendo sinais tóxicos de seu ex-noivo, como ciúmes excessivo e tentativas de afastá-la de sua própria família. A situação chegou ao ápice quando ele a manteve em cárcere privado por 16 horas em um quarto de hotel no Rio de Janeiro, onde viajava a trabalho.
“Fiquei trancada ali com ele, que gritou e me ameaçou esse tempo todo. Quando disse que não queria mais casar, ele disse: 'Então vou te matar e depois me mato'. Ele me segurou forte pelo braço, tentou me sufocar com o travesseiro”, lembra Tatiana em entrevista a Marie Claire.
O caso aconteceu em 2012, mas levou anos para que ela começasse a falar do assunto. Lembra que, na época, não quis fazer uma denúncia logo depois da violência – mesmo com insistência de policiais que uma prima dela conseguiu chamar –, o que a prejudicou para obter uma medida protetiva. Passou 10 meses tentando se proteger do homem, que frequentemente ia até a porta de sua casa e ao local de trabalho dela.
Isso tudo foi intercalado com um quadro de depressão e estresse pós-traumático, desenvolvido após a tentativa de feminicídio e a falta de acolhimento na Delegacia da Mulher.
“As próprias mulheres que trabalhavam lá me trataram como se eu tivesse culpa de estar ali. Os funcionários diziam que não podiam me dar uma medida protetiva por ele estar na frente da minha casa, em uma via pública. Só consegui depois que ele me mandou uma mensagem em que me ameaçava de morte.”
Por mais que o caso de Tatiana tenha acontecido há pouco mais de uma década, esboça um cenário alarmante. Só no ano passado, as tentativas de feminicídio cresceram 16,9% no país, segundo o 17º Anuário de Segurança Pública do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). No mesmo período, o Brasil também bateu recorde de feminicídios: foram 1.437 registros, número que representa um aumento expressivo de 6% dos casos.
Tatiana, agora com 42 anos, sabe da urgência de tratar do assunto, e, ao longo do tempo, passou a compartilhar sua história para ajudar outras mulheres, encorajando-as a identificar e romper com relacionamentos que podem representar riscos às suas vidas. Uma das ocasiões em que mais faz isso é em meio ao Agosto Lilás, mês de conscientização sobre violência doméstica e familiar contra mulheres no Brasil.
Também passou a se engajar neste combate por meio da Vittude, plataforma que conecta pacientes a psicólogos, da qual é CEO e fundadora. Há uma ferramenta que usa Inteligência Artificial para identificar palavras-chaves em respostas de um questionário inicial que indiquem que uma mulher está em contexto de violência, conectando-a a profissionais especializados.*
A seguir, leia o relato de Tatiana Pimenta.
"Eu e meu ex-noivo tínhamos uma relação razoavelmente tranquila quando namorávamos. A sensação que eu tenho é que, quando noivamos, era como se ele tivesse tomado posse de mim: foi quando começou a achar ruim eu sair com meus amigos ou fazer viagens a trabalho. Me pedia para largar o emprego porque eu viajava demais, que ele me sustentaria… Era um tipo de narrativa para diminuir minha independência, inclusive financeira; uma violência que vem acompanhada de "te amo muito" ou "quero que nosso relacionamento dê certo, fica difícil se você viajar toda semana".
Tinha momentos de ciúme excessivo. Eu trabalhava em uma área comercial como gerente regional, e era comum sair para jantar com clientes, meu chefe e pessoas do meu time. Meu ex-noivo ficava me ligando sem parar: eram 10, 15 ligações não atendidas no celular – sempre que eu conseguia falar no telefone, discutíamos, ouvia ele dizer que eu não gostava dele ou que só pensava em mim.
Sou filha única, e ele começou a tentar reduzir o contato que eu tinha com os meus pais – que até hoje é muito frequente, os dois moram sozinhos em uma cidade do interior de outro estado. Ele dizia: 'Por que você precisa falar todo dia com sua mãe? Você precisa ser mais independente, já é adulta.’
Comecei a ficar incomodada, e meus pais também perceberam. Teve um episódio em que eu estava no trabalho e de repente minha mãe me ligou. Perguntou para mim 'o que está acontecendo com você e por que você está sendo agressiva comigo no Skype?'
