Retratos

Por Raphaela Cunha, Marie Claire — São Paulo

Em 2017, despertou a vontade em Danielle Mattos e Luzia Aquino de aumentar sua família. Adoção estava fora dos planos do casal, que optou por fazer uma inseminação in vitro. Elas, que vivem em São Vicente, no litoral de São Paulo, procuraram ajuda em uma clínica da capital e iniciaram o tratamento em Luzia. “A gente tinha essa vontade, mas vinha protelando por causa da instabilidade”, assumiu Danielle em conversa com Marie Claire.

A técnica de enfermagem sempre esteva ao lado da mulher durante o tratamento, que, segundo ela, não foi nada tranquilo. “Fizemos duas tentativas de inseminação in vitro. A primeira vez não deu certo e a segunda vez deu, mas foi uma gestação não embrionária, o embrião não gerou feto, só tinha o saco gestacional. Ela teve que parar de tomar as medicações e fazer o aborto. A gente sofreu bastante com a perda e não só por conta disso, mas também pela questão financeira. Foi muito caro e resolvemos dar um tempo, até mesmo por conta do uso dos hormônios”.

Um ano após o trauma, elas não desistiram do sonho de serem mães e resolveram tentar novamente. No entanto, o empecilho desta vez era financeiro. Na época, o casal investiu cerca de 20 mil reais no processo de inseminação in vitro. Danielle conta que esse montante pode chegar a 30 mil, levando em consideração todos os medicamentos que são necessários. “Nessa época, consideramos a caseira e começamos a procurar. Antes da gente fazer a in vitro, já tínhamos pesquisado como funcionava e sobre doadores para a inseminação caseira, porque tínhamos curiosidade. A caseira seria a nossa última carta na manga”.

Até que o que era para ser um “segundo plano” se tornou o objetivo principal e, em 2021, elas iniciaram a saga de encontrar um doador pelas redes sociais. “Tem muitas páginas no Facebook e se você procurar, tem no TikTok também. Não somos as únicas que engravidamos de gêmeas. Tem vários casais homoafetivos que também tiveram seus filhos dessa maneira”.

Danielle lembra que a companheira começou a buscar um perfil que se encaixasse no do casal em um grupo do Facebook. Outro detalhe que observou foi o número de casos bem sucedidos do doador. “A gente entrava em perfis LGBTQIAP+ e líamos os comentários para saber detalhes e os próprios casais indicam quando o caso foi positivo. Isso é ilegal, no Brasil não pode. Mas a gente fez achando que não iria dar certo. Chegamos a marcar uma consulta em uma clínica em São Paulo para fazer uma inseminação, mas acabou dando certo em casa”.

Danielle Mattos e Luzia Aquino com as filhas Helena e Heloísa — Foto: Arquivo Pessoal
Danielle Mattos e Luzia Aquino com as filhas Helena e Heloísa — Foto: Arquivo Pessoal

Um dia, a Luzia chegou e disse: "Tenho uma notícia: estou grávida"

Após meses estudando os possíveis doadores, o casal bateu o martelo e fez a escolha. O próximo passo seria marcar o dia e o local. Elas aproveitaram o período de férias para marcar o encontro com o doador em um hotel da Baixada Santista, em São Paulo. “Ela achou um cara e é tudo certinho. Ele faz e mostra os exames para vermos se está bem de saúde. Porque para ele não é interessante não dar certo e a mulher também tem que estar com os exames em dia. E depois disso, é só controlar a ovulação. Ela combinou tudinho com ele. Nós fomos em um hotel. Lá, ele ejaculou em um potinho, daí aspira com cuidado com uma seringa, depois coloca em uma sonda e injeta. E fica ali um tempinho”.

