Como foi a primeira e única greve geral de mulheres que mudou a história da Islândia
Em 24 de outubro de 1975, 90% das mulheres islandesas não trabalharam, nem fora nem dentro de casa, o que mudou para sempre a história da igualdade de gênero no país
Por Arianna Galati, da Marie Claire Itália, com tradução de Camila Cetrone, de Marie Claire Brasil*
O preto e branco das fotos antigas distorce a percepção: em 24 de outubro de 1975, Reykjavik provavelmente estava sob um tímido sol. Mas o brilho de 25 mil mulheres nas ruas nunca foi questionado. O Kvennafrídagurinn, o Dia Livre das Mulheres, foi o primeiro e único grande movimento de greve geral feminina da história, mudando o curso (e o discurso) sobre igualdade de gênero, primeiro na Islândia, depois no resto do mundo. Foi um exemplo impressionante de inteligência estratégica ao confrontar um sistema cultural inteiro.
O Kvennafrídagurinn não foi apenas um símbolo; evidenciou a importância de reivindicar igualdade entre homens e mulheres, a necessidade de dividir de forma justa o crescimento, a educação dos filhos e o trabalho doméstico, hoje amplamente reconhecido como "carga mental" (principalmente feminina).
Esse dia marcou também o papel das mulheres na política: cinco anos após a greve, a Islândia elegeu sua primeira presidente, Vigdís Finnbogadóttir, uma mãe solo divorciada que permaneceu no cargo por 16 anos e três mandatos consecutivos. “O que aconteceu naquele dia foi o primeiro passo para a emancipação das mulheres na Islândia”, declarou Finnbogadóttir à BBC anos depois. “Paralisou completamente o país e abriu os olhos de muitos homens.”
Para entender o que aconteceu exatamente naquele dia, é necessário voltar no tempo. A partir de 1970, sob influência do movimento global pelos direitos das mulheres, surgiu o coletivo feminista islandês Redstockings. O nome fazia alusão ao termo depreciativo usado para feministas em Nova York, as Bluestockings, inspiradas por sua vez na Blue Stocking Society, um grupo intelectual britânico liderado por Lady Elizabeth Montagu no século XIX.
As Redstockings islandesas introduziram elementos de protesto performático, como exibir uma estátua de uma mulher nua em manifestações ou inscrever uma vaca em um concurso de beleza. No entanto, compreenderam que ações teatrais poderiam não consolidar o apoio às questões centrais, como a disparidade salarial. Na época, uma mulher ganhava apenas 25% do salário de um homem para o mesmo trabalho, e anúncios de emprego explicitamente buscavam mulheres apenas para funções de baixo status.
Em 1974, feministas de vários grupos se reuniram em um congresso em Skógar para planejar a manifestação. As Nações Unidas haviam designado 1975 como o Ano Internacional da Mulher e planejavam a primeira conferência mundial sobre igualdade de gênero, na Cidade do México. Durante o congresso, a ideia inicial de uma greve inspirada nos movimentos operários foi descartada. Optou-se por uma abordagem mais inclusiva: um “dia livre” que sublinhasse o impacto das mulheres em todas as esferas.
O planejamento durou meses, com apoio das duas únicas deputadas mulheres no Parlamento islandês. Oito representantes de diferentes categorias sociais — professoras, enfermeiras, funcionárias públicas, donas de casa e mães — foram escolhidas como porta-vozes. Mais de 47 mil panfletos foram enviados por correio, destacando as desigualdades, enquanto a imprensa mantinha o tema em alta. A data escolhida, 24 de outubro, coincidiu com o aniversário das Nações Unidas.
O “dia livre das mulheres” parecia inofensivo à primeira vista, mas seu impacto reverberou profundamente, não apenas na Islândia, mas no mundo todo.
Do amanhecer à meia-noite do dia 24 de outubro, 90% das mulheres islandesas tiraram o tão famoso dia livre. Não foram trabalhar, não cuidaram da casa, não se ocuparam dos filhos. Tempo para elas, por elas: quem não participou da manifestação nacional em Reykjavik, onde, após o almoço, haviam se reunido 25 mil mulheres (cerca de 10% da população da Islândia na época, que contava pouco mais de 220 mil habitantes — hoje ultrapassam 393 mil), passou o dia em caminhadas e piqueniques com amigas. As consequências para o cotidiano da Islândia foram gigantescas.
Os jornais não circularam porque as gráficas eram operadas principalmente por mulheres; creches e escolas primárias ficaram fechadas porque a maioria das professoras eram mulheres; muitos estabelecimentos comerciais geridos por mulheres não abriram. Grandes armazéns, fábricas da indústria pesqueira e leiteira, teatros — tudo parou.
Nos bancos, gerentes homens tiveram que assumir os guichês para operações rotineiras porque as funcionárias não estavam lá. Incapazes de deixar os filhos na escola, com as esposas ou com as raras babás, muitos pais que não puderam ficar em casa levaram as crianças consigo. Como estavam cientes do dia livre das mulheres, os empregadores forneceram doces e brinquedos para entreter as crianças durante o expediente, mas, do ponto de vista da produção, definitivamente não foi um dia de alta eficiência.
Uma história que fez muitos rirem foi a dos supermercados lotados de pais comprando salsichas pré-cozidas para alimentar os filhos e filhas — o único prato que muitos sabiam preparar sem a supervisão das mulheres.
“Esse dia foi difícil para muitos homens. Bancos, lojas, oficinas e escritórios estavam cheios de crianças. Algumas delas nunca tinham visto antes o local de trabalho dos pais. Durante todo o dia, os pais tinham a responsabilidade completa pelos filhos. Alguns homens ainda se referem a essa data como a ‘longa sexta-feira’”, escreveu a Scandinavian Review alguns anos depois, ao relembrar o mítico 24 de outubro de 1975.
À meia-noite, as primeiras a voltar ao trabalho foram as operárias das gráficas para preparar os jornais do dia seguinte: apenas notícias relacionadas ao movimento, apesar da edição reduzida. Para que serviu o dia livre das mulheres na Islândia? Para realmente mudar as coisas.
No ano seguinte, o parlamento islandês aprovou a primeira lei para garantir igualdade de direitos entre mulheres e homens. Muitos países, da Polônia à França, reproduziram o modelo da greve para protestar contra a falta de direitos, culminando até no “protesto do sexo” no Quênia, em 2009, para acabar com as tensões políticas no país.
Quase 50 anos depois, apesar de tudo, a desigualdade salarial e ocupacional das mulheres, tanto na Islândia quanto no resto do mundo, continua sendo uma questão premente, assim como a dependência econômica de muitas mulheres em relação aos seus parceiros, maridos ou famílias. O que poderia abalar novamente consciências e realidades? Talvez repensar um movimento coletivo. Ou: outro dia livre.