Não entendi nada. Ela explicou que eu estava falando um monte de coisas: que era para ela parar de me ligar, de atrapalhar minha vida, que eu queria ser independente, casar e não queria ter que ficar aturando dois velhos. Era um tom de mensagem bizarro. Expliquei a situação para ela. No começo pensei que fosse um hacker, mas sabia que era ele. À noite, ele foi para minha casa e tivemos uma discussão muito feia.
No dia seguinte, embarquei para o Rio de Janeiro para visitar um cliente, e meu ex ficou em São Paulo. Uma prima minha morava lá, e foi passar a noite comigo no hotel para a gente bater papo e dormir, sempre ficávamos juntas. Umas 10 da noite, toca o interfone e alguém da portaria me diz que ele estava na linha. Falei que poderia transferir a ligação, mas a pessoa respondeu que ele estava na recepção.
Sabe quando você demora para entender o que está acontecendo? Se a pessoa estava em São Paulo, então como do nada ela foi parar no Rio? Depois entendi que ele pegou a estrada, e dirigiu de São Paulo até lá.
Como minha prima estava no quarto, não autorizei a subida dele e desci. Ele virou uma fera, disse que eu estava o traindo com alguém. Expliquei que minha prima estava no quarto e ele quis ver se era verdade. Subimos e, em seguida, a levamos para casa.
Na volta, ele subiu para o meu quarto e, lá, me deixou 16 horas em cárcere privado. Fiquei trancada ali com ele, que gritou e me ameaçou esse tempo todo – eu tinha uma reunião com um cliente às 8 da manhã, eu já devia estar dormindo. Em um momento, diz que não queria mais casar, namorar, nem nada com ele, que a relação estava insustentável. Quando falei isso, o monstro saiu da casinha. Ele disse: ‘Não tem isso de não querer mais. Se você não quiser mais, eu te mato agora e me mato depois.' Ele me segurou forte pelo braço, tentou me sufocar com o travesseiro. Daí ele parava, chorava e gritava de novo. Imagina isso acontecendo 16 horas seguidas? Eu gritava, mas ninguém ouvia.
Ele fumava. Quando o cigarro acabou, disse que eu ia descer com ele para comprar mais, mesmo eu dizendo que não. Quando ele se distraiu para pegar o dinheiro, consegui mandar um SMS para minha prima. Pedi para ela chamar a polícia. Pegamos o elevador e, no hall do hotel, consegui correr para trás do balcão, pedindo para a pessoa me ajudar.
Foi quando a polícia chegou. Os policiais queriam me levar para a delegacia para fazer o corpo de delito – eu estava toda machucada, com o corpo todo roxo. Com isso, eu prestaria queixa e ele poderia ser preso em flagrante. Mas eu estava exausta de uma noite inteira naquela situação, não quis ir, só quis respirar leve e que ele fosse embora.
Esse é um dos maiores arrependimentos que eu tenho. Só que na hora o estado de alerta e trauma é tão intenso que você não faz nada. Ele foi liberado e eu só dei queixa 10 meses depois para conseguir uma medida protetiva. Na época, você precisava ter provas suficientes para prestar queixa e, aí sim, te davam uma medida protetiva [em abril deste ano, o presidente Lula sancionou a Lei nº 14.550/2023, que cede medidas protetivas imediatamente a mulheres vítimas de violência].
Esses 10 meses foram difíceis: ficava um dia na casa de uma amiga, depois pedia para o meu trabalho me mandar para outra cidade uma semana inteira. Tinha pesadelos em que invadiam minha casa, machucavam meus pais ou me cercavam na rua. Estava em estado de alerta constante, não conseguia dormir, o que impactou minha saúde emocional. Desenvolvi depressão e estresse pós-traumático.
Ele também começou a ficar parado na porta da minha casa, esperando eu sair, e chegou a ir no meu trabalho algumas vezes. Não dava para saber quando eu era seguida. Na Delegacia da Mulher, não fui acolhida, sentia desespero. As próprias mulheres que trabalhavam lá tinham uma postura de que eu tinha feito alguma coisa para estar ali.