Apesar de estarem ansiosas para serem mães, também estavam descrentes de que o método não convencional daria certo. Mas o resultado foi o oposto do que acreditavam: “No início de novembro, eu cheguei a reparar que ela estava ansiosa, mas não me falou nada. Um dia, a Luzia chegou para mim e disse: ‘Dani, tenho uma notícia para te dar: estou grávida’. E eu falei: ‘Como assim, grávida?’. Ela afirmou que deu certo e descobrimos o positivo no início de novembro, quando fez um teste de farmácia”.

"Quando a gente conta, ninguém acredita"

Com o positivo para a gravidez, também chegaram algumas inseguranças. Por conta do aborto, a enfermeira ficou receosa se a esposa conseguiria segurar aquela gestação. O passo seguinte foi realizar um ultrassom para checar a saúde da criança. “A gente queria saber como estava o endométrio dela. Depois de um tempo, fomos em uma consulta e o médico disse que estava bastante espesso, então provavelmente tinha um bebê ali. Ele receitou outro ultrassom depois de 10 dias”, lembra.

Danielle e Luzia não imaginavam a surpresa que estava por vir. No ultrassom seguinte, além de se certificarem de que estava tudo bem com o bebê, também descobriram que seriam mães de gêmeos. “A gente marcou em uma outra clínica e, como somos da área da saúde, conseguimos uma guia do ultrassom. Na consulta, a médica confirmou que tinha bebê, mas que ainda não dava para ouvir o coração porque ainda era muito cedo. Logo depois, ela falou: ‘Parece que estão se dividindo, tem duas vesículas embrionárias. São gêmeos e pelo jeito estão na mesma placenta, na mesma bolsa gestacional’”.

“A gente começou a rir e ficamos sem reação. Contamos para ela que tinha sido caseira e ela levou um susto. O nosso caso foi novidade para todo mundo do hospital. Nós saímos da clínica sem saber o que fazer. Eu totalmente preocupada, porque trabalho na UTI pediátrica neonatal de um hospital. Começou a passar um tanto de coisa na minha cabeça. Mas aí, começamos a fazer exames periódicos e estava tudo bem com os bebês. Ela começou a fazer o pré natal. Quando a gente conta, ninguém acredita. A medida os meses se passavam, percebemos que as meninas estavam muito bem de saúde, aí relaxamos. Deixamos a gestação fluir”, contou Danielle.

A gravidez de Luiza correu bem e, em 13 de junho de 2022, as gêmeas nasceram. Helena, às 9:26h, pesando 2.540kg e 43 cm e Heloísa, às 9:29h pesando 2.350kg 43cm. Danielle frisou que quando as pequenas começarem a se questionar como foram geradas, o casal não vai esconder a verdade. “Elas vão perguntar. Mas até lá, as coisas já vão estar mais evoluídas. Não sei qual a maneira vai ser, mas vamos falar sim. Até mesmo porque não têm a figura de um pai. São duas mães”.

Danielle Mattos e Luzia Aquino com as filhas Helena e Heloísa quando ainda era recém nascidas — Foto: Arquivo Pessoal
Danielle Mattos e Luzia Aquino com as filhas Helena e Heloísa quando ainda era recém nascidas — Foto: Arquivo Pessoal

Inseminação caseira: o que diz a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)?

Cada vez mais, mulheres tem aderido a essa prática para realizarem o sonho de serem mães, por conta dos altos preços dos tratamentos. Não existe regulamentação para a inseminação caseira no Brasil, portanto, não é considerada ilegal.

Em 2018, a Anvisa fez um alerta com relação aos riscos de se engravidar desta maneira. “Qualquer material biológico de terceiros requer avaliação antes de ser introduzido em outra pessoa. As triagens social, clínica e laboratorial do doador são necessárias para eliminar riscos de transmissão de doenças por meio da avaliação da presença de agentes infecciosos, como HIV, Hepatites B e C, Zika Vírus, Chikungunya, entre outros. A exposição ao ambiente também deve ser considerada. Na inseminação caseira, o esperma fica em contato com o ambiente externo e com os micro-organismos do ar durante alguns momentos”.

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