Os funcionários diziam que não podiam me dar uma medida protetiva por ele estar na frente da minha casa, porque não podiam impedi-lo de ficar em uma via pública. Eu teria de comprovar que ele colocava minha vida em risco. Só consegui depois que ele me mandou uma mensagem em que me ameaçava de morte. Depois que prestei queixa, nada aconteceu. Ele nunca foi processado, nem julgamento teve. Acho que é uma falha no próprio sistema. As coisas só acontecem depois que a mulher morre – e olhe lá!
Fui buscar terapia pela primeira vez em junho de 2012 e tive dificuldade para encontrar psicólogos. Tentei pelo plano de saúde e passei por profissionais ruins, saía da sessão pior do que entrei – hoje sei que a saúde suplementar no Brasil não favorece os profissionais de saúde, que ganham R$ 20 por sessão.
Foi dessa dificuldade de encontrar colo que recalculei a rota. Além disso, em 2015 fui desligada do meu emprego em uma indústria de materiais de construção – sou engenheira civil de formação – dois dias antes do meu aniversário, e descobri que meu pai estava com câncer no mesmo dia. Fiquei três meses envolvida no tratamento dele e, como tinha tido uma crescente na minha carreira, tinha uma grana para me manter dois anos sem trabalhar. Me permiti respirar, fui viajar, e quando voltei comecei a me interessar pela telemedicina – algo que não praticamente existia na época.
Em um dos hospitais que me aproximei e estava testando o formato, soube que o setor de psicologia tinha uma regulamentação mais incipiente: por não demandar tantos exames e precisar basicamente da fala, alguns modelos de atendimento à distância estavam sendo testados. Falei: 'Como não pensei nisso antes?'. Foi assim que surgiu a ideia de criar a Vittude.
Não me entendia como alguém que estava dentro de um ciclo de violência até o dia do cárcere, mas foi depois que o relacionamento acabou que entendi que era abusivo. Comecei a fazer alguns trabalhos e conhecer iniciativas como a Justiça de Saia, da procuradora Gabriela Mansur. Na época, ela chegou a me convidar para um bate-papo, mas ainda não lidava bem com a história. Percebo também que a maioria das mulheres têm dificuldade de enxergar isso porque a primeira violência nunca é física, mas psicológica.
Nos primeiros anos da Vittude, entre 2015 e 2016, tinha dificuldade de falar do assunto, me emocionava, tinha medo de colocar o dedo na ferida, vergonha… Até que uma vez estava palestrando em um evento sobre os desafios de ser mulher no empreendedorismo. E por acaso surgiu uma pergunta sobre violência contra mulher e quais eram os caminhos para combatê-lo.
Me senti confortável de falar da minha história, e percebi que ela impactou muito as mulheres que estavam ali, o que me causou desconforto porque não tinha noção do tamanho do problema. Resolvi perguntar quantas delas passaram por algo parecido, las mesmas ou alguém próximo, e mais da metade da plateia levantou a mão naquele dia. Foi chocante. Comecei aos poucos a falar disso, e percebi o quanto a fala poderia me ajudar a me curar. Hoje, intensifico muito a conversa sobre isso no Mês das Mulheres e no Agosto Lilás, por exemplo.
Tento olhar para o sofrimento e colher algo de positivo para enxergar que consegui vencer aquela adversidade sem me colocar no lugar de vítima. Não estaria aqui hoje se não tivesse vivido esses episódios, e sem esse processo de trauma, talvez eu nunca tivesse chegado a fazer terapia. O caos às vezes é feio, mas é preciso o caos para ter criação. Acho que é parte do nascimento de outras experiências e de amadurecimento como ser humano.
A mensagem que queria deixar para as mulheres é que busquem ajuda, rede de suporte, façam denúncia… Às vezes a gente tem medo de denunciar, vergonha de falar. Mas, para mim, falar cura. Me livrei de muitos fantasmas quando comecei a falar do que tinha acontecido comigo.”
*Se você é uma mulher que está vivendo violência ou conhece alguém que esteja em situação de risco, busque a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, linha do Governo Federal que funciona 24 horas como rede de acolhida e escuta para mulheres em situação de violência. Neste link, veja mais serviços públicos que oferecem amparo para vítimas de violência de gênero, doméstica ou familiar.